O Federal Reserve manteve a taxa de juros na faixa de 3,50% a 3,75% em sua decisão desta quarta-feira (29), em linha com as expectativas do mercado e marcando mais uma reunião de pausa no ciclo monetário iniciado em dezembro de 2025. A decisão ocorre em um momento simbólico, possivelmente a última sob a presidência de Jerome Powell, que encerra seu mandato em meio a um cenário de inflação ainda resistente, atividade econômica resiliente e crescente incerteza geopolítica.O comunicado e a coletiva reforçaram uma mensagem central para os investidores, de que o Fed segue confortável em manter a política monetária em patamar restritivo por mais tempo, sem sinalização de cortes no curto prazo e com abertura limitada para afrouxamento apenas em 2026. Segundo o dot plot citado durante a reunião, o banco central projeta ao menos um corte de 25 pontos-base no próximo ano, mas mantém forte divisão interna sobre o ritmo e a necessidade desse movimento.Juros estáveis, mas com divisão crescente no comitêApesar da decisão consensual pela manutenção, o FOMC voltou a registrar divergências. O único voto dissidente foi de Stephen Miran, que defendeu um corte de 0,25 ponto percentual. Além disso, parte dos membros apoiou a manutenção dos juros, mas rejeitou a inclusão de viés de baixa no comunicado, sinalizando maior cautela dentro do comitê.Para André Valério, economista sênior do Inter, o destaque está justamente na fragmentação do comitê: “chama a atenção a dissidência de outros três diretores que, apesar de apoiarem a manutenção da taxa de juros no atual patamar, não apoiaram a inclusão de um viés de baixa no comunicado”, afirmou.Segundo ele, isso indica “uma divergência entre os membros do comitê, com alguns se mostrando mais preocupados com o choque inflacionário do petróleo”.Na mesma linha, a estrategista-chefe da Nomad, Paula Zogbi, avalia que o tom geral foi de cautela com viés mais duro. Segundo ela, o cenário atual reflete uma “manutenção hawkish”, já que “os membros do comitê seguem divididos a respeito da magnitude e velocidade dos cortes: 12 esperam ao menos mais um corte, enquanto sete disseram que a taxa de juros deve permanecer onde está até a virada do ano”.Powell reforça inflação mais lenta e cautela com choques externosDurante a coletiva, Jerome Powell afirmou que a convergência da inflação à meta está mais lenta do que o esperado e destacou a necessidade de monitorar fatores como energia, tarifas e o conflito no Oriente Médio.Segundo a análise da Nomad, Powell reconheceu que os efeitos de uma eventual escalada geopolítica poderiam impactar tanto inflação quanto mercado de trabalho, mas ponderou que o choque tende a ser temporário, reduzindo no momento o risco de novas altas de juros.Ainda assim, o cenário de incerteza levou o Fed a manter a estratégia de não antecipar próximos movimentos, reforçando dependência de dados.Cenário base segue sendo juros altos por mais tempoA leitura predominante entre os analistas é de continuidade de um ciclo de juros elevados por período prolongado.Para a estrategista da Nomad, “o Fed manteve o posicionamento de evitar antecipar os próximos movimentos” e reforçou que qualquer decisão dependerá da evolução dos dados e dos choques externos.Já o economista do Inter sintetiza o cenário ao afirmar que “com a incerteza do conflito pairando sobre a inflação e a atividade econômica, não vemos margem para novos cortes nos juros no curto prazo”.Na mesma direção, o sócio-fundador da Private Investimentos, Edson Mendes, destaca o impacto estrutural da política monetária: “a mensagem segue sendo de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos”, o que, segundo ele, “tende a sustentar um dólar relativamente mais forte e aumenta a pressão sobre ativos de risco”.Ele acrescenta que o ambiente global exige maior seletividade: “juros americanos elevados reduzem o apetite global por risco, pressionam bolsas, encarecem o custo de capital e tornam os títulos de renda fixa dos Estados Unidos mais competitivos”.A reação dos mercados foi negativa após a decisão e a coletiva, com queda de ativos de risco e movimento de rotação para ativos mais defensivos.De acordo com a Nomad, “as ações americanas seguem em queda na sessão, assim como ativos de risco em geral, apresentando alguma rotação para qualidade”.Transição de Powell e incerteza institucionalA reunião também ocorre em meio à transição de liderança no Fed. Powell encerra seu mandato como presidente em 15 de maio, após oito anos à frente da instituição. A indicação de Kevin Warsh ainda depende de aprovação no Congresso, adicionando incerteza institucional ao processo.Para Edson Mendes, este momento é simbólico: “Powell teve uma atuação muito marcante nos últimos anos, especialmente no início da pandemia, quando o Fed expandiu fortemente seu balanço e colocou liquidez no sistema”.