A Suzano (SUZB3) deixou claro, durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre de 2026, que o foco da companhia no curto prazo está mais em recompor o balanço, em meio a uma combinação de alavancagem elevada, capex robusto e geração de caixa mais fraca. E a remuneração ao acionista, por ora, pode ficar de lado.A empresa encerrou o período com alavancagem de 3,3 vezes dívida líquida/EBITDA em dólar, patamar que segue acima do nível confortável para parte do mercado e que tem implicações diretas sobre a política de capital. “A desalavancagem continua sendo uma prioridade para a companhia”, afirmou Marcelo Bacci, diretor financeiro (CFO), indicando que o ritmo de redução da dívida deve seguir condicionado à geração de caixa ao longo dos próximos trimestres.Esse cenário ganha ainda mais peso diante do nível de investimentos. O capex somou cerca de R$ 3,2 bilhões no trimestre, com desembolsos concentrados em florestas, manutenção e projetos em andamento, o que acabou comprimindo a geração de caixa em um momento de Ebitda mais baixo. “Tivemos um trimestre com desembolsos mais elevados, principalmente ligados à nossa base florestal e manutenção dos ativos”, disse o CFO. Segundo ele, o fluxo de caixa refletiu não apenas esse nível de investimento, mas também maiores despesas financeiras e consumo de capital de giro, o que ajuda a explicar o resultado mais fraco no período.Com esse pano de fundo, o retorno ao acionista tende a ficar em segundo plano. “A nossa prioridade, neste momento, é a desalavancagem e a disciplina de capital”, afirmou Bacci, sinalizando que, ao menos no curto prazo, há menos espaço para movimentos mais agressivos de dividendos ou recompras. A leitura implícita é de que, com a alavancagem ainda acima de 3 vezes, a companhia deve preservar caixa e priorizar a estrutura de capital, mesmo em um ambiente de preços de celulose mais favorável.A discussão sobre alternativas para acelerar esse processo apareceu de forma explícita na tele. Ao ser questionada se consideraria “algum tipo de venda de ativos”, a Suzano indicou que não há planos nessa direção. “A nossa estratégia segue baseada na geração de caixa operacional”, respondeu a administração, reforçando que a desalavancagem deve ocorrer de forma orgânica. Na prática, a mensagem é de que a companhia não pretende recorrer a desinvestimentos para encurtar o caminho, mesmo diante da pressão sobre o balanço — o que sugere um processo mais gradual e dependente do ciclo.Suzano e o operacionalDo lado operacional, a leitura foi mais construtiva, ainda que com ressalvas importantes. O CEO Walter Schalka destacou que o ambiente para a celulose segue positivo, com continuidade dos aumentos de preços ao longo do trimestre, impulsionados principalmente pela demanda internacional, com destaque para a China. “Tivemos um ambiente de preços mais favorável”, afirmou. O problema, segundo ele, foi a incapacidade de capturar integralmente esse movimento nos resultados em reais. “A apreciação do real acabou impactando a conversão desses resultados”, disse, resumindo o principal fator de pressão do trimestre.Além do câmbio, os volumes também contribuíram para o desempenho mais fraco. Os embarques de celulose caíram 17% na comparação trimestral, para 2,8 milhões de toneladas, em um movimento que a companhia atribui à sazonalidade e a paradas de manutenção. “Esse é um comportamento típico do primeiro trimestre”, afirmou Schalka, acrescentando que a expectativa é de recuperação ao longo do ano, com normalização das operações e melhora do ritmo de vendas.Os custos também subiram no período, acompanhando a menor diluição operacional e a pressão de insumos. “Tivemos um aumento de custos no trimestre, principalmente por insumos, energia e menor diluição”, explicou Bacci. Ainda assim, a administração tratou o movimento como pontual, sem indicar uma deterioração estrutural da base de custos, o que mantém a leitura de que o principal problema do trimestre esteve mais no macro — especialmente o câmbio — do que na operação em si.No fim, os executivos tentaram reforçar um diagnóstico relativamente: a Suzano segue com fundamentos operacionais sólidos, apoiados por preços de celulose em alta e perspectiva de recuperação de volumes, mas enfrenta um curto prazo mais pressionado por fatores financeiros. Com capex elevado, geração de caixa mais fraca e alavancagem ainda acima de 3 vezes, a companhia opta por um caminho mais conservador, priorizando o balanço e abrindo mão, ao menos temporariamente, de acelerar a remuneração ao acionista.