Há memórias que não envelhecem; apenas aguardam para reaparecer. As minhas me levam à casa dos meus avós, marcada por simplicidade, afeto e identidade — um retrato vivo de um tempo que tinha sentido.Hoje, essas lembranças voltam com outro peso: o que era cenário de infância revela-se patrimônio. Não apenas da minha família, mas da própria cidade.Há uma transformação silenciosa em curso. Casas históricas estão sendo reformadas como se não tivessem passado, substituindo identidade por aparência genérica.Ao caminhar pela cidade, percebe-se esse avanço. O porcelanato e o ACM — material moderno, industrial e sem identidade local — passam a ocupar o lugar de elementos tradicionais.O problema não é o material em si, mas o que ele representa: a substituição da memória pela neutralidade.Não estamos apenas reformando imóveis; estamos apagando histórias. O processo é gradual, mas cumulativo — e profundamente danoso.Esse fenômeno não é exclusivo de Monteiro. Ele ocorre em várias cidades brasileiras que esquecem suas origens em nome de uma modernização sem critério.Evoluir é necessário. Mas há diferença entre desenvolvimento e apagamento. Sem história, a cidade perde sua singularidade.Monteiro, com 154 anos, é uma cidade construída em camadas. Seu valor está no conjunto urbano, hoje fragilizado por intervenções desordenadas.A ausência de políticas públicas agrava o problema. Sem regras claras, prevalece o improviso — e o custo é a perda da identidade urbana.Também há falha cultural. Preserva-se apenas o que se reconhece como valor. Sem orientação, o erro se repete.Há ainda um equívoco econômico: preservar gera valor; descaracterizar empobrece a cidade.Diante disso, impõem-se perguntas essenciais: o que foi feito, o que será feito e para onde estamos caminhando?Preservar exige ação. O município pode delimitar áreas históricas, criar regras, incentivar proprietários e iniciar processos de proteção.Preservar não é impedir o progresso. É impedir que o progresso apague a história.Uma cidade que apaga sua história compromete seu futuro.Ainda há tempo — mas não há muito. Preservar é agir antes da perda.O casario histórico de Monteiro pede socorro — e pede que a cidade não esqueça quem é.Inácio José Feitosa NetoAdvogado, escritor e professorO post O casario histórico de Monteiro pede socorro – Por Inácio Feitosa apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.