Foi em 1894 que aconteceram as últimas rejeições a indicados pelo Presidente da República ao Supremo Tribunal.Naquele tempo, o marechal Floriano Vieira Peixoto se encontrava em plena tensão dialógica com o poder civil, e o Senado de então rejeitou cinco de suas indicações. Mas era outro tempo, e Floriano indicara pessoas até mesmo sem formação jurídica, incluindo-se um velho general do Exército, o que os senadores consideraram uma afronta. Leia Mais Análise: Derrotas na semana esvaziam agenda de Lula Aliados relatam "desânimo" de Rodrigo Pacheco em disputar governo de MG Oposição quer capitalizar derrotas do governo e mira embalo até eleições De lá para cá, a deferência do Senado foi irrestrita à vontade de todos os presidentes nestes mais de 132 anos.A rejeição de Jorge Messias não caracterizou uma rejeição ao jurista indicado, mas uma eloquente resposta ao Palácio do Planalto.Se Cristiano Zanin e Flávio Dino foram candidatos da predileção pessoal de Lula (PT), digo até personalíssima, o Senado considerava que esta era a sua vez, a de indicar um dos seus, e esse nome era inegavelmente o de Rodrigo Pacheco, rejeitado pelo presidente da República.Senado rejeitou apenas 5 indicações para o STF até hojeA persistência do Planalto em apontar um dos seus foi interpretada como um gesto de arrogância, agora aplacado pela resposta senatorial. Alcolumbre foi o fator decisivo neste precedente.Agora, se quiser diminuir o impacto do tombo, Lula precisará correr. A indicação substitutiva de Pacheco é um caminho. Talvez sim, talvez não. De toda sorte, a pressa será impositiva.O PT está no último ano do seu quinto mandato, e o atual presidente no final de seu terceiro termo, e não pode passar por dissabor similar ao amargado por Barack Obama em seu último ano do segundo mandato, o oitavo ano de seu governo.Naquele tempo, em 2016, com o falecimento súbito do justice Antonin Gregory Scalia, um autêntico conservador nomeado por Ronald Reagan, Obama indicou o procurador Merrick Brian Garland, um jurista do campo progressista que, se empossado, viraria o placar da US Supreme Court.Um ano difícil. Trump vencera as primárias do partido Republicano e as pesquisas acenavam sua possibilidade de vitória eleitoral. O inesperado estava de mostrando realidade.O que fez o Senado, já de maioria republicana? Deixou a indicação na gaveta, aguardou o fim do mantado do democrata e, com a posse de Trump, fez-se a substituição do nome, levando-se mais um conservador à Corte Suprema em Washington. Mais uma vez, o sonho de uma maioria judicial democrata fora adiado.Estamos em 2026, e Flávio Bolsonaro (PL) impinge importantes dificuldades a Lula, aparecendo vitorioso já em algumas pesquisas eleitorais.Se Lula pensar na República, talvez seja inteligente a solução consensual de Rodrigo Pacheco, ou, do contrário, a repetição do affair Garland poderá ocorrer no Brasil, dando-se mais uma cadeira a um possível próximo presidente da ala bolsonarista.Que a história tenha servido de lição. Afinal, muito do que aconteceu nos Estados Unidos desde o primeiro mandato de Trump se repetiu aqui nos trópicos.O episódio de Messias marca a passagem da inércia de estagnação para a inércia de movimento. Por ora, a rejeição de um nome proposto. A depender dos passos dados e da escolha popular nas eleições de 2026, a possibilidade de um impedimento de juiz do STF, elemento também inédito na vida e na obra da Lei nº 1.079/50, a Lei do Impeachment.O ofício da história não é o de ensinar, mas que o governo brasileiro tenha tido, com isso e ao menos com isso, a sabedoria de aprender.Análise: Governo desnorteado ainda avalia reação para a crise | WW* Gustavo Sampaio é professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da UFF (Universidade Federal Fluminense)