“E se houver algum venezuelano no exterior que guarde em seu coração alguma forma de ressentimento, dizemos a ele: ‘supere, perdoe-nos e volte’. Você sempre estará melhor em sua terra.” A mensagem do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, durante um ato no estado de Miranda, recebeu alguns aplausos dos presentes, mas sua viralização não teve o mesmo efeito entre muitos venezuelanos que a ouviram em outros países.Em um encontro na quarta-feira (29) com movimentos sociais na sede da Universidade Santa María, o irmão da presidente interina, Delcy Rodríguez, convocou os venezuelanos a superar as diferenças e afirmou que já é hora de deixar a polarização para trás.“É preciso virar a página dos ódios, da violência estéril. É preciso virar a página da polarização. Já vivemos dores suficientes, dificuldades suficientes”, disse o deputado do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e referência do chavismo.“Você sempre estará melhor com os seus, sempre estará melhor entre irmãos e irmãs”, reiterou mais adiante, em um apelo à diáspora venezuelana.A tentativa de Rodríguez de construir uma ponte com os mais de 7,8 milhões de compatriotas que deixaram a Venezuela nos últimos 10 anos devido à situação econômica e política não parece ser uma tarefa fácil para muitos deles, especialmente para aqueles que pensam no que perderam ao emigrar de seu país.“Não posso perdoar ninguém que me fez perder minha juventude no exterior. Perdi minha carreira, deixei de ver meus sobrinhos crescerem, não pude estar presente em partidas de familiares”, disse à CNN Keymar Silva, um venezuelano residente na capital do Equador, Quito. Leia Mais Aprovação da lei da anistia na Venezuela gera otimismo cauteloso Análise: Estudantes da Venezuela voltam às ruas após anos de repressão Quase 2.200 são soltos desde Lei de Anistia na Venezuela, diz deputado A milhares de quilômetros de distância, em Buenos Aires, um homem que preferiu não se identificar por medo de represálias também se mostrou irritado ao falar com a CNN sobre as declarações da autoridade venezuelana, que não considera sincera.“O cinismo dessa gente não tem limites, é indignante”, disse esse engenheiro eletrônico, que deixou seu país em 2019 e, desde então, não voltou.Apelo à união e promessas econômicasNos últimos dias, a presidente interina, o presidente da Assembleia Nacional e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, têm realizado visitas a diferentes estados venezuelanos sob o lema “Venezuela voa livre”.Nos discursos, há slogans que se repetem: o apelo à união, o pedido de levantamento de todas as sanções impostas ao país e a ideia de que agora a Venezuela tomou um novo rumo econômico e olha para o futuro de uma “Venezuela potência”.“Somente suspenderam 18 das 1.861 sanções que existem, e isso já se nota. Começa a se perceber que há uma redinamização, há uma aceleração do desenvolvimento econômico da Venezuela”, disse o deputado Rodríguez durante uma das manifestações da peregrinação na parroquia Petare, o maior bairro do país, localizado a leste de Caracas.Rafael Pérez vive na Colômbia há 10 anos. Esse país é o principal destino dos venezuelanos no exterior, seguido pelo Peru e pelos Estados Unidos. Atualmente, 2,8 milhões de venezuelanos estão na Colômbia, segundo dados da Migração Colômbia.As palavras do presidente da Assembleia Nacional soam, no mínimo, distantes da realidade de Pérez. “As condições continuam iguais. Pelo menos para mim, pessoalmente. Meu pai mora no sul, em Maracaibo. E a luz acaba todos os dias por cinco horas. Isso não é vida”, diz Pérez.Um dia antes do dia internacional do Trabalho, a presidente interina da Venezuela anunciou que o salário mínimo integral no país aumentará de US$ 190 para cerca de US$ 240 mensais (equivalente a R$1.189,00), em meio às reclamações de muitos cidadãos sobre a economia do país, que continua sem apresentar melhorias significativas após a captura do ditador, Nicolás Maduro.Analistas apontaram à CNN, semanas atrás, que o levantamento de medidas, como o cessar parcial das sanções dos Estados Unidos sobre bancos venezuelanos, é uma medida-chave para a estabilização econômica, mas alertam que os efeitos provavelmente não serão visíveis no curto prazo para uma economia com altos níveis de inflação.“Superar, perdoar e voltar” não é uma tarefa fácilEmbora haja muitas expectativas de mudanças políticas que melhorem a economia e a qualidade de vida no país, os venezuelanos consultados pela CNN consideram que seu dia a dia não mudou, apesar dos anúncios de investimentos e das projeções de crescimento econômico por parte das autoridades venezuelanas.Pérez tem um emprego estável na Colômbia, onde está estabelecido há anos com sua família. Para ele, a ideia de “superar e perdoar” para retornar não é uma opção se o chavismo continuar no poder.“A cúpula do chavismo continua no poder; então, chamar os venezuelanos para que retornemos, não. Eu acredito que a saída mais viável são eleições e ter um novo governo”, diz.Esse sentimento parece se repetir em muitos outros venezuelanos em países como México, Espanha e Estados Unidos, que semanas atrás disseram à CNN que, sem uma “ruptura” com o chavismo, a esperança de voltar à pátria se desvanece.“Antes de falar com a diáspora, deveriam primeiro libertar todos os presos políticos, como gesto de boa vontade”, pede o homem venezuelano entrevistado em Buenos Aires.Até 27 de abril, mais de 400 pessoas continuavam privadas de liberdade por motivos políticos na Venezuela, de acordo com dados do Foro Penal, a organização não governamental que assistiu milhares de pessoas em sua defesa legal e em processos de libertação que ocorreram antes e durante a Lei de Anistia.Pérez não sente que haja ressentimento ou rancor na diáspora venezuelana, como sugere o presidente da Assembleia Nacional, mas sim um profundo desejo de viver “em liberdade”, diz ele. Ele também acredita que “virar a página” não será possível enquanto houver detidos por razões políticas em seu país.Na Colômbia, Rafael Silva afirma sem hesitar que tudo o que viveu ao ter que emigrar da Venezuela “não é perdoável” para ele. “No meu caso, não voltaria até que todos eles, esses destruidores da Venezuela, se vão.”