Prática histórica que ocorre desde antes do Brasil Império, a busca incansável e ilegal pelo ouro continua a provocar devastações ambientais e danos irreparáveis. Segundo a Polícia Federal (PF), para escapar da fiscalização, garimpeiros migram suas frentes de atuação e invadem áreas sobretudo no Norte do país.De janeiro a agosto deste ano, a Polícia Federal deflagrou ao menos 45 operações para combater o garimpo ilegal em todo o país. Para esclarecer o processo, os danos e o combate a esse crime, a coluna conversou com Renato Madsen, delegado da PF, coordenador-geral de Proteção da Amazônia, do Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural. Leia também São Paulo Megaoperação contra o PCC: carretas com combustível são abandonadas Mirelle Pinheiro Saiba quem é o promotor que virou alvo do PCC e foi jurado de morte Mirelle Pinheiro “Mijão”, que mandou matar promotor, lidera “ala da morte” do PCC Mirelle Pinheiro “Não recuaremos um centímetro”, diz chefe do MPSP sobre PCC Áreas críticas e migraçãoNo Brasil, há áreas que atualmente são consideradas zonas críticas em se tratando de garimpo ilegal. No Sul do Pará, sobretudo na fronteira com o Amazonas e o Mato Grosso, existe uma das maiores bacias auríferas do mundo, o que faz com que a região seja visada por criminosos.A terra indígena Sararé, localizada no Mato Grosso e na fronteira do estado com a Bolívia, também tem sofrido com a invasão de criminosos.Entretanto, o delegado aponta que qualquer área onde haja acúmulo de ouro no solo torna-se alvo dos garimpeiros, por isso as zonas críticas mudam sazonalmente.“Há uma mudança de local quando os órgãos de fiscalização, como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), por exemplo, começam a reprimir mais, a PF intensifica suas ações e, então, eles migram”, diz Renato Madsen.3 imagensFechar modal.1 de 3Arte/Metrópoles2 de 3O delegado detalhou as ações de combateKEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES3 de 3Renato Madsen é Delegado da Polícia Federal, Coordenador-Geral de Proteção da Amazônia, do Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografoOs danosRenato Madsen destaca que o crime de garimpo ilegal envolve outros delitos. Além de se apropriar dos bens da União, os criminosos devastam as florestas e causam danos ambientais muitas vezes irreparáveis.“O primeiro impacto é diretamente na mata. Para fazer atividade de mineração, é preciso retirar as árvores que estão no solo. Então há, imediatamente, o desmatamento. Depois, ao revirar o subsolo, cria-se uma área estéril, de difícil recuperação pela própria natureza.”Esse dano, segundo o delegado, afeta os animais e as comunidades, sobretudo as indígenas e ribeirinhas. “Todos os seres vivos que vivem na região são impactados. No garimpo, se usa, de forma ilegal, o mercúrio, que é altamente tóxico e prejudicial à saúde, ele acumula nas plantas, nos animais, nos peixes, que são a base de alimentação para quem mora ali”, lembra.O combateO delegado destaca que, para combater os crimes no âmbito do garimpo ilegal, as forças de segurança implementam dois eixos: policiamento ostensivo e a investigação.No primeiro caso, há repressão intensa, em que os esforços são direcionados para que haja prisão em flagrante e destruição de maquinário. No segundo, ocorre investigação aprofundada, momento em que os esforços são voltados para identificar quem financia as práticas de extração ilegal.“Nesse outro momento, a polícia investiga para descobrir o caminho do ouro: de onde veio, para onde foi e quem lucrou com o crime”, detalha.RecuperaçãoComumente, após investigações voltadas à corrupção, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, a polícia trabalha para restituir os bens tomados de forma ilícita. Questionado sobre como ocorre no caso do garimpo ilegal, o delegado explicou que há implementação de levantamentos, assim como em outros casos.“Sempre que se faz uma investigação, a gente tenta descobrir o valor do dano causado e quanto o criminoso ganhou com a atividade. Fazendo esses cálculos, a gente busca o patrimônio que ele constituiu para sequestrá-lo e fazer com que esse dinheiro volte para a União Federal.”No caso do garimpo ilegal, os crimes ambientais estão muitas vezes atrelados. Com a recuperação do dinheiro, o governo trabalha para tentar executar a recuperação ambiental.“Como geralmente os garimpos ilegais são instalados em locais ermos e de difícil acesso, muitas vezes a própria natureza acaba reparando. Basta retirar a atividade do local que a natureza, com o passar dos anos, acaba se recompondo”, aponta Madsen.