As auditorias realizadas sobre fundos geridos pela Reag Investimentos, gestora da Faria Lima alvo de operação contra um suposto esquema de fraudes e lavagem de dinheiro do setor de combustíveis que envolve o Primeiro Comando da Capital (PCC), apontam que existe uma caixa-preta nas informações de alguns desses investimentos.Com R$ 299 bilhões sob sua gestão, a Reag foi um dos 350 alvos de buscas de apreensões da Operação Carbono Oculto, deflagrada na última quinta-feira (28/8). Nas investigações, ela aparece como administradora de fundos que serviram para esconder dinheiro da formuladora de combustíveis Copape e da distribuidora Aster, suspeitas de sonegarem R$ 7,6 bilhões e de ligação com a facção criminosa. Leia também São Paulo Megaoperação contra o PCC: carretas com combustível são abandonadas Mirelle Pinheiro Saiba quem é o promotor que virou alvo do PCC e foi jurado de morte Blog do Noblat PT associa bolsonarismo com fake news que beneficiaram fintechs e PCC Negócios Ações da Reag voltam a cair forte um dia depois de operação da Receita “Contrariando a natureza de condomínio dos fundos, muitos possuem cotistas exclusivos, frequentemente outros fundos de investimento (fundo sobre fundo). O objetivo é criar camadas sobrepostas para dificultar ou impedir a identificação do beneficiário final”, afirmam os investigadores.De acordo com os investigadores, alguns fundos, normalmente utilizados para valorizar o dinheiro investido, no caso do PCC servia como uma forma de blindar o patrimônio ilícito dos criminosos. “O objetivo central dessas operações não era a valorização do capital, mas a blindagem patrimonial contra execuções fiscais e a ocultação da origem ilícita dos recursos”, diz o Ministério Público de São Paulo (MPSP).10 imagensFechar modal.1 de 10Reag era administradora de fundo da Neo Química Arena.Mauro Horita/Getty Images2 de 10Material cedido ao Metrópoles3 de 10Operação da PF investiga relação do PCC com empresáriosMaterial cedido ao Metrópoles4 de 10Eike BatistaMichael Melo/Metrópoles5 de 10O "epicentro" do esquema de combustível, Mohamad Hussein MouradReprodução/ Redes sociais6 de 10Proprietários dos postos de combustíveis venderam seus estabelecimentos ao grupo criminoso e eram ameaçados de morte caso fizessem alguma cobrançaDivulgação/Polícia Federal7 de 108 de 10Material cedido ao Metrópoles9 de 10Material cedido ao Metrópoles10 de 10Material cedido ao Metrópoles O Metrópoles analisou fundos geridos pela Reag e sem ligação com a operação – eles vão de fundos ligados a empreiteiras que já foram alvo da Operação Lava Jato, como a OAS, até o filho do empresário Eike Batista, além da Arena Corinthians. Em muitos casos, auditorias anexadas são inconclusivas por falta de documentos e informações, o que demonstra opacidade em diversos fundos.Há diversos casos em que os auditores declaram omissão de opinião, devido à falta de informações disponíveis ou confiáveis sobre os fundos, muitas vezes pertencentes apenas a uma empresa.Fundo Botafogo de Eike BatistaEm uma sala comercial duplex no bairro de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, fica sediada a NB4 Participações S.A. Ela é objeto de investimentos do Fundo Botafogo, gerido pela Reag, com patrimônio de R$ 226 milhões. A empresa está no centro de guerras judiciais entre o empresário Eike Batista e credores de suas empresas falidas.Considerado o homem mais rico do Brasil no início da década passada, Eike fez fortuna com a exploração de mineração, petróleo e energia, mas viu seu império ruir a partir de 2013, até ser preso em um desdobramento da Operação Lava Jato, em 2017. Do patrimônio de US$ 34 bilhões acumulado no seu auge, em 2012, o empresário soma hoje R$ 4 bilhões em dívidas com a União.Dirigida por seu filho Thor e ex-sócios no chamado “Império X”, a NB4 é detentora de debêntures multimilionárias e recebe investimentos do Fundo Botafogo, que, por sua vez, recebe aporte de um outro fundo com o mesmo nome, em uma estrutura de três camadas que foi apontada como um dinheiro “escondido” do empresário.Ao Metrópoles Eike afirmou que todos os ativos do fundo foram “arrestados pelas falências das MMX Sudeste e Rio”, mineradoras do empresário. Ele diz que não houve blindagem patrimonial e que os direitos de voto dentro do fundo são objeto de ação judicial por um fundo ligado ao BTG, que ele delatou em acordo de colaboração premiada.Um último relatório de auditoria independente do Fundo Botafogo afirma que não foi possível escrutinar a empresa em razão da ausência de documentação para comprovação da participação do fundo na NB4, além da falta de demonstrações financeiras da companhia.“Consequentemente, em função desses assuntos, não nos foi possível obter evidências de auditoria, apropriadas e suficientes, sobre o valor do investimento e o registrado no resultado por ele gerado, bem como a necessidade de eventuais ajustes que pudessem refletir nas demonstrações financeiras do fundo em 28 de fevereiro de 2025”, afirma a auditoria.Reag se diz “surpresa”A Reag Investimentos S.A. divulgou uma nota na qual afirma reforçar “sua atuação diligente ao longo de toda a sua história”. A empresa diz que “recebeu com surpresa as divulgações que a envolvem em supostas irregularidades investigadas no âmbito da Operação Carbono Oculto”, deflagrada na última quinta-feira.Também diz refutar “veementemente qualquer atuação em estruturas de natureza ilegal”, e afirma que atua “em linha com as normas vigentes no mercado financeiro e de capitais”.“Cabe ainda registrar que há diversos fundos de investimento mencionados na operação que nunca estiveram sob sua administração ou gestão. Em relação aos fundos de investimento que a empresa manteve prestação de serviço, sua atuação sempre foi diligente e proba, e os fundos foram, há meses, objeto de renúncia ou liquidação”, concluiu.