O mês de março trouxe uma reprecificação no mercado de renda fixa brasileiro. Pressionados por um cenário externo adverso e por incertezas fiscais domésticas, os bancos precisaram elevar os prêmios oferecidos nos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) para atrair investidores. O movimento afetou todas as classes de papéis, desde os pós-fixados até os indexados à inflação, que chegaram a bater taxas médias acima de IPCA + 7,8% ao ano.É o que mosta levantamento feito pela Quantum Finance a pedido do InfoMoney. Em março, os CDBs pós-fixados com vencimento em 36 meses pagaram, em média, 100,54% do CDI contra 100,22% em fevereiro. Nos papéis de 24 meses, a média subiu de 100,17% para 100,56% do CDI. Leia também: JPMorgan alerta: perdas no crédito privado serão maiores do que o mercado esperaRetornos de CDBs atrelados ao CDI entre 01 e 31 de março de 2026PrazoTaxa mínima (% CDI)Taxa média (% CDI)Taxa máxima (% CDI)Número de títulosEmissor da maior taxa397,50%100,29%109,00%51Qista S.A.697,50%99,53%104,50%40C61290,00%99,02%107,50%90Banco BMG2497,25%100,56%111,00%48Banco BMG3698,75%100,54%112,00%62Banco BMGFonte: Quantum FinanceA abertura nas taxas dos CDBs foi um reflexo de uma conjunção de fatores globais e locais que forçaram a curva de juros para cima. Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos, aponta que o gatilho principal foi a aversão ao risco gerada pelo conflito entre Irã e Estados Unidos. “Com os efeitos da inflação, o mercado passa a entender que teremos juros maiores por maior tempo , reprecificando toda a curva”, diz o especialista.Além do cenário externo, a percepção de risco fiscal no Brasil agravou o quadro. Bruno Corano, CEO da Corano Capital, destaca que as dúvidas sobre o controle da dívida pública brasileira cresceram: “os bancos passam a competir com o Tesouro, e se veem obrigados a pagar mais”.Com as taxas dos papéis atrelados à inflação atingindo patamares médios de IPCA + 7,81% para prazos mais longos, o consenso entre os especialistas é de que se trata de há uma oportunidade histórica, mas que exige cautela. Para Harrison Gonçalves, analista CFA, o nível atual de juro real é atrativo, mas tende a ser transitório, já que não é sustentável para o País conviver por muito tempo com uma taxa tão elevada, visto que a taxa de equilíbrio gira em torno de 4,5% a 5%. No entanto, ele pondera que “esse tipo de investimento faz mais sentido para o investidor que tem horizonte compatível com o prazo de vencimento do título, evitando exposição à volatilidade no curto prazo”. Corano concorda que prêmios acima de IPCA + 6% já são considerados muito atrativos no Brasil, mas alerta para riscos essenciais antes de o investidor tomar uma decisão. O primeiro deles é o risco do emissor, já que o CDB não é soberano e a garantia do Fundo Garantidor de Créditos é limitada a R$ 250 mil por CPF. O segundo ponto é o prazo, pois papéis muito longos, acima de quatro anos, têm alta sensibilidade aos juros e forte impacto de marcação a mercado caso haja necessidade de resgate antecipado.Retornos de CDBs atrelados ao IPCA entre 01 e 31 de março de 2026PrazoTaxa mínima (IPCA+)Taxa média (IPCA+)Taxa máxima (IPCA+)Número de títulosEmissor da maior taxa127,48%8,45%9,22%122Haitong Brasil247,06%7,81%8,45%66Haitong Brasil367,06%7,72%8,37%67Haitong BrasilFonte: Quantum FinanceOs títulos prefixados também sofreram reprecificação, com papéis para 24 meses saltando de uma taxa média de 12,32% em fevereiro para 13,22% em março. Apesar da alta, Corano é categórico: “rarissimamente sou a favor de prefixado em um país como o Brasil. Os riscos quase sempre superam os possíveis ganhos, e nesse momento uma crise é iminente, transformando essa decisão em aposta e especulação, o que nunca sou a favor”. Gonçalves adota um tom semelhante, apontando que os prefixados são os que mais sofrem em cenários de deterioração fiscal ou estresse inflacionário, o que pode reduzir o retorno real esperado. A recomendação é utilizá-los com parcimônia, combinando com IPCA+ e pós-fixados.Retornos de CDBs prefixados entre 01 e 31 de março de 2026PrazoTaxa mínimaTaxa médiaTaxa máximaNúmero de títulosEmissor da maior taxa315,35%15,40%15,44%2Santander Brasil613,32%13,73%14,70%19Goldman Sachs do Brasil1212,85%13,55%14,44%41Haitong Brasil2412,30%13,22%14,26%36Haitong Brasil3612,29%13,48%14,20%30Haitong BrasilFonte: Quantum FinanceApós a volatilidade de março, a expectativa é de que a curva de juros encontre certa acomodação em abril. Corano projeta que o mercado já fez grande parte do ajuste e não prevê uma nova grande abertura de curva no curto prazo, alertando apenas para a possibilidade de estresse caso o conflito no Oriente Médio perdure e o petróleo dispare.Já Gonçalves aponta que movimentos consistentes de recuo nas taxas dependerão de fatores externos e, principalmente, de sinais claros na agenda fiscal doméstica, o que é desafiador em um contexto pré-eleitoral. Segundo ele, propostas econômicas mais consistentes e eventuais anúncios de nomes para a equipe econômica tendem a reduzir a percepção de risco. Na ausência desses fatores, os prêmios exigidos pelos investidores devem permanecer em patamares elevados, ainda que possivelmente abaixo dos picos recentes.The post Guerra e risco fiscal impulsionam taxas dos CDBs em março; o que esperar para abril? appeared first on InfoMoney.