O investidor estrangeiro será determinante para a reabertura do mercado de ofertas públicas iniciais (IPOs) no Brasil, afirmou o CEO da B3 (B3SA3), Gilson Finkelsztain, no evento MKBR 26, nesta terça-feira (7). Segundo ele, embora haja empresas prontas para acessar o mercado, o gatilho para novas aberturas de capital virá majoritariamente do capital internacional.“Majoritariamente, é o fundo estrangeiro que vai permitir a reabertura dessa janela de IPOs”, disse o executivo, destacando que há mais de 50 companhias já preparadas para ir a mercado, aguardando melhores condições. A Bolsa de Valores brasileira não tem um novo IPO desde 2021. Na avaliação de Finkelsztain, investidores locais podem até acompanhar algumas operações, mas o protagonismo deve continuar com o fluxo externo — especialmente em um contexto em que a renda fixa ainda oferece retornos elevados no Brasil, reduzindo o apetite doméstico por risco.Esse movimento, ele lembra, já aparece nos números recentes da bolsa. O volume médio diário negociado (ADTV) saltou de cerca de R$ 25 bilhões para até R$ 38 bilhões nos últimos meses, impulsionado por uma entrada relevante de recursos estrangeiros, estimada entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões desde o começo do ano.Segundo o CEO da B3, esse fluxo reflete uma realocação global de portfólio em direção a mercados emergentes. “O investidor global está percebendo que os riscos geopolíticos estão concentrados demais em alguns países, e os emergentes seguem baratos”, afirmou.Apesar das incertezas no cenário internacional, com conflitos geopolíticos e volatilidade elevada, o Brasil tem se beneficiado dessa mudança marginal de alocação. “Na margem, qualquer deslocamento de capital global é muito dinheiro”, reforçou.O contraste, porém, está no comportamento do investidor local. Com juros reais elevados, tanto a pessoa física quanto investidores institucionais seguem preferindo ativos de renda fixa, o que deixa o avanço recente da bolsa dependente do capital estrangeiro.Mesmo assim, Finkelsztain se mostrou otimista com o cenário à frente. “A perspectiva me parece de continuidade de entrada de recursos por parte do estrangeiro, em condições normais”, afirmou, ressaltando que esse fluxo pode sustentar uma eventual reabertura do mercado de ações ainda neste ano.CEO da B3 sustenta otimismoPara além do momento conjuntural, o executivo destacou a evolução estrutural do mercado de capitais brasileiro nas últimas décadas. Segundo ele, o país saiu de um cenário com baixa participação de investidores e poucas alternativas de financiamento para um ambiente mais sofisticado e acessível.“Hoje, o CFO de uma empresa já vê o mercado de capitais local como uma fonte principal de captação”, afirmou.Esse avanço também aparece no crescimento da base de investidores e no desenvolvimento de instrumentos de dívida. Nos últimos anos, o mercado de capitais passou a responder por uma fatia relevante do financiamento das empresas, reduzindo a dependência do crédito bancário.Apesar disso, o CEO da B3 ponderou que ainda há desafios importantes a serem enfrentados. Entre eles, a necessidade de maior estabilidade regulatória e tributária. “A gente é conhecido pela volatilidade das regras e dos tributos”, disse.Para o diretor executivo da B3, simplificação e previsibilidade são condições essenciais para o fortalecimento do mercado. “A gente precisa de estabilidade de regras e simplificação”, afirmou.Outro ponto de atenção é a baixa participação de investidores institucionais no mercado de capitais brasileiro, tema reforçado também pelo presidente da ANBIMA, Carlos André, que participou da mesa. Segundo ele, fundos de pensão e seguradoras ainda têm atuação limitada em ativos de risco, especialmente quando comparados a mercados mais desenvolvidos.“Esses players têm bolsos profundos e tradicionalmente fomentam o mercado de capitais, mas ainda vemos uma participação tímida no Brasil”, afirmou.Crédito privado continuará em destaquePor outro lado, um dos principais vetores de crescimento recente do mercado brasileiro tem sido o crédito privado, que ganhou protagonismo entre investidores. O setor se tornou mais líquido, com maior transparência de preços e uma base mais ampla de emissores.“O mercado está bastante funcional, com liquidez, transparência e referência de preços”, destacou Carlos André.Nos últimos dois anos, as emissões de renda fixa corporativa superaram R$ 600 bilhões anuais, consolidando o segmento como uma das principais fontes de financiamento das empresas.A tendência, segundo os participantes do painel, é de continuidade desse movimento, especialmente em um ambiente de juros ainda elevados, que mantém a renda fixa como classe dominante na alocação dos investidores brasileiros.