Considerado um mês de mobilização nacional, resistência e visibilidade para os povos indígenas do país, o Abril Indígena tem início com a realização do Acampamento Terra Livre, em Brasília (DF). Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, o ATL 2026 teve início no último dia 5 e segue até 11 de abril, no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte). A mobilização é uma iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).Em sua 22ª edição, a programação destaca as ameaças aos territórios indígenas e aos povos originários, ao mesmo tempo em que apresenta respostas à crise climática e ao fortalecimento da democracia. A mobilização está dividida em cinco eixos: A Resposta Somos Nós; Nosso Futuro Não Está à Venda; Nossa Luta Pela Vida!; Terra Demarcada, Brasil Soberano e Democracia Garantida; e Diga ao Povo que Avance!.Violência ontem e hojeNo dia 6 de abril, lideranças de todas as regiões do país debateram a violência vivida durante a ditadura militar na plenária “Memória, Verdade e Justiça para os Povos Indígenas”. A mesa foi organizada pelo Fórum Memória, Verdade, Reparação Integral, Não Repetição e Justiça para os Povos Indígenas, iniciativa que tem como propósito ampliar o debate público sobre a justiça de transição para os povos originários e, principalmente, formular uma proposta de instituição de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV).Invasões, episódios de violência e ameaças atuais dentro de seus territórios também foram discutidos por lideranças na tenda da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira). Os relatos ocorreram durante roda de conversa sobre a situação jurídica das Terras Indígenas (TIs) na Amazônia. Os indígenas exigiram que os processos de demarcação, incluindo a desintrusão (retirada de ocupantes ilegais), sejam realizados de forma mais eficaz, com garantia de proteção às vidas indígenas.Concita Sompré, da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará, afirma que a desintrusão traz benefícios, mas também preocupações para os povos indígenas. Ela cita o caso da TI Apyterewa, que passou pela retirada de invasores entre 2023 e 2024, mas que segue como cenário de ataques promovidos por grileiros e ruralistas contra os indígenas. Debate na tenda da COIAB. Foto: Kaiti Topramre“O pós-desintrusão da TI Apyterewa tem violência, tiros, insegurança e lideranças encurraladas, sem direito de ir e vir. O Estado ‘desintrusa’, mas a garantia da vida não permanece. Somos nós por nós, defendendo nosso povo e território. Quando os invasores são retirados, eles deixam para trás áreas degradadas; eles ficam no entorno do território, e isso aumenta a violência. Nossa luta maior é pela demarcação, mas fazemos um grito de socorro pela retirada dos invasores do nosso território”, disse Concita.Outra TI em risco é Uru-Eu-Wau-Wau, no estado de Rondônia. Em fevereiro deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, suspendeu a desintrusão do território, aumentando a insegurança jurídica e a vulnerabilidade em uma terra já sob ameaça.Debate na tenda da COIAB. Foto: Kaiti Topramre“A desintrusão não foi concluída 100% e só deixou os invasores mais bravos com nós, indígenas. Não podemos mais andar sem escolta no território. A TI concentra as principais nascentes que abastecem o estado, uma verdadeira ‘caixa d’água’ para Rondônia, mas os invasores só querem desmatar e lucrar em cima da terra. Precisamos fazer a desintrusão acontecer”, defendeu a jovem liderança.Os indígenas também denunciaram a demora no processo de demarcação como um todo, com terras indígenas esperando há mais de 20 anos pela homologação da demarcação.Marcha pressiona o CongressoJá nesta terça-feira (7), a programação será marcada pela marcha “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda”. Em 2026, ao menos seis propostas anti-indígenas tramitam no Congresso Nacional, como a PEC 48 (Marco Temporal); PDLs contra demarcações (717/2024, 1121/2025, 1126/2025 e 1153/2025); o GT de Mineração em TIs; o PL 6050/2023 (Exploração Econômica); e o PL 6093/2023 (PL do Agro).Já no dia 8, o movimento indígena fortalece sua atuação em espaços internacionais como parte de uma estratégia política de resistência e articulação, na plenária “Do território tradicional ao cenário global: o movimento indígena brasileiro na luta socioambiental”. Além da mesa, a APIB também promoverá um encontro entre lideranças indígenas e embaixadas, bem como um encontro de comunicadores indígenas da Guatemala e do Brasil.Foto: APIB | DivulgaçãoAs eleições de 2026 também farão parte dos debates do Acampamento Terra Livre, na mesa “Campanha Indígena: a resposta para transformar a política somos nós”. A plenária ocorrerá no dia 9 e leva o nome do manifesto publicado pela APIB no ano passado, no qual reafirma o compromisso de seguir com a Campanha Indígena e o projeto de aldeamento da política. “Não existe agenda climática sem protagonismo político indígena”, diz trecho da carta.Além da Campanha Indígena, o dia 9 será marcado pela marcha “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”. Segundo a APIB, até o mês de março deste ano, cerca de 76 Terras Indígenas estão prontas para serem homologadas e aguardam apenas a assinatura do presidente Lula. Outras 34 dependem do ministro da Justiça para a emissão da portaria de declaração. Leia também: 1.Constituição Brasileira ganha versões em línguas indígenas 2.Demarcar Terras Indígenas melhora saúde da população A programação do ATL se encerra com a plenária e a leitura do documento final, no dia 10 de abril. Os dias 5 e 11 são reservados para chegada e retorno das delegações aos seus territórios. Acesse a programação completa aqui: Link .A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) lançou uma campanha de arrecadação para o acampamento. Para contribuir, basta acessarhttps://www.apiboficial.org/apoie/ . As doações podem ser feitas por cartão de crédito ou boleto bancário. Também é possível doar via Pix pelo e-mail apoinmebra@gmail.com (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo – Banco Bradesco).ATLHá 22 anos, o ATL reúne, na capital federal, milhares de lideranças indígenas das cinco regiões do país para denunciar violações de direitos, incidir sobre o poder público e defender seus territórios.No ano de 2025, o ATL reuniu mais de 9 mil indígenas em Brasília. Com o tema “APIB somos todos nós: em defesa da Constituição e da vida”, a mobilização celebrou os 20 anos de luta e conquistas da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.O Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, em Brasília, traz o tema “Terra demarcada, vida protegida: nosso futuro não está à venda”. Foto: Ronaldo TapirapéEm sua carta final, o acampamento reforçou a defesa dos direitos territoriais e o protagonismo indígena na agenda climática global. “Nossa ciência e sistema ancestral, expressos na agroecologia, nas economias indígenas, na gestão coletiva dos territórios e na nossa relação espiritual com a Mãe Natureza, preservam a biodiversidade, todas as formas de vida, incluindo os mananciais, e sustentam sistemas alimentares saudáveis e equilibrados. Por isso, demandamos a retomada imediata das demarcações de todas as terras indígenas no Brasil como uma política climática efetiva, além do financiamento direto para a proteção integral dos nossos territórios e dos nossos modos de vida.”The post “Não podemos andar sem escolta”: ATL começa com denúncias de violência appeared first on CicloVivo.