Estamos a culpar o dia errado? A ciência começa a olhar para a segunda-feira de outra forma

Wait 5 sec.

Mas a investigação científica mais recente mostra que a realidade pode ser mais complexa. Há evidência de que o início da semana está associado a níveis mais elevados de stress, mas também há estudos que sugerem que a segunda-feira pode não ser, afinal, o pior dia.No meio da biologia, organização do trabalho e cultura social, o chamado ‘Monday blues’ pode ser mais um reflexo da forma como a semana está estruturada do que um problema específico de calendário.Segunda-feira pode deixar uma ‘marca biológica’Um dos estudos mais citados sobre o tema foi publicado em 2025 no Journal of Affective Disorders e analisou a relação entre ansiedade associada à segunda-feira e níveis de cortisol — a principal hormona do stress.A investigação, conduzida por uma equipa da University of Hong Kong, analisou dados de milhares de adultos e concluiu que pessoas que relatam ansiedade à segunda-feira apresentam níveis mais elevados de cortisol medidos em amostras de cabelo.Segundo os investigadores, os níveis de cortisol eram cerca de 23% mais elevados em pessoas que reportavam ansiedade específica no início da semana. O dado mais surpreendente foi outro: o efeito também apareceu em pessoas reformadas. Ou seja, o fenómeno não pode ser explicado apenas pelo stress laboral.Os investigadores defendem que o padrão pode resultar de décadas de exposição a rotinas semanais rígidas. Ao longo da vida profissional, o corpo humano habitua-se a antecipar a segunda-feira como um momento de exigência, criando uma resposta fisiológica condicionada.Esse padrão pode manter-se mesmo quando a obrigação laboral desaparece.A hipótese é consistente com outros estudos sobre o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), o sistema biológico responsável pela resposta ao stress.Alterações persistentes neste sistema estão associadas a maior risco de doenças cardiovasculares, ansiedade crónica e problemas metabólicos.Segunda-feira e ataques cardíacos: um padrão observado em vários estudosA ideia de que os ataques cardíacos ocorrem com maior frequência no início da semana tem sido observada em investigação médica há décadas. Vários estudos apontam para um padrão semanal na ocorrência de eventos cardiovasculares, conhecido como ‘Monday effect’.Uma meta-análise publicada no Journal of Epidemiology & Community Health, que analisou 28 estudos realizados em 16 países e mais de 1,6 milhões de eventos coronários, concluiu que existe um pequeno excesso de casos registados à segunda-feira em comparação com os restantes dias da semana.Segundo os autores, o efeito é relativamente modesto — num cenário com cerca de 100 eventos cardíacos por semana, ocorre em média um caso adicional à segunda-feira — mas o padrão aparece repetidamente em diferentes populações e sistemas de saúde.Investigações mais recentes também identificam este tipo de variação temporal. Um estudo sobre emergências cardiovasculares descreve que enfartes do miocárdio, arritmias e morte cardíaca súbita tendem a ocorrer com maior frequência nas primeiras horas da manhã e no início da semana de trabalho.Os investigadores associam este fenómeno à interação entre ritmos biológicos e fatores sociais. O organismo humano segue ciclos circadianos, ligados ao sono, pressão arterial e produção hormonal, que podem sofrer alterações após o fim de semana. O regresso às rotinas profissionais, com horários mais rígidos e níveis de stress mais elevados, pode amplificar esse desfasamento.Apesar disso, os cientistas sublinham que o efeito não é suficientemente forte para explicar por si só a ocorrência de enfartes. Fatores clássicos de risco cardiovascular, como hipertensão, tabagismo, obesidade ou sedentarismo, continuam a ter um impacto muito maior.Mas a segunda-feira pode não ser o pior dia da semanaApesar da ideia popular de que a segunda-feira é o momento mais difícil da semana, alguns estudos sugerem que o padrão emocional diário é mais complexo.Uma investigação publicada no Journal of Positive Psychology analisou dados do Gallup Daily Poll, um inquérito contínuo que recolhe diariamente informação sobre emoções e bem-estar de centenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos.Os investigadores avaliaram respostas a perguntas simples — como se os participantes tinham sentido stress, tristeza, felicidade ou alegria no dia anterior — e compararam os resultados ao longo da semana.O padrão encontrado não foi exatamente o que a narrativa do ‘Monday blues’ sugere.Os níveis de bem-estar emocional tendem a ser mais elevados ao fim de semana, sobretudo devido a maior tempo passado com família e amigos e menor pressão profissional. Já entre os dias úteis — segunda, terça, quarta e quinta-feira — as diferenças são relativamente pequenas.Em outras palavras, o contraste mais claro não é entre segunda-feira e os restantes dias da semana, mas entre fim de semana e dias de trabalho.Segundo os investigadores, isso indica que o fator determinante pode não ser o dia específico, mas sim as condições associadas ao trabalho, como horários rígidos, pressão profissional ou menor autonomia na gestão do tempo.Quando essas variáveis são controladas, por exemplo entre trabalhadores com maior flexibilidade laboral, a diferença de bem-estar entre dias úteis e fim de semana tende a diminuir.O papel da organização do trabalhoPara vários investigadores, o fenómeno associado à segunda-feira deve ser analisado também no contexto da organização moderna do trabalho.A semana laboral tradicional de cinco dias consecutivos cria uma alternância muito marcada entre períodos de descanso — concentrados no fim de semana — e períodos de produção intensiva durante os dias úteis. Esse contraste pode amplificar a sensação de quebra entre domingo e segunda-feira, sobretudo quando o regresso ao trabalho implica mudanças abruptas de horário, sono ou ritmo diário.Organizações internacionais têm alertado para o impacto dessas estruturas na saúde mental. Um relatório conjunto da World Health Organization e da International Labour Organization concluiu que longas horas de trabalho estão associadas a um aumento significativo do risco de acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquémica.A análise estima que trabalhar 55 horas ou mais por semana aumenta em cerca de 35% o risco de AVC e em 17% o risco de doença cardíaca quando comparado com jornadas de 35 a 40 horas semanais.Para os investigadores, estes dados reforçam a importância da organização do tempo de trabalho na saúde física e mental. Estruturas laborais rígidas, com pouca flexibilidade de horários ou recuperação insuficiente entre períodos de trabalho, podem contribuir para níveis mais elevados de stress acumulado ao longo da semana.Nos últimos anos, vários países e empresas têm testado modelos alternativos, como semanas de trabalho mais curtas ou horários flexíveis, precisamente para reduzir esse impacto. Experiências com semanas de quatro dias, analisadas por investigadores do University of Cambridge e do Boston College, mostram melhorias significativas na satisfação dos trabalhadores e reduções nos níveis de stress relatados.Segunda-feira é também um fenómeno culturalAlém dos fatores biológicos e económicos, existe também uma dimensão cultural. A expressão ‘Monday blues’ tornou-se popular nos Estados Unidos no século XX e foi reforçada pela cultura popular, música e redes sociais.Hoje, a segunda-feira funciona quase como um símbolo coletivo do regresso à rotina. Essa narrativa cultural pode amplificar a perceção negativa do dia, independentemente da realidade estatística.A investigação disponível sugere que a segunda-feira não é necessariamente o pior dia da semana em termos absolutos. Mas há evidência de que o início da semana está associado a alterações fisiológicas reais, desde níveis de cortisol mais elevados até maior incidência de eventos cardiovasculares.Mais do que um problema de calendário, o fenómeno parece refletir a forma como o tempo foi estruturado na sociedade moderna. E isso levanta uma questão maior: se o corpo humano reage assim à segunda-feira, talvez o problema não esteja no dia, mas na forma como organizámos a semana.O conteúdo Estamos a culpar o dia errado? A ciência começa a olhar para a segunda-feira de outra forma aparece primeiro em Revista Líder.