A Hungria foi a votos ontem, numa das eleições legislativas mais observadas dos últimos anos na Europa Central, que culminou com a vitória do líder da oposição, do partido de centro-direita e pró-europeu Tisza. «Juntos, libertámos a Hungria», anunciou, publicamente, assim que se conheceram os resultados preliminares.Orbán reconheceu a derrota e felicitou Magyar cerca de uma hora e meia após o fecho das urnas. O primeiro-ministro cessante classificou o resultado como «claro» e «doloroso» para o Fidesz. Após um mandato de 16 anos, consolidou um modelo político que descrevia como ‘democracia iliberal’, caracterizada por defender os valores tradicionais da família cristã contra a investida do liberalismo ocidental e do multiculturalismo.O resultado surge num contexto de forte pressão política e institucional sobre Budapeste, após anos de tensões com Bruxelas em matérias como o Estado de direito, independência judicial e liberdade de imprensa, temas que marcaram também a campanha eleitoral.De aliado a rivalPéter Magyar personificou a expressão «mantém os amigos perto e os inimigos ainda mais perto». Antigo aliado de Orbán e figura próxima do núcleo do poder, rompeu com o governo após um vir a público um escândalo: a sua ex-mulher, Judit Varga, renunciou ao cargo de ministra da Justiça de Orbán quando se soube que a presidente conservadora da Hungria, Katalin Novák, uma aliada fundamental do primeiro-ministro, tinha perdoado um homem condenado num caso de abuso sexual.Lançou o partido Tisza, apresentando-se como alternativa ao sistema político que perdurava no país. A sua ascensão foi impulsionada por denúncias de corrupção e críticas ao funcionamento das instituições, ganhando projeção nas eleições europeias de 2024, onde alcançou cerca de 30% dos votos e elegeu sete eurodeputados. A sua candidatura simboliza, para muitos analistas, uma tentativa de mobilizar o eleitorado urbano e mais jovem, tradicionalmente mais crítico do governo. Um líder de olhos postos na EuropaMagyar comprometeu-se a reorientar a Hungria para uma postura pró-UE, pôr fim à sua dependência energética da Rússia, restaurar a independência dos meios de comunicação social públicos e do poder judicial e impulsionar a economia.Garantiu ainda que irá restaurar o equilíbrio de poderes no país e aderir à Procuradoria Europeia, colocando esta medida no centro da estratégia de combate a alegadas fraudes e casos de corrupção associados ao período de governação de Orbán. O líder afirmou ainda que «quem prejudicou o país será chamado a responder», sublinhando a intenção de reforçar mecanismos de responsabilização.No plano externo, comprometeu-se a reposicionar a Hungria como um aliado sólido da União Europeia e da NATO. Indicou também que a sua primeira deslocação oficial ao estrangeiro deverá ser a Varsóvia, seguindo-se visitas a Viena e Bruxelas, onde pretende iniciar negociações para desbloquear os fundos europeus destinados ao país.Mas o líder da oposição está longe de ser considerado progressista. Como tal, é improvável que a política húngara em questões controversas, como a imigração, venha a mudar muito. Disputa eleitoral marcada por polarização e desgaste políticoAo longo da última década e meia, Orbán tornou-se uma das figuras mais polarizadoras da política europeia, assumindo-se como um dos principais críticos de Bruxelas e acumulando confrontos com as instituições europeias em temas como o Estado de direito, a independência judicial, a liberdade de imprensa e, mais recentemente, o apoio à Ucrânia. A Comissão Europeia chegou mesmo a suspender milhares de milhões de euros em fundos destinados à Hungria, num braço de ferro que marcou também o contexto destas eleições.As semanas que antecederam o sufrágio foram marcadas por várias acusações ao antigo governo, tais como tentativas de contornar restrições à publicidade política nas plataformas digitais, bem como suspeitas de partilha de informação sensível com a Rússia, num contexto já marcado pela proximidade política de Budapeste a Moscovo.O posicionamento da Hungria face à guerra na Ucrânia voltou a estar no centro do debate. Orbán manteve uma linha divergente da maioria dos parceiros europeus, recusando apoiar plenamente sanções e bloqueando iniciativas comunitárias, enquanto procurava apresentar-se aos eleitores como garante de estabilidade, defendendo que a sua liderança manteria o país afastado de conflitos.Estas eleições representavam o maior desafio ao seu domínio político, com sondagens a apontarem para uma derrota no voto popular, num cenário de crescente descontentamento económico e social. Orbán contava com o apoio de Donald Trump, da italiana Giorgia Meloni e de Alice Weidel, do partido Alternative für Deutschland. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, visitou Budapeste dias antes das eleições para fazer campanha a seu favor. Economia e custo de vida pesaram na decisão dos eleitoresPara além das questões institucionais, a situação económica foi determinante no comportamento dos eleitores. A inflação elevada e a pressão sobre o custo de vida estiveram entre os principais fatores apontados durante a campanha.Analistas citados pela imprensa internacional destacam que, apesar do crescimento económico registado nos últimos anos, muitos eleitores continuam a sentir uma perda de poder de compra, o que contribuiu para aumentar a incerteza em torno do resultado. Imagem: Euronews/AP PhotoO conteúdo Fim da era Orbán: vitória de Magyar na Hungria pode mudar relação com a União Europeia aparece primeiro em Revista Líder.