A primavera da abertura de capital das empresas e plataformas de criptomoedas parece ter durado menos do que o esperado. Após uma estreia avassaladora de nomes como Gemini (GEMI) e Circle (CRCL) nas bolsas dos Estados Unidos, em 2025, e da BitGo (BTGO),em 2026, investidores esperavam com ansiedade os próximos IPOs do setor.Os lançamentos inspiraram grande confiança. A demanda pela Gemini pré-IPO movimentou US$ 425 milhões, enquanto a Circle levantou incríveis US$ 1,05 bilhão. Já de saída, as ações tiveram alta de mais de 60% e 230%, respectivamente.Mesmo a primeira estreia de ações de 2026, feita pela BitGo, mostrou um apetite contínuo dos investidores: as ações subiram mais de 20% no primeiro dia de pregão.Vale citar que todos os IPOs tiveram demanda acima do esperado.No entanto, o pessimismo logo tomou conta. Os papéis GEMI e BTGO caem 88% e 61% desde a estreia, enquanto apenas CRCL avança cerca de 37% desde o primeiro dia de negociação.A deterioração do cenário macroeconômico, com o avanço da guerra no Oriente Médio e a perspectiva de juros mais elevados por mais tempo, pressionaram empresas como Kraken e Coinsensys, que tinham seus IPOs esperados para este ano, mas adiados por tempo indeterminado.Assim, a pergunta que o investidor faz é: a temporada dos IPOs de cripto foi boa enquanto durou?IPOs de cripto: Otimismo exagerado ou fim do ciclo?“IPO não é uma decisão isolada do setor cripto, ele depende muito mais desse contexto global. Tensões geopolíticas, por exemplo, diminuem o apetite do investidor por risco”, afirma Fabrício Tota, vice-presidente de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin (MB).Além disso, o avanço das tensões geopolíticas pressionou os preços dos ativos de risco desde o começo do ano.Em 2026, as principais criptomoedas do mercado chegaram a cair mas de 30%, com o bitcoin (BTC) em queda de 22%, o ethereum (ETH), de 20%, e asolana (SOL), de 33%.“Timing é tudo. Poucas semanas podem fazer a diferença. No jargão do mercado, a janela começou a se fechar, com a deterioração dos preços dos criptotaivos em geral e os embates regulatórios em torno do Clarity Act”, comenta Tota, em referência à legislação que regula o mercado de criptomoedas nos Estados Unidos.O executivo ainda afirma que não se trata exatamente de uma suspensão definitiva de novos IPOs e que uma melhora do panorama macro auxiliaria em uma nova onda de abertura de capital do setor.“A Kraken, por exemplo, colocou o pé no freio em março, citando ‘condições difíceis’ de mercado. Mostra que a empresa está pronta para fazê-lo, mas optou por esperar um momento mais propício para ir a mercado”.Queda dos preços significa queda das empresas cripto? Não é por aíÉ verdade que a queda no preço à vista das criptomoedas pode afetar a percepção de risco das empresas do setor, mas esta relação nem sempre é verdadeira.Veja, negócios voltados à infraestrutura do mercado (como a BitGo) ou plataformas genéricas de negociação (como Gemini e Kraken) se beneficiam do volume negociado em seus ambientes.Em outras palavras, mesmo durante quedas do mercado, se o volume negociado disparar, essas plataformas conseguem gerar algum lucro no curto prazo via taxas e spreads. No entanto, no médio e longo prazo, a desvalorização dos ativos reduz o volume negociado, sendo prejudicial a essas corretoras.O caso específico da Circle é diferente: por ser uma emissora de stablecoin, a empresa consegue gerar retornos (yields) a partir das reservas em dólar e ativos correlatos, como títulos do Tesouro, além de ter sido a primeira companhia do gênero a abrir capital e consolidar a forte demanda por ativos em moeda norte-americanos.