Agentes do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) fizeram quase 20.000 prisões na região de Washington, D.C., Maryland e Virginia entre janeiro de 2025 e 10 de março de 2026, de acordo com uma análise de dados federais pelo Washington Post. Esse número é mais de cinco vezes maior do que as cerca de 3 800 detenções registradas na mesma área no último ano da administração anterior. Os números refletem a intensificação da política de imigração sob o governo do presidente Donald Trump, focada em abordagens comunitárias e prisões fora de centros de detenção tradicionais.Análises oficiais mostram que cerca de 60% das pessoas presas não tinham antecedentes criminais prévios, contrariando declarações públicas de autoridades que afirmavam priorizar criminosos perigosos.Casos de brasileiros no cerne da coberturaEntre os milhares de detidos pelo ICE na região e nos Estados Unidos em geral, vários casos envolvendo brasileiros ganharam destaque na mídia internacional e nas redes sociais:Alice Correia BarbosaUm dos episódios mais noticiados envolveu a detenção de Alice Correia Barbosa, uma mulher trans brasileira. Em 23 de agosto de 2025, agentes do ICE, vestindo roupas civis, retiraram Barbosa à força de seu carro em Silver Spring, Maryland, nas imediações de Washington, D.C.Vídeos amplamente compartilhados nas redes sociais mostraram os agentes puxando a brasileira do veículo e colocando-a em um veículo sem identificação policial clara. No registro oficial, ela foi referida por seu nome de registro de nascimento e com pronomes masculinos, apesar de ser reconhecida publicamente como mulher trans.Segundo declaração de autoridades americanas, a detenção teria ocorrido porque Barbosa teria permanecido nos Estados Unidos quase seis anos além do prazo permitido por seu visto de turista B‑2 e tinha registros anteriores por posse de substâncias controladas e maconha. Após a detenção, o Departamento de Segurança Interna afirmou que pretendia deportar a brasileira, e ela passou a ser mantida em um centro de detenção do ICE na Virgínia.O caso provocou reação política no Brasil, com a deputada federal brasileira Érika Hilton, ela própria uma mulher trans, pedindo ao Ministério das Relações Exteriores que intercedesse junto às autoridades americanas para proteger os direitos e integridade física de Barbosa.Brasileiro pede para voltar ao BrasilEm fevereiro de 2026, jornais brasileiros também relataram a detenção de Ailton de Souza, um cidadão natural do Paraná que vivia nos Estados Unidos há mais de 24 anos. Ele foi abordado por agentes do ICE em Maryland enquanto dirigia o veículo de sua empregadora. Em um vídeo publicado nas redes sociais, Souza é visto pedindo para “comprar uma passagem” e voltar ao Brasil, na tentativa de evitar a detenção.Esse episódio ilustra o impacto emocional e social do aumento das operações de fiscalização de imigração nos Estados Unidos, especialmente entre imigrantes de longa data que estão inseridos em suas comunidades locais e têm vínculos familiares e profissionais estabelecidos.Os casos que envolvem brasileiros — especialmente o de Alice Correia Barbosa — geraram debate nas mídias sociais e em veículos de imprensa por questionarem procedimentos, tratamento e respeito à identidade de gênero durante detenções migratórias. Organizações de direitos humanos e ativistas argumentaram que a forma como a detenção foi conduzida levantou preocupações sobre abuso de poder, tratamento digno e procedimentos adequados em prisões administrativas.No plano político, a detenção de Barbosa levou a manifestações públicas e à mobilização de grupos que defendem os direitos LGBTQIA+ no Brasil e nos Estados Unidos, pedindo maior atenção diplomática e proteção consular a cidadãos brasileiros detidos em operações de imigração.Impacto comunitário e legalOrganizações que apoiam imigrantes na região de D.C. relatam que o aumento das prisões tem gerado medo e retraimento social em comunidades imigrantes, com famílias evitando sair de casa ou buscar serviços públicos comuns por receio de contato com agentes de imigração. Especialistas em direito migratório e defensores de direitos civis destacam ainda que muitos dos detidos não tinham antecedentes criminais, o que intensifica o debate sobre prioridades e critérios das operações do ICE.O caso dos brasileiros está inserido em um contexto mais amplo de fiscalização migratória nos Estados Unidos que, segundo dados oficiais, resultou em um grande aumento de detenções e deportações desde o início do segundo mandato do presidente Trump. Organizações de direitos civis têm criticado a abordagem agressiva, enquanto autoridades afirmam que as medidas são necessárias para restaurar a “integridade” das fronteiras e aplicar as leis de imigração de forma mais rígida.