Os Estados Unidos dizem saber onde está enterrado o material nuclear mais sensível do Irã — e como recuperá-lo. Já os inspetores internacionais que viram esse urânio enriquecido pela última vez afirmam que isso está longe de ser certo.Com boa parte da atenção mundial voltada para o Estreito de Ormuz e para o cessar-fogo frágil que, em grande medida, tem sido mantido nas últimas 48 horas, esse descompasso expõe a mudança de prioridades de Washington na guerra que iniciou: ninguém consegue, hoje, verificar a localização ou a condição de todo o estoque de urânio altamente enriquecido do Irã — material que poderia ser usado em uma arma em questão de dias, se submetido a processamento adicional.Leia tambémNavios do Irã conduzem tráfego pelo Estreito de Ormuz, mostram dados de rastreamentoDados de rastreamento mostram que apenas embarcações ligadas ao Irã mantêm fluxo na região enquanto outras empresas adiam viagens apesar do cessar-fogo com os EUATrump volta a cobrar Irã sobre Ormuz: “Não é o acordo que firmamos!”Presidente americano disse que o petróleo voltará a fluir “com ou sem a ajuda do Irã”; novo líder supremo iraniano sinalizou que Teerã quer “levar Ormuz a um novo estágio”Antes de as inspeções serem interrompidas pelos ataques dos EUA e de Israel ao Irã em junho de 2025, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) havia verificado cerca de 441 quilos de urânio altamente enriquecido no país. Mas, desde então, os inspetores deixaram de ter alta confiança de que sabem onde está todo esse material.O presidente Donald Trump disse na quarta-feira (8) que os EUA trabalhariam com Teerã para “desenterrar e remover” o que ele descreveu como material nuclear profundamente enterrado, afirmando que ele permanece intocado desde os ataques americanos e sob constante vigilância por satélite. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, foi além, sugerindo que forças dos EUA poderiam apreender o material: “Nós vamos pegá-lo. Nós vamos tomar — vamos tirar de lá.”Mas diplomatas familiarizados com avaliações confidenciais da AIEA descrevem um cenário bem diferente. Inspetores não foram informados de qualquer plano conjunto entre EUA e Irã para recuperar o urânio, segundo dois funcionários baseados em Viena e familiarizados com o trabalho da agência, que pediram anonimato por estarem tratando de informações sensíveis.A relação entre o Irã e a AIEA, por sua vez, se deteriorou a um novo patamar desde a mais recente rodada de ataques, iniciada em 28 de fevereiro, disseram eles, com praticamente nenhuma possibilidade de restaurar o acesso de monitoramento no curto prazo.Isso deixa o órgão nuclear global — e, por extensão, os próprios EUA — sem uma linha de visão clara sobre um dos estoques mais perigosos do mundo.Embora Trump e Hegseth tenham sugerido que todo o estoque está concentrado em túneis próximos ao complexo nuclear de Isfahan, diplomatas disseram que se acredita que apenas cerca de metade esteja localizada ali.O restante provavelmente está disperso em instalações como Natanz ou Fordow — ou em outros locais desconhecidos. O Irã avisou a AIEA, há um ano, que poderia remover contêineres de material para um local não declarado se se sentisse ameaçado.“A imagem de satélite não serve para absolutamente nada quando se trata de verificar a localização do inventário de urânio do Irã”, disse Robert Kelley, engenheiro nuclear de armas dos EUA e ex-diretor da AIEA. “A única razão pela qual o governo sabe alguma coisa sobre o número de contêineres é porque a AIEA contou para eles.”O desafio vai muito além do estoque já conhecido. O Irã possui mais de 8.000 quilos de urânio enriquecido em diferentes níveis — material que também precisaria ser contabilizado em qualquer acordo futuro. Mesmo que Washington e Teerã chegassem a um entendimento para cooperar, diplomatas afirmam que reconstruir um quadro verificável do programa iraniano poderia levar anos.Isso porque a infraestrutura que sustentou décadas de monitoramento foi danificada ou destruída. Instalações de centrífugas foram atingidas, lacres da AIEA foram rompidos e a cadeia de custódia que permitia aos inspetores acompanhar o material ao longo do tempo praticamente colapsou. Parte do urânio também pode ter sido liberada no meio ambiente após os ataques, complicando ainda mais as tentativas de medir e recuperar o material.Na prática, os inspetores teriam de reconstruir duas décadas de conhecimento sobre as atividades nucleares do Irã — um processo que não pode ser acelerado por declarações políticas.Esforço complicadoA incerteza também complica qualquer possível esforço dos EUA para apreender fisicamente o material.Hegseth aventou a possibilidade de forças de operações especiais recuperarem o urânio, ecoando missões passadas que tinham como alvo ativos sensíveis. Mas, sem inteligência precisa e verificada de forma independente, tais operações carregariam riscos significativos.Para tropas em solo, disse Kelley, a tarefa poderia se resumir a contar contêineres, em vez de confirmar seu conteúdo — uma distinção crucial quando se lida com material que pode ser rapidamente reaproveitado. “É material de uso direto”, afirmou. “É um incêndio de cinco alarmes. Ele pode ser convertido em horas ou dias.”A falta de clareza sobre a localização aumenta a possibilidade de que qualquer operação acabe deixando parte do estoque de fora, mantendo material residual sem rastreamento — e potencialmente acessível.Para o Irã, essa ambiguidade pode ser uma vantagem.“Os iranianos têm, em grande medida, a vantagem na situação”, disse James Acton, físico e diretor na Carnegie Endowment for International Peace, em Washington. Com a incerteza em torno do estoque, Teerã mantém poder de barganha em qualquer negociação, especialmente à medida que as prioridades dos EUA parecem mudar.Nenhum retrocesso claroA questão mais ampla — se o uso da força militar de fato retardou de maneira significativa as ambições nucleares do Irã — continua sem resposta.Darya Dolzikova, pesquisadora sênior no Royal United Services Institute, em Londres, disse que os ataques nunca tiveram grande chance de eliminar o programa por completo.“O programa nuclear do Irã nunca seria eliminado por meios militares”, afirmou. “Nós simplesmente não sabemos qual foi o dano. Não vimos nenhuma avaliação de danos confiável.”Embora a infraestrutura quase certamente tenha sido degradada, a capacidade de base — que inclui conhecimento técnico e o material remanescente — permanece. Em certos aspectos, disse ela, o conflito pode ter reforçado o incentivo do Irã para manter ou expandir essa capacidade.“Se é que algo aconteceu, foi uma complicação do quadro, ao mudar o pensamento estratégico em Teerã”, disse Dolzikova.© 2026 Bloomberg L.P.The post Sem inspeção, caçada de Trump ao urânio do Irã vira jogo no escuro appeared first on InfoMoney.