Por que o Brasil é o grande vencedor do petróleo caro, segundo a XP

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Nesta quarta-feira (8), os preços do petróleo desabam após o anúncio de um cessar-fogo temporário entre os Estados Unidos e o Irã. No entanto, a guerra entre os dois países fez a commodity acumular alta de mais de 50% no ano, trazendo efeitos positivos e negativos para a economia brasileira, segundo a XP Investimentos.Em seu relatório Macro Mensal, o banco destaca que o choque externo aumenta receitas com royalties e outras participações na produção de petróleo, eleva o superávit comercial e contribui para um câmbio mais valorizado, ajudando a mitigar parte das pressões inflacionárias recentes.“Os preços do petróleo seguem cerca de 50% acima do início do ano. Isso sugere que é improvável que os mercados retornem à tendência pré-guerra de excesso de oferta e queda nos preços, mesmo se o Estreito de Ormuz for reaberto”, destaca o documento.Com isso, a XP revisou a projeção para a cotação do petróleo Brent de US$ 60 para US$ 90 por barril em 2026 (média anual) e para US$ 80 em 2027.“Produtores fora do Oriente Médio tendem a ser menos afetados, como é o caso do Brasil. Elevamos nossas projeções para receitas fiscais e superávit comercial, mesmo considerando maior valor importado de fertilizantes. A inflação aumentará — como nas demais economias —, mas será parcialmente amortecida pelo desempenho relativamente favorável da moeda brasileira”, afirma o banco.Ponto positivo para o BrasilSegundo os analistas, os preços mais altos do petróleo beneficiam a balança comercial brasileira. A XP revisou a projeção da balança comercial de 2026, elevando o saldo esperado de US$ 54 bilhões para US$ 76,5 bilhões.A arrecadação fiscal também sai ganhando, contribuindo para reduzir o déficit primário projetado, mesmo considerando medidas do governo, como subsídios a combustíveis e redução de PIS/Cofins.“Nosso cenário já contemplava ganhos de receita decorrentes da aceleração da atividade econômica e de medidas legislativas aprovadas no ano passado. A recente alta nos preços do petróleo deve ampliar os ganhos de arrecadação com royalties e outras participações na produção da commodity.”No câmbio, o real apresenta desempenho superior ao de seus pares, com valorização acumulada de cerca de 6% no ano. A XP ajustou sua projeção para a taxa de câmbio no final de 2026, de R$ 5,60 para R$ 5,30 por dólar.“O Brasil é percebido como um ‘vencedor líquido’ em cenários de alta nos preços do petróleo, o que, somado à rotação de fluxos globais para mercados emergentes, deve sustentar a moeda em patamares apreciados”, apontam os analistas.Pressão sobre a inflaçãoApesar dos efeitos positivos, o país enfrenta pressões inflacionárias. O aumento do custo de combustíveis e transporte levou a XP a elevar a projeção do IPCA de 2026 de 3,8% para 4,8%, enquanto o afrouxamento monetário perde força. Para o final do ano, a taxa Selic prevista passou de 12,75% para 13,50%.“Essa revisão reflete, em grande medida, a disparada nos preços do petróleo. Em nossa avaliação, o choque de oferta terá efeitos persistentes, principalmente sobre combustíveis, bens industrializados e passagens aéreas. A mudança teria sido ainda mais relevante não fosse a premissa de taxa de câmbio média ligeiramente mais apreciada em relação ao cenário anterior”, afirma o relatório.A XP aponta que a alta do petróleo terá efeito em cadeia no IPCA, com pressão maior sobre bens industrializados, cuja projeção de inflação anual passa de 2,1% para 3,2%. Entre os itens afetados estão etanol, produtos químicos, eletroeletrônicos, vestuário e subitens de higiene pessoal.Além disso, os reajustes nos preços de fretes têm impactado rapidamente os hortifrutigranjeiros, efeito que deve se espalhar para outros alimentos ao longo do ano.Crescimento econômicoA economia brasileira iniciou 2026 em ritmo mais acelerado, com sinais positivos em produção industrial, vendas varejistas e serviços. No primeiro trimestre, o PIB deve ter avançado 1,0% em relação ao último trimestre de 2025, apoiado por mercado de trabalho resiliente, taxa de desemprego historicamente baixa e forte crescimento dos rendimentos nominais e reais.Para todo o ano, a projeção de crescimento do PIB permanece em 2,0%, impulsionada também por medidas do governo, que devem adicionar cerca de 0,9 ponto percentual à variação anual.Porém, a guerra no Oriente Médio gera incertezas, pressionando preços de combustíveis e alimentos, reduzindo a renda disponível e limitando cortes de juros, com impactos sobre consumo e investimentos privados.Para 2027, a estimativa de crescimento é de 1,2%, com impulso fiscal negativo e taxas de juros ainda elevadas, enquanto o hiato do produto deve se aproximar da neutralidade apenas no meio do próximo ano.