8 lições de um gestor para investir em renda fixa em meio à guerra no Irã

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A escalada retórica do conflito entre Estados Unidos e Irã, seguida pelo anúncio na terça-feira de um cessar-fogo de duas semanas, jogou um balde de incerteza sobre os mercados financeiros globais e embaralhou as cartas de quem investe em renda fixa no Brasil nas últimas semanas. Com o petróleo volátil, a inflação implícita subindo e o ciclo de cortes do Banco Central pressionado, montar uma carteira equilibrada ficou mais difícil — mas não impossível.Para Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, o momento exige menos ambição e mais disciplina. Ele afirma que “em tempos de guerra, a visibilidade fica muito baixa” e argumenta: “atualmente, as casas com o maior research, com 50 analistas, e as que têm apenas um analista têm a mesma capacidade preditiva: nenhuma”. Isso, segundo ele, mostra que não é hora de tentar acertar o timing perfeito, mas de administrar o risco com inteligência.Leia também: Cessar-fogo pode estabilizar inflação e juros no Brasil? Bancos e corretoras avaliamEm entrevista ao InfoMoney, o especialista destacou oito pontos que os investidores devem considerar ao alocar em renda fixa em tempos de guerra; confira: 1. Parcele os aportesPara quem tem recursos novos para alocar, Lima recomenda fatiar os aportes ao longo do tempo, especialmente nos vértices mais longos. Sem um gatilho claro para uma queda abrupta das taxas, não há urgência em entrar com tudo de uma vez — e parcelar a alocação reduz o risco de comprar no pior momento.2. Em ambiente de guerra, o tamanho da posição importa mais do que a direçãoUm dos pontos mais mais destacados pelo gestor da Inter Asset é o de gestão de risco. Em períodos de alta incerteza geopolítica, o erro mais comum é dobrar a aposta quando o mercado parece oferecer oportunidade. Para ele, o movimento correto é o oposto: reduzir o tamanho das posições nos momentos de respiro e evitar aumentar exposição nos estresses.“A gente não fez aumento de posição no estresse. Só redução nos exageros”, disse. A ideia é que, com uma posição menor, o investidor consegue atravessar os períodos de volatilidade sem ser forçado a vender no prejuízo. E se o mercado se normalizar, o ganho potencial continua relevante mesmo com tamanho reduzido.3. Mantenha sempre uma composição equilibradaIndependentemente do cenário, Lima defende uma regra estrutural de portfólio: combinar ativos atrelados à inflação (como o Tesouro IPCA+) com pós-fixados (atrelados ao CDI ou à Selic). Essa composição protege o investidor tanto no cenário-base quanto no cenário alternativo — aquele em que as coisas saem do planejado.A lógica é simples: o cenário alternativo nunca avisa quando vai chegar. E quando chega, quem tinha essa proteção inflacionária saiu na frente. “Na hora que acontece o cenário adverso, eles protegem”, disse Lima sobre os ativos do Tesouro IPCA+.4. Pós-fixado segue sendo um porto seguroCom a Selic em patamar elevado — 14,75%, ou próximo disso —, o pós-fixado entrega rentabilidade relevante sem exigir que o investidor assuma apostas direcionais. Lima lembra que, quando a taxa básica está alta, não é preciso tomar risco com ativos de menor qualidade para ter um retorno satisfatório.No cenário atual, o pós-fixado também funciona como proteção: se o Banco Central for forçado a interromper ou desacelerar o ciclo de cortes por conta da pressão inflacionária vinda do petróleo, quem está nesse tipo de ativo garante a taxa corrente.5. Prefixados intermediários ganham atratividade — mas os mais curtos têm limitaçõesLima vê oportunidade no prefixado com vencimento mais alongado, como os de janeiro de 2029 e 2030. A lógica é que, no curto prazo, a inflação mais persistente e o ciclo de cortes mais restrito limitam o potencial de ganho dos papéis com vencimento em 2026 e 2027. Já os títulos mais longos têm espaço para se valorizar à medida que o cenário se normalizar.Há, porém, um aviso importante: quem compra prefixado precisa ter consciência de que o mercado já precifica boa parte do ciclo de cortes com antecedência. “Em agosto de 2023, quando começou o corte, tinham 500 pontos-base de corte na curva. E não deu. Quem comprou prefixado ali, perdeu dinheiro”, lembrou Lima.6. Títulos curtos do Tesouro IPCA+ estão menos atraentesAs NTN-Bs de vencimento mais próximo, como as de 2027 e 2028, perderam parte do apelo porque a inflação implícita nelas embutida já subiu de forma relevante com a alta do petróleo. Uma NTN-B 2028 com inflação implícita em torno de 5% ao ano parece excessiva para quem acredita que o Banco Central vai perseguir a meta de 3%.“Se você acredita nesse Banco Central, uma inflação implícita muito alta não conversa com isso”, disse Lima. Para quem já tem esses papéis na carteira, a recomendação é reduzir gradualmente a exposição à parte curta.7. NTN-B longa segue como ativo estrutural de longo prazoJá os títulos do Tesouro IPCA+ com vencimento a partir de 2045 mantêm o apelo. Eles são menos sensíveis à inflação de curto prazo e carregam o prêmio fiscal de longo prazo do Brasil — aquele que reflete a incerteza sobre o equilíbrio das contas públicas no médio e longo prazo.Com taxas reais em torno de 7,5% ao ano, Lima considera o patamar elevado e, portanto, uma boa entrada para horizontes dilatados. “A B50 (Tesouro IPCA+ 2050) pode estar 8,5% amanhã, mas no ano que vem estar 6,5% e você recupera”, explicou, reforçando que o horizonte longo dá tempo para o investidor absorver a volatilidade sem ser forçado a vender no pior momento.8. Prêmios do crédito privado seguem enxutos, mas fundamentos estão sólidosSobre títulos privados, Lima avalia que a maior parte das empresas de grau de investimento apresenta balanços sólidos, o que afasta o risco sistêmico. Os eventos de crédito recentes seriam casos isolados, não um sinal de deterioração generalizada.O alerta fica para o risco de liquidez: em momentos de aversão a risco, os spreads podem abrir não por problema nos fundamentos das empresas, mas porque investidores precisam de caixa e vendem o que têm. Mas com a tensão geopolítica mostrando sinais de arrefecimento, esse risco diminui.The post 8 lições de um gestor para investir em renda fixa em meio à guerra no Irã appeared first on InfoMoney.