Ambições pessoais e uma carreira entusiasmante nem sempre são antónimos. Inês Mateus, Pharmacy Channel Director da L’Oréal Dermatological Beauty, é a prova viva de que a progressão numa empresa pode e deve dar espaço aos sonhos e hobbies dos trabalhadores. Na sua visão, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional vai muito além de um conceito aspiracional: é uma prática concreta que molda a forma como lidera e evolui dentro da organização.Em conversa com a Líder, explica de que forma as paixões pessoais se traduzem em valor profissional, porque acredita que uma carreira ‘não aborrecida’ é aquela que permite reinventar-se continuamente e como está a L’Oréal a promover uma cultura de flexibilidade e autonomia. Qual é a importância da vida e ambições pessoais na carreira?Sou uma pessoa só, dentro e fora do escritório, por isso uma carreira na L’Oréal só pode ser um reflexo de todos os lados B que tenho e não me canso de inventar. Tocar piano, jogar ténis ou passar horas de volta da minha coleção de LEGO mantém a minha agilidade mental viva e tem impacto direto na minha energia diária e carreira no Grupo.Como líderes, lidamos com muitas decisões de negócio e desafios gestão. É no meu ‘Lado B’ que recarrego baterias, mas que também encontro respostas a muitos dos dilemas destes desafios. A vossa campanha defende que a vida é demasiado curta para uma carreira aborrecida. Que políticas ou práticas concretas existem para que esse equilíbrio vida-trabalho seja real no dia a dia e não apenas uma mensagem de campanha?Aqui o equilíbrio não é um conceito teórico. Os picos de trabalho intensos existem, e, muitas vezes, acabo por perder a noção do tempo pela paixão que tenho pelo que faço. Mas sinto que existe uma autonomia real dada ao colaborador. A minha equipa sabe que dou aulas no ISCTE, que jogo ténis e que as minhas filhas são a minha prioridade. Ao ser transparente sobre o meu próprio equilíbrio, existe uma ‘autorização’ implícita para que cada um deles faça o mesmo.A regra é simples: flexibilidade com total compromisso com a entrega. De que forma se traduzem as paixões pessoais em competências úteis no trabalho (resiliência, agilidade, criatividade, liderança)?Para mim, as competências mais valiosas são as que vêm de sítios inesperados. A teimosia em começar a aprender piano do zero aos 40 anos, por exemplo, é um exercício de resiliência nota a nota, tecla a tecla. É um processo que obriga o cérebro a explorar áreas preguiçosas e a aceitar que, para chegar a algo novo, é preciso errar milhares de vezes.Podia dar muitos outros exemplos para ilustrar, mas parece-me incontornável a ideia de que as paixões pessoais são um poderoso motor de resiliência, criatividade e liderança. Como avaliam e desenvolvem líderes para gerir equipas com perfis e necessidades pessoais diferentes?A L’Oréal é uma empresa que promove a diversidade e investe no desenvolvimento das suas pessoas. O foco está na capacidade de individualizar: perceber o que move cada pessoa, proporcionar-lhe os desafios certos e a autonomia para chegar onde quiser na empresa.Acreditamos que o papel dos líderes é serem facilitadores de talento. No final do dia, o sucesso de um líder mede-se pelos resultados de negócio, mas também pela taxa de envolvimento e capacitação da sua equipa. Num contexto em que se fala cada vez mais de propósito e realização pessoal, como evitam que a pressão para ‘ter uma carreira apaixonante’ se transforme numa nova fonte de exigência ou comparação dentro das equipas?É uma excelente pergunta! Há muitos exemplos de carreiras apaixonantes na L’Oréal e percebo o risco de exigência e comparação. Mas não há um lado tão inspirador nisso de ser possível? Acredito que o segredo para minimizar a pressão é, precisamente, incentivar a autenticidade e normalizar diferenças na forma como definimos e olhamos para uma carreira apaixonante.Ter uma carreira apaixonante nesta organização pode ser ir de estagiário a CEO, como é o caso do nosso Presidente atual, ser uma pessoa central no processo de fabricação de cremes, desde que tiremos o peso da comparação constante. O propósito real sente-se no impacto que criamos juntos. O que significa, na prática, ‘uma carreira não aborrecida’? Mobilidade, projetos internacionais, aprendizagem contínua?Acho impossível ter uma carreira aborrecida neste Grupo. No meu caso, em nove anos, sinto que vivi cinco vidas profissionais dentro da mesma empresa. Liderar o Marketing, Digital e Business Development, Ativação de Mercado e agora Direção Comercial é uma viagem completa. Esta mobilidade de funções, e internacional para quem o ambicione, obriga a uma agilidade mental constante e a questionar continuamente o que aprendeste antes.Na prática, uma carreira dinâmica significa que o teu próximo desafio exige que ‘reaprendas a aprender’ e que isso te motive e energize, é incrível! É ter a liberdade de questionar sempre e perceber que tudo pode ser repensado, otimizado e reinventado se mudarmos o ângulo de visão.O conteúdo «Sou a mesma pessoa dentro e fora do escritório»: Inês Mateus explica o que é uma carreira ‘não aborrecida’ aparece primeiro em Revista Líder.