A organização beneficente britânica Playrise, em parceria com o estúdio de arquitetura OMMX, desenvolveu um parque infantil modular e desmontável com uma proposta que vai além do design: devolver às crianças em campos de refugiados e zonas de desastre um direito básico frequentemente negligenciado: o de brincar. Pensado para contextos extremos, o projeto combina simplicidade construtiva, materiais adequados ao clima e participação direta das próprias crianças em sua concepção.Batizado de Playrise, o sistema foi desenvolvido ao longo do último ano em colaboração com crianças refugiadas da Eritreia, do Sudão e da Palestina. A partir de oficinas de cocriação, o projeto incorporou referências culturais, formas de brincar e necessidades práticas desses públicos. O resultado é uma estrutura composta por peças simples de madeira, que podem ser montadas por qualquer pessoa e adaptadas com acessórios coloridos, como barras e apoios para escalada, incentivando tanto a atividade física quanto a imaginação.Foto: Lewis Ronald | DivulgaçãoA iniciativa busca responder ao que a Playrise identifica como uma lacuna crítica no apoio a populações deslocadas. Em cenários de emergência, necessidades como alimentação, abrigo e assistência médica costumam ser priorizadas, mas o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças, diretamente ligado ao brincar, muitas vezes fica em segundo plano. “Comida, remédios, abrigo, essas coisas são essenciais, mas eu sei, apenas observando meus próprios filhos, que as crianças aprendem tudo brincando”, afirmou Alexander Meininger, cofundador da Playrise. “[Os parques infantis] criam um espaço, especialmente na situação em que se encontram, com muitas dificuldades e traumas, para onde podem ir, um pouco separados do resto da vida quotidiana, e que lhes permite sentir que podem simplesmente ser crianças.”Embora o direito ao brincar esteja previsto na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, ele raramente é garantido em campos de refugiados ou áreas atingidas por desastres, justamente onde seria mais necessário. É nesse contexto que o projeto ganha relevância, ao propor uma solução acessível, replicável e adaptável a diferentes realidades. O primeiro protótipo será instalado em Aysaita, na Etiópia, onde um campo de refugiados abriga cerca de 10 mil crianças com menos de dez anos e não possui nenhum parque infantil. Para entender as limitações do território e as expectativas da comunidade, Meininger, ao lado de arquitetos da OMMX, engenheiros da Webb Yates e fabricantes da Setworks, visitou o local. Durante a imersão, foram realizadas oficinas com crianças e entrevistas com pais, explorando desde brincadeiras tradicionais até as principais ausências sentidas no cotidiano.A mesma abordagem foi aplicada em dois outros contextos que devem receber futuras versões do sistema: um centro para palestinos deslocados no Cairo e uma comunidade de refugiados sudaneses em Wadi Karkar, no Egito. A escuta ativa nesses territórios ajudou a orientar decisões de projeto, garantindo que as estruturas fossem não apenas funcionais, mas também culturalmente relevantes. Do ponto de vista técnico, o sistema foi desenhado para operar em condições climáticas extremas. Além de estruturas que incentivam o movimento, o projeto incorpora soluções de sombreamento, um aspecto essencial em regiões de altas temperaturas. A decisão dos materiais também foi estratégica. “Escolhemos a madeira deliberadamente porque os parques infantis de metal que foram instalados historicamente no meio do deserto queimavam as crianças”, explicou Hikaru Nissanke, cofundador da OMMX. “E não havia sombra, então era só deserto aberto, as crianças não podiam brincar.”Foto: Lewis Ronald | DivulgaçãoNo caso do acampamento de Asaita, foi selecionada a madeira iroko, uma espécie africana reconhecida pela resistência em ambientes áridos, durabilidade e possibilidade de fornecimento responsável. A estrutura foi projetada com o mínimo de componentes possível, basicamente vigas e tábuas perfuradas, permitindo encaixes versáteis com conectores metálicos e a adição de diferentes equipamentos, como redes de escalada e cestas de basquete. A segurança foi tratada como prioridade desde o início. Os furos e sistemas de fixação foram desenhados para evitar acidentes, como o aprisionamento de dedos, enquanto a Webb Yates desenvolveu bases estáveis e removíveis, capazes de se adaptar a diferentes tipos de solo, da areia do deserto ao concreto urbano.Outro diferencial do projeto está na sua lógica de distribuição. A ideia é que, futuramente, organizações não governamentais possam acessar um “cardápio” de kits em diferentes tamanhos: pequeno, médio e grande, cada um acompanhado de instruções para montar diversas configurações. As estruturas podem ser instaladas com ferramentas simples, como chaves de catraca e pás, o que facilita a implementação mesmo em contextos com infraestrutura limitada. Além disso, a Playrise prevê que as próprias crianças participem da montagem dos parques, reforçando o senso de pertencimento e estimulando habilidades práticas. Mais do que um equipamento físico, o projeto se propõe a ser um catalisador de experiências, oferecendo um espaço seguro onde, mesmo em meio a situações de vulnerabilidade, seja possível recuperar algo essencial da infância. Leia também: 1.Refugiados transformam acampamento no deserto em floresta 2.Refugiados preparam marmitas saudáveis com alimentos de Parelheiros The post Parque leva lazer e dignidade a crianças em campos de refugiados appeared first on CicloVivo.