Produtor paga por custo da inadimplência e renegociações, diz CNseg

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Embora a taxa básica de juros da economia pese sobre o campo, custos como a alta inadimplência, as renegociações de dívidas e a instabilidade climática ampliam a pressão sobre o produtor rural.Para o presidente da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), Dyogo Oliveira, o produtor rural brasileiro acaba pagando, no fim do ciclo, não apenas o custo do crédito, mas também todo esse impacto, fatores que, segundo ele, já estão embutidos nas taxas cobradas pelo sistema financeiro.Na avaliação de Oliveira, o modelo atual cria um ciclo de endividamento recorrente. Após perdas de safra, produtores renegociam dívidas que se acumulam ao longo dos anos, muitas vezes carregando duas ou três parcelas antigas ao mesmo tempo. Esse histórico eleva o risco percebido pelos bancos e encarece ainda mais o crédito. Leia Mais Câmara prioriza seguro rural em 2026 Mais de 116 mil produtores rurais ficam sem Proagro Selic agrava retração do crédito no agro, diz Serasa Experian “O resultado dessa luta cotidiana do produtor rural com o clima é, no Brasil, um grande desastre, a meu ver. A solução que tem sido dada historicamente é endividar o produtor. Então, o produtor perde uma safra, o que faz? Renegocia as dívidas. Você pega a dívida desse ano, divide em dez anos. Há renegociações que já tinham uns 30 anos sendo renegociadas três ou quatro vezes. Se a gente olhar hoje o histórico de grande parte dos produtores brasileiros, eles carregam pelo menos duas ou três parcelas de renegociação”, afirmou no evento Diálogo Setorial: Seguros, Crédito e Agronegócio, ocorrido em Brasília, nesta terça-feira (8).Segundo ele, esse histórico eleva o risco percebido pelos bancos e encarece o crédito para todo o setor.Seguro rural não decolaDyogo destacou ainda uma distorção na política pública: enquanto o país movimenta cifras elevadas no crédito rural — na casa de centenas de bilhões de reais no Plano Safra — o seguro rural segue com orçamento limitado, próximo de R$ 1 bilhão. Para ele, isso leva o governo a economizar valores relativamente pequenos no seguro, mas gastar muito mais com renegociações.Um dos dados citados ilustra a redução da cobertura: a área segurada no país caiu de 13,7 milhões de hectares, em 2021, para cerca de 3,2 milhões de hectares em 2025.“Estados Unidos, por exemplo, é 90% da área implantada com seguro. O sujeito não consegue fazer nada sem estar com a questão do seguro resolvida. Aqui a gente tem tido uma miopia do governo a respeito disso”, destacocu.A avaliação é compartilhada pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), que defendeu uma mudança estrutural na política agrícola brasileira. Segundo ela, o país ainda opera com um modelo de crédito ultrapassado, centrado no Plano Safra, que não acompanha a evolução tecnológica e produtiva do campo.Para a senadora, o seguro rural deveria ser tratado como pilar central da política agrícola, com potencial de destravar o crédito ao reduzir riscos sistêmicos.“O seguro rural é um dos pilares dessa política. É isso que o Estado brasileiro vai ter que se ater daqui para frente. Se a gente resolve o seguro rural, a gente resolve o crédito. Pode até demorar um pouquinho mais, mas a gente começa a resolver o crédito em abundância”, disse.Ela também criticou a falta de planejamento de longo prazo e apontou que o Brasil ainda depende de instrumentos criados décadas atrás.O presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), Ingo Plöger, destacou que a diferença da dinâmica agrícola em relação ao resto do mundo aumenta a sensibilidade do setor a choques logísticos e climáticos.Segundo ele, o agro brasileiro funciona em um modelo próximo ao “just in time”, em que uma safra empurra a outra, exigindo fluxo constante de insumos, transporte e financiamento.“Uma safra empurra a outra. Você não tem estoque preventivo, não tem estoque regulador. Então, qualquer coisa que interfira nessa dinâmica impacta imediatamente”, pontuou.Ele também afirmou que há uma dificuldade recorrente de compreensão do funcionamento da economia brasileira por parte de analistas.“As previsões todas nos últimos quatro, cinco anos, em janeiro, erraram para baixo. Não é por maldade, é por incompreensão da realidade brasileira”, disse.Financiamento privado em altaJá o presidente da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Tadeu Silva, ressaltou a mudança no perfil de financiamento do setor. Embora o Plano Safra ainda seja relevante — com cerca de R$ 516 bilhões na safra 2025/26, sendo R$ 101 bilhões para investimentos —, o crédito tradicional tem perdido espaço.Até fevereiro, o investimento rural caiu 20%, enquanto programas como o Moderfrota recuaram 49%, passando de R$ 6,85 bilhões para R$ 3,48 bilhões. Em paralelo, instrumentos privados avançam: a CPR (Cédula de Produto Rural) somou R$ 163,4 bilhões em contratações, com alta de 39%.Segundo Tadeu, o agro continua demandando capital, mas o funding está migrando para o mercado de capitais, com crescimento de Fiagros e operações estruturadas ao longo da cadeia.Apesar da diversificação, ele alertou que o avanço do crédito sem cobertura adequada de seguro amplia o risco sistêmico.“De nada adianta estruturar crédito se, diante de uma quebra de safra, o produtor fica vulnerável”, afirmou.