A equipe dos Estados Unidos, liderada pelo vice-presidente JD Vance, partiu para Islamabad nesta sexta-feira para conversas, ao longo do fim de semana, com o Irã, mesmo com os dois lados se acusando mutuamente de violar os compromissos assumidos para garantir um cessar-fogo temporário.Autoridades da Casa Branca disseram estar céticas quanto à possibilidade de as negociações reabrirem imediatamente o Estreito de Ormuz, enquanto os principais negociadores iranianos colocaram o encontro em dúvida, afirmando que ele não poderia sequer começar sem compromissos sobre o Líbano e as sanções.Leia tambémCom Ormuz fechado, aeroportos europeus podem ter escassez de combustível em 3 semanasGrupo que representa terminais da União Europeia alerta que estoques estão diminuindo Fed terá espaço par reduzir juros após reabertura do Estreito de Ormuz, diz HassettDiretor do Conselho Econômico Nacional afirma que normalização da via marítima causará queda rápida nos preços de energia, reduzindo a inflação e abrindo caminho para o Fed flexibilizar taxas de jurosO presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, e o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, disseram que o cessar-fogo deveria incluir os ataques de Israel ao Hezbollah no Líbano e que os ativos iranianos bloqueados por sanções deveriam ser liberados.Não está claro se essas exigências poderão travar as negociações de sábado, que seriam a reunião de mais alto nível entre EUA e Irã desde a Revolução Islâmica de 1979, que deu início a quase meio século de relações conflituosas.Enquanto Vance, acompanhado do enviado especial do presidente Donald Trump, Steve Witkoff, e do genro Jared Kushner, voava para Islamabad, a capital paquistanesa estava sob um bloqueio sem precedentes, com milhares de paramilitares e tropas do Exército nas ruas. O Paquistão tenta reforçar sua imagem de mediador e, ao mesmo tempo, projetar estabilidade.O Irã saiu abalado do conflito iniciado no fim de fevereiro, mas — apesar das declarações de vitória de Trump — ainda é capaz de atacar os vizinhos e interromper a navegação pelo Estreito de Ormuz.A guerra provocou o maior choque no fornecimento de petróleo já registrado, prejudicando a produção de energia no Golfo e gerando temores de inflação, alertas sobre insegurança alimentar e risco de uma recessão global.Trump, às vésperas das eleições de meio de mandato no fim deste ano, enfrenta pressão para encontrar uma saída para o conflito. Ele anunciou o cessar-fogo na terça-feira, poucas horas antes do prazo final que havia estabelecido, após o qual ameaçava “destruir a civilização do Irã”.Casa Branca cética em relação às negociaçõesO Irã desconfia de Witkoff e Kushner, que lideraram conversas anteriores mediadas por Omã poucos dias antes de EUA e Israel iniciarem uma campanha de bombardeios que matou diversas autoridades de alto escalão, incluindo o então líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Vance tem pouca experiência em política externa e se mostra cético em relação a intervenções dos EUA no exterior.Vance disse, antes de partir de Washington na manhã desta sexta-feira, que os EUA “estenderiam a mão aberta”, mas que seria preciso ver se os iranianos negociariam de boa-fé.Duas autoridades da Casa Branca, que falaram sob condição de anonimato para discutir as deliberações internas, disseram que o clima dentro do governo, ao entrar nas negociações, era de ceticismo.Segundo elas, Trump já admitiu que é improvável que o Estreito de Ormuz seja reaberto com facilidade, mesmo que as conversas tenham algum grau de sucesso.O presidente dos EUA também não tem certeza se a equipe iraniana tem autoridade para negociar de forma significativa, afirmaram, explicando que ele acredita que os iranianos veem Araqchi como fraco por buscar a via diplomática.O Irã insiste que qualquer cessar-fogo também inclua o Líbano, onde Israel tem lutado contra o Hezbollah, aliado de Teerã.Teerã e o Paquistão, mediador do processo, disseram entender que a pausa temporária também abrangeria a guerra de Israel no Líbano. Israel inicialmente se recusou a interromper a ofensiva e, na quarta-feira, lançou uma nova onda de ataques, matando mais de 250 pessoas.Trump disse ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em uma ligação telefônica na quinta-feira, que aliviasse os ataques ao Hezbollah, segundo uma fonte familiarizada com o assunto. Mais tarde, Netanyahu concordou com conversas, que serão realizadas em Washington na próxima semana.Grandes lacunasTrump afirmou que uma proposta iraniana é a base para as negociações em Islamabad, embora um plano de 10 pontos apresentado por Teerã tenha pouca sobreposição com o plano de 15 pontos apresentado anteriormente por Washington, o que sugere grandes lacunas a serem preenchidas.A proposta do Irã inclui exigências de novas concessões relevantes, entre elas o fim das sanções que vêm prejudicando sua economia há anos e o reconhecimento de sua autoridade sobre o Estreito de Ormuz, onde pretende cobrar taxas de trânsito e controlar o acesso — o que representaria uma mudança profunda no equilíbrio de poder regional.Washington quer que Teerã abra mão dos estoques de urânio enriquecido, renuncie ao enriquecimento adicional, abandone o programa de mísseis e interrompa o apoio a aliados regionais. A equipe dos EUA também deve pedir a libertação de cidadãos norte-americanos detidos no Irã, segundo uma pessoa a par das discussões. Pelo menos seis norte-americanos estão presos no país, incluindo o joalheiro Kamran Hekmati e o jornalista Reza Valizadeh.Barbara Leaf, ex-diplomata de carreira que atuou como secretária-assistente de Estado responsável pelo Oriente Médio no governo do ex-presidente Joe Biden, disse que há um “risco muito alto de retorno à escalada” entre EUA e Irã.O governo Trump está plenamente ciente da pressão causada pelas interrupções no fornecimento de energia e pela alta nos preços da gasolina nos EUA, afirmou.“O tempo não está do lado do governo”, disse Leaf. “É isso que dá ao governo iraniano um grau tão alto de confiança que fica evidente em suas declarações. Não se trata totalmente de uma arrogância vazia.”The post Com Ormuz fechado e guerra no Líbano, EUA e Irã chegam a negociações sob desconfiança appeared first on InfoMoney.