Outro dia, uma amiga linda, poderosa e interessante “murchou” num encontro entre amigas, num rooftop badalado. Vendo sua feição séria e o olhar vidrado, perguntei o que tinha acontecido. A amiga que estava ao lado logo dedou: “Ela tá chateada porque saiu mal na foto”. Se tratava daquela selfie em cascata: a primeira sempre fica com um carão iluminado, ou seja, dificilmente sai bem. A segunda é dúvida, e as demais ficam ótimas, magras e com a cor dos dentes disfarçada pela distância do flash. A colega tristinha era a segunda.Veja, a foto ainda não tinha sido postada, então não havia do que se envergonhar. E ela nem tinha saído mal. O que doeu o coração dela foi que, baseada na impressão que teve de si mesma naquela imagem, concluiu que era feia. Não vou julgar, porque eu já senti isso. Mediante um registro que não me favoreceu, pensei: será que sou esquisita assim e ninguém me contou?Uma coisa que me apavorou por um tempo foi o meu perfil. Toda vez que eu me via de lado, numa foto, eu queria morrer. Ainda mais pensando que, boa parte do tempo, as pessoas me veem nesse ângulo, como, por exemplo, quando estão sentadas ao meu lado, numa mesa de um rooftop.Depois de algum tempo, descobri que a maior parte das pessoas não gosta do próprio perfil. As reclamações são várias: nariz caído (tipo periquito) ou com um ossinho pra fora (lombada); maxilar muito pra fora ou muito pra dentro (sem queixo); testa pequena ou grande demais (dá pra passar um filme); e o famigerado: “odeio meu papo”, não se referindo à qualidade da conversa, claro. Confesso, correndo o risco de você reparar, que meu principal incômodo é que o meu lábio superior é mais pra frente do que o inferior, tipo da família Simpsons, sabe?Graças a Deus, a gente não vê o nosso perfil no dia a dia. Nem no espelho. O que dá pra visualizar, no máximo, é um recorte na diagonal. Se pensarmos bem, quando não existia a câmera fotográfica, as pessoas morriam sem saber que tinham o nariz comprido.Mas, voltando à minha amiga, saí do bar e fiquei refletindo sobre a injustiça que cometeu com ela mesma. Cheguei a uma possibilidade: ela é separada – e solteira –, como eu. Muitas vezes, solteiros se conhecem em lugares como o que a gente estava, com música, drinks e falsas risadas. Nesse caso, não tem jeito: a primeira aproximação é motivada pela aparência. O carisma, a inteligência e a habilidade pra fazer piadas sobre o fim do mundo ficam de fora. É uma verdadeira loteria.E essa situação ainda foi reproduzida nos nossos celulares, através dos apps de namoro. Chega a ser pior, porque não dá nem pra ver como a pessoa mexe no cabelo, se usa perfume doce ou se acertou no Botox (e consegue levantar a sobrancelha).Acho que não vou chegar a uma conclusão sobre esse assunto. A aparência é uma coisa muito complexa. A beleza, então, nem se fala. Afinal, se vive ou não de aparências? A beleza está nos olhos de quem vê? Quem ama o feio, bonito lhe parece? Beleza põe a mesa? E as aparências, enganam?O que eu sei, querida amiga, é que você é linda de perto, de longe e de alma. Nunca deixe ninguém te fazer duvidar disso. Principalmente o maldito iPhone.