A Artemis 2 está chegando ao fim. Foram cerca de 10 dias levando a humanidade mais perto da Lua do que em qualquer momento dos últimos 50 anos. Mas, para quemfa já começa a sentir aquele vazio, há uma boa notícia: essa missão é apenas o começo. Agora é hora de entender os próximos passos do programa Artemis.A NASA modificou recentemente seu calendário e adiou o retorno dos astronautas à superfície lunar. Inicialmente previsto para a Artemis 3, o primeiro pouso agora deve acontecer apenas na missão seguinte, a Artemis 4. Mas essa mudança envolve muito mais do que uma simples troca de datas — ela reflete uma reformulação mais ampla da estratégia do programa.Motivada principalmente por atrasos no desenvolvimento de tecnologias críticas — especialmente os sistemas de pouso lunar (como a Starship HLS), os novos trajes espaciais para atividades extraveiculares (desenvolvidos pela Axiom) e partes da infraestrutura da estação Gateway —, a NASA optou por adiar o primeiro pouso tripulado e redistribuir os objetivos das missões subsequentes, priorizando uma abordagem mais incremental e menos arriscada. Isso levou à redefinição da Artemis 3, que deixou de ser a missão de pouso e passou a focar na validação dos sistemas necessários para tornar esse pouso possível.Módulos de pousoO principal ponto técnico por trás dessa decisão está no estado atual do módulo de pouso lunar da SpaceX, a Starship HLS. Diferentemente dos módulos utilizados no programa Apollo, esse sistema depende de uma arquitetura extremamente complexa, que envolve múltiplos lançamentos de Starship para realizar reabastecimento em órbita terrestre antes de seguir para a Lua. Esse processo exige transferência criogênica de propelente em microgravidade — uma tecnologia que ainda não foi demonstrada em escala operacional.Starship (Imagem: Paopano – Shutterstock)Além disso, a versão lunar da Starship precisa realizar um pouso com grande massa na superfície lunar e, posteriormente, decolar novamente para retornar à órbita, o que representa desafios significativos em termos de controle, propulsão e confiabilidade. Esses fatores tornaram inviável manter o pouso já na Artemis 3 dentro de um cronograma realista.Leia mais:O elo entre Apollo e Artemis: como uma órbita em forma de 8 está levando a humanidade de volta à Lua“Beleza e escuridão”, astronautas da Artemis 2 contam como é o espaço profundoArtemis 2: confira as imagens mais impactantes da missão até o momento!Durante muito tempo, a Starship foi vista como a única opção viável para o primeiro pouso lunar do programa Artemis. Embora a Blue Origin já tivesse um contrato para fornecer seu próprio módulo de pouso em missões futuras — inicialmente previsto para a Artemis 5 —, a diferença no estágio de desenvolvimento entre os dois sistemas parecia grande demais para permitir uma competição real.Representação artística do módulo de pouso Starship pousando na Lua com a futura missão Artemis 4 – SpaceXEsse cenário começou a mudar no último ano, quando reportagens indicaram atrasos no cronograma da Starship, incluindo sua versão lunar. Paralelamente, a NASA passou a afirmar publicamente que pretende utilizar o sistema que estiver pronto primeiro, sinalizando uma mudança importante na condução do programa.Diferentemente da Starship, o módulo Blue Moon, da Blue Origin, segue uma arquitetura mais tradicional, embora ainda bastante avançada. Ele deve ser lançado por um foguete pesado, como o New Glenn, e foi projetado especificamente para missões tripuladas à superfície lunar. Ao selecionar um segundo fornecedor, a NASA busca criar redundância e competição, reduzindo riscos programáticos e aumentando a resiliência do programa.Conceito artístico mostra o módulo de pouso Blue Moon Mark 1, da Blue Origin, e o rover VIPER, da NASA, na superfície lunar. Crédito: Blue OriginArtemis 3: o teste finalNesse contexto, a Artemis 3 foi redefinida como uma missão tripulada de validação em órbita terrestre. Seu objetivo será testar o acoplamento entre a cápsula Orion e um módulo de pouso, além de verificar procedimentos operacionais integrados. Esse tipo de teste é essencial porque, no perfil das missões lunares do programa Artemis, a Orion não pousa na Lua; ela permanece em órbita enquanto a tripulação se transfere para o módulo de pouso, o que exige operações de rendezvous e docking extremamente precisas.Segundo a NASA, a Artemis 3 está prevista para meados de 2027 e poderá testar um ou ambos os módulos de pouso comerciais — da SpaceX e da Blue Origin. A agência já deixou claro que pretende utilizar, nas missões seguintes, o sistema que apresentar maior maturidade no momento.Artemis 4: o primeiro pouso em 50 anosA Artemis 4, por sua vez, foi reposicionada como a missão que deverá realizar o primeiro pouso humano do programa. Nela, está previsto o uso do foguete SLS em uma configuração mais avançada, embora ainda existam incertezas quanto à adoção plena do estágio superior EUS, cujo desenvolvimento enfrenta atrasos. Representação artística do foguete SLS, da missão Artemis 2, com a Lua ao fundo. Crédito: Vadim Sadovski – ShutterstockApós chegar à órbita lunar, os astronautas deverão se transferir da cápsula Orion para o módulo de pouso — seja a Starship HLS ou o Blue Moon — e descer até a superfície, com foco na região do polo sul lunar. Essa área é considerada estratégica por abrigar depósitos de gelo em crateras permanentemente sombreadas, o que pode viabilizar a produção local de água, oxigênio e até combustível.Artemis 5: a consolidação da exploração lunarJá a Artemis 5 representa uma expansão operacional do programa e está diretamente ligada ao segundo contrato de módulo de pouso concedido à Blue Origin. A expectativa é que, caso ambos os sistemas estejam disponíveis, cada missão — Artemis 4 e Artemis 5 — utilize um módulo diferente, consolidando a estratégia de múltiplos fornecedores.A NASA mantém a missão em seu cronograma, prevista para o final de 2028, mas, devido à complexidade de um pouso lunar tripulado, a possibilidade de duas missões desse tipo ocorrerem no mesmo ano é considerada bastante otimista. O cenário mais provável envolve algum espaçamento maior entre elas.O futuro da exploração lunarEm síntese, o que se desenha após a Artemis 2 não é apenas uma sequência de missões, mas uma mudança de paradigma. O programa Artemis deixa de seguir o modelo episódico do Apollo e passa a adotar uma arquitetura modular, contínua e baseada na integração entre diferentes veículos, fornecedores comerciais e infraestrutura orbital. Isso aumenta significativamente a complexidade, mas também amplia o potencial de longo prazo.O adiamento do primeiro pouso e a redistribuição das funções das missões refletem exatamente essa transição. Mais do que retornar à Lua, a NASA busca estabelecer as bases de uma presença humana sustentável fora da Terra — um passo fundamental para objetivos ainda mais ambiciosos, como as futuras missões tripuladas a Marte.O post Artemis após a missão 2: atrasos, mudanças e o novo plano da NASA apareceu primeiro em Olhar Digital.