Os biomas brasileiros revelam modos únicos de viver e construir. Cada local reflete uma rica e diversa cultura. Com a extensão continental do país, conhecer cada pedaço é uma missão impossível para a maioria dos brasileiros. Mas, ao menos um gostinho é possível ter na Bienal de Arquitetura Brasileira, que acontece no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, até o dia 30 de abril.Em sua primeira edição, a Bienal de Arquitetura Brasileira reúne projetos de todas as regiões do país. Mais de 40 escritórios de arquitetura estão representados. A pluralidade da arquitetura brasileira contemporânea e das identidades regionais é expressa de forma clara no Pavilhão Brasil, cujo conceito curatorial reúne a riqueza dos biomas brasileiros: Amazônia, Pampa, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pantanal.Inspirada no formato da Bienal de Veneza, o evento é fundado por Anna Rafaela Torino e Raphael Tristão, criadores da plataforma Archa. A mostra está no Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA) do Ibirapuera. Abaixo você confere alguns destaques:Natureza e impressão 3DO escritório Superlimão, eleito o escritório mais criativo do mundo no IAI Design Award 2024, apresenta a “Casa Superlimão”, que materializa o potencial da impressão 3D de concreto para uma arquitetura sustentável.O grande destaque são os pilares estruturais inspirados na geometria orgânica do caule da folha de bananeira. Produzida via impressão 3D pela startup Portal 3D com suporte técnico do DC LAB (Laboratório de Construção Digital da USP), essa complexidade geométrica eliminou o uso de fôrmas tradicionais e reduziu o consumo de material em, aproximadamente, 70% comparado ao método convencional.Projeto: Superlimão | Foto: Israel Gollino (@israelgollino)Além dos já citados, o projeto tem o apoio institucional do hubIC (Hub Brasileiro de Inovação da Construção), além de parceria com a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) e o SNIC (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento).Concebida como uma habitação para o século 21, a Casa Superlimão possui 46 m² e obteve o selo de gradação “A” em desempenho ambiental no SIDAC. O projeto registrou apenas 38 kg CO2e/m², um valor significativamente menor (redução de mais de 80%) que o limite de 240 kg CO2e/m² estabelecido para essa categoria.“A participação do huBIC demonstra que a inovação no setor do cimento já é uma realidade prática. Este projeto prova que é possível conciliar liberdade arquitetônica com uma redução drástica no impacto ambiental, utilizando tecnologia de ponta desenvolvida no Brasil”, destaca o Professor Rafael Pileggi, titular da Escola Politécnica da USP e um dos responsáveis pela implementação do DC LAB, espaço multiusuário fundamental para o projeto. Leia também: 1.Resíduos de milho viram material de construção 2.Em 11 dias, Casa Fibonacci é erguida com impressão 3D A articulação entre academia, hub de inovação e startups como a Portal 3D permitiu transformar parâmetros complexos de engenharia em uma aplicação visível e funcional.Para Matheus Confessor, da Portal 3D, o projeto retira a impressão 3D do campo experimental: “Conseguimos produzir cada pilar em apenas 4 horas, mas o ganho real está na desmaterialização e na economia de recursos. Criamos soluções que seriam financeiramente inviáveis em métodos tradicionais devido à complexidade das fôrmas”.Além do concreto impresso, a casa integra estratégias passivas de conforto térmico, como ventilação por efeito chaminé e iluminação zenital difusa. O projeto também utiliza materiais de reuso, como madeira reciclada e lã de PET, evidenciando uma abordagem híbrida onde a tecnologia avançada convive harmonicamente com a economia circular.Homenagem a mulheres seringueirasUma casa inspirada nas moradias tradicionais de seringueiros da Amazônia é um dos destaques da primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira. Desenvolvido pela arquiteta e urbanista acreana Marlúcia Cândida, com apoio do arquiteto e designer Marcelo Rosenbaum, o Pavilhão Casa Empate homenageia as mulheres seringueiras que participaram dos chamados “empates” — movimentos de resistência pacífica contra o desmatamento da floresta, especialmente nas décadas de 1970 e 1980.Os empates surgiram com o avanço da pecuária sobre a Amazônia, quando comunidades extrativistas passaram a ser expulsas de seus territórios. Para impedir a derrubada da floresta, seringueiros se organizavam em grupos e se colocavam diante das árvores e dos motosserras, em ações coletivas e não violentas. Liderado pelo seringueiro e ativista Chico Mendes, o movimento ganhou projeção internacional e se tornou um marco na luta ambiental no Brasil.Com o agravamento dos conflitos e o alto índice de mortes entre homens seringueiros, as mulheres passaram a ocupar papel ainda mais central nesses atos, muitas vezes à frente das mobilizações, ao lado de suas famílias. Em encontros tensos com policiais e jagunços, essas mulheres se colocavam com suas crianças à frente e recorriam a estratégias pacíficas, como o canto do hino nacional, ajudando a consolidar a resistência nos territórios. “A gente ia para a mata sem saber o que podia acontecer, mas sabia que precisava defender nosso lugar. A floresta era nossa casa”, relembra Emília Campos, Representante da Comunidade Seringueira da Cachoeira, no Acre.Interior do Pavilhão Casa Empate. Foto: Tatiana AngottiConcebido como uma arquitetura-manifesto, o espaço recria o interior de uma casa inspirada nas residências tradicionais dos seringueiros, evidenciando a relação com o território e o protagonismo feminino no cotidiano da floresta. Com 113 m² e estrutura em madeira, o projeto incorpora soluções vernaculares, a exemplo do banheiro pensado como um ambiente integrado ao uso no meio natural, além de reunir elementos que retratam o dia a dia das mulheres, como utensílios de cozinha, peças de costura e objetos ligados ao cuidado e à vida doméstica.Esse modelo construtivo, originado de técnicas difundidas no semiárido nordestino e adaptadas à Amazônia, influenciou a arquitetura moderna brasileira, especialmente no uso de pilares que elevam as edificações, os chamados pilotis, presentes em projetos como os do Plano Piloto de Brasília e em obras de Lina Bo Bardi, como o MASP e sua residência no Morumbi. No pavilhão, essa herança aparece combinada a elementos da cultura material da floresta, como artesanato, cerâmicas, cuias, luminárias do tipo poronga, redes integradas à estrutura e peças como um colar de sementes de ouriço de castanha e um tapete inspirado nas raízes da paxiúba.Marlúcia Cândida no interior do Pavilhão Casa Empate. Foto: Tatiana AngottiA proposta reflete a trajetória de Marlúcia Cândida, que cresceu no Acre e teve contato direto com esse modo de vida desde a infância. Durante o mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília, a arquiteta aprofundou essa relação em uma pesquisa de campo em reservas extrativistas da Amazônia, onde conviveu com comunidades locais para estudar a arquitetura vernacular da região — trabalho que deu origem ao livro “A colocação e a casa do seringueiro: exemplo de arquitetura vernácula da Amazônia”, que será lançado ainda neste ano e inspira a exposição. “Essa é uma memória que faz parte da minha formação. Eu cresci vendo essas casas e essa relação com a floresta”, afirma. “O pavilhão traduz essa vivência em espaço e homenageia mulheres que tiveram papel fundamental na defesa da floresta.”Bioma Caatinga – Casa de MariaO projeto “É o Mar” está entre os projetos vencedores do Bioma Caatinga da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB). Representando o Ceará, a arquiteta Larissa Lima (escritório ARK Arquitetura) projetou uma instalação de 100 m² que recria uma moradia contemporânea completa. Ela convida o visitante a percorrer os espaços como quem atravessa uma casa real a partir da relação do povo cearense com o mar.“Pensei em ambientes claros e acolhedores. Se eu tivesse que escolher uma casa para morar, seria uma que fizesse sentido na rotina e trouxesse aconchego no dia a dia. Quis trazer um pouco do mar, dessa simplicidade e organização que a arquitetura pode oferecer”, resume Larissa.Projeto do escritório ARK ArquiteturaMais do que uma proposta expositiva, o projeto se estrutura a partir da relação do povo cearense com o mar, não como elemento literal, mas como uma presença que orienta o espaço. Essa referência aparece na luz natural, na fluidez dos ambientes, na escolha dos materiais e na forma como a casa se organiza, criando uma arquitetura guiada pelo clima e ritmo do litoral.É nesse contexto que surge a “Casa de Maria”. O nome representa as mulheres cearenses, figuras centrais na construção do lar e na transmissão de saberes. Aqui, essa relação com o território se traduz no cotidiano, no cuidado e na forma de habitar, conectando o conceito do projeto à vida real.Projeto do escritório ARK ArquiteturaCom varanda, salas de estar e jantar, cozinha, escritório, quarto com suíte e área de serviço, o projeto revela como o contexto influencia o modo de viver. A arquitetura incorpora soluções adaptadas ao clima, como ventilação cruzada, sombreamento e o uso de materiais naturais, criando espaços mais frescos, fluidos e alinhados à rotina.A materialidade também reforça essa proposta ao combinar o revestimento natural e artesanal aplicado nas paredes do banheiro. O acabamento Invecchiatto da empresa Lepri torna ainda mais confortável e sensorial o toque da pele (dos pés e mãos) e a troca de energia com a matéria-prima (barro). Proporciona a mesma sensação de andar descalço na terra.Projeto do escritório ARK ArquiteturaPensada também como uma experiência sensorial, a casa trabalha luz, textura e circulação para evocar sensações como brisa, luminosidade e leveza. O percurso convida o visitante a perceber como arquitetura, cultura e cotidiano se conectam no espaço.Para construir uma atmosfera que remete ao litoral de forma sensível e contemporânea, o projeto reúne peças de artistas como Henrique Viudez, designers como Léo Ferreiro, Érico Gondim, além de criações do estúdio Desconexo Design e obras da Galeria Leonardo Leal. Arte têxtil, cestaria e mobiliário autoral ajudam a construir uma atmosfera que remete ao litoral de forma sensível e contemporânea.Bioma Cerrado – Casa Adélia PradoInspirado na obra e no olhar da poetisa, a “Casa Adélia Prado traduz a delicadeza do simples, a força do silêncio e a beleza do que é vivido todos os dias. Representando Minas Gerais, a arquiteta Marina Reis parte do cotidiano como expressão máxima de identidade e cria uma experiência sensorial. Ela escolheu dois revestimentos naturais da empresa Lepri em tons marrom.Adélia Prado, revelada por Carlos Drummond de Andrade, é reconhecida por sua poesia que aborda o cotidiano, religiosidade e a condição feminina a partir de sua vivência em Divinópolis, Minas Gerais, mesma cidade natal de Marina Reis. O projeto da Casa que a homenageia partiu da seguinte pergunta: como seria transformar a poesia de Adélia em arquitetura?Casa Adélia Prado de Marina Reis | Divulgação LepriO visitante será convidado para uma imersão no jeito mineiro de morar: a caminhar sem pressa, observar texturas, luz e sombras e reconhecer o afeto nos detalhes. Assim irá se sentir em casa. Cada escolha — do material ao mobiliário — carrega intenção, narrativa e pertencimento. A arquitetura é térrea, acolhedora, sensorial.Casa Adélia Prado de Marina Reis | Divulgação LepriA luminosidade é outro ponto de destaque, como um fio condutor de toda a proposta. Os cobogós com as cerâmicas da empresa Lepri cumprem também este papel, de favorecer a ventilação natural do espaço. ”O vento passa, a sobra abraça, a matéria respira”, como define Marina Reis.Casa Adélia Prado de Marina Reis | Divulgação LepriCada ambiente foi desenhado como um verso. Na cozinha, o fogão a lenha – que tanto representa a culinária mineira – está no centro da Casa, onde a vida acontece devagar. O pátio interno é o lugar do encontro, das conversas ao pé do ouvido, onde a luz toca a terra e tudo fica em silêncio. O quarto e o espaço da escrita acolhem o corpo e a palavra. Revestimento de terra, cerâmica artesanal da Lepri, madeira pintada de azul, cobre e pedra sabão convivem em um contraste suave entre o rústico e o contemporâneo.Casa Adélia Prado de Marina Reis | Divulgação LepriA casa é uma declaração de afeto ao cotidiano, uma homenagem à Adélia, às mulheres mineiras, à poesia que mora nas pequenas coisas. É um lembrete de que habitar também é sentir e que a arquitetura também pode ser abrigo, memória e poesia.Mulher capixabaRepresentando o bioma da Mata Atlântica, o projeto Morar da Mulher Capixaba Contemporânea de Letícia Finamore Arquitetura propõe uma leitura sensível do habitar a partir de uma narrativa espacial onde matéria, luz e memória se entrelaçam, dando forma a um viver contemporâneo profundamente enraizado no território.Paredes e móveis sob medida em MDF Acácia, de Placas do Brasil | Letícia Finamore ArquiteturaConcebido como um refúgio entre mar e mata, o espaço criado pela arquiteta Letícia convida o visitante a percorrer uma arquitetura que valoriza a luz natural, a fluidez dos ambientes e a integração com a paisagem. O espaço materializa o encontro entre esses dois ecossistemas por meio de uma construção que privilegia a continuidade e o acolhimento, estabelecendo uma relação direta e constante com o entorno.| Letícia Finamore ArquiteturaO partido arquitetônico se estrutura a partir de três diretrizes principais: um eixo linear inspirado no movimento do mar e nos ventos costeiros; a alternância entre cheios e vazios, entendida como a respiração do espaço, traduzida em marcenaria contínua e aberturas que ampliam a conexão com a luz e a paisagem; e a casa como abrigo emocional, organizada em ambientes silenciosos, íntimos e acolhedores.Móvel sob medida em MDF Acácia, de Placas do Brasil | Letícia Finamore ArquiteturaO espaço se apresenta como um convite à pausa; uma resposta ao ritmo acelerado do cotidiano, onde o tempo se dilata e a experiência se aprofunda.| Letícia Finamore ArquiteturaA proposta se constrói em camadas sensoriais, nas quais arte, som e memória assumem papel estruturante. O som organiza o ritmo do ambiente, enquanto os materiais carregam histórias, como o padrão Acácia, em madeira clara, da empresa Placas do Brasil – marca também capixaba, compõe uma atmosfera que convida à permanência. Nesse contexto, o feminino se manifesta não como representação, mas como fundamento, presente em gestos cotidianos que articulam técnica e afeto como forças construtivas.Revestimentos naturaisAlém dos escritórios de arquitetura, diversas empresas marcam presença na Bienal. Uma delas é a Lepri Revestimentos Naturais, que, além de estar em nove projetos da mostra, criou o COGOBÓ BAB, uma coleção desenvolvida em parceria com a agência ALMAP, que traduz para a materialidade da argila um dos elementos mais reconhecíveis da arquitetura brasileira.Cobogó BAB criado pela Lepri com o logo da Bienal. | Foto: Lepri Revestimentos NaturaisAo longo do tempo, o cobogó consolidou-se como componente que articula luz, ventilação e permeabilidade, criando passagens entre dentro e fora, sombra e claridade, privacidade e abertura — e, por isso, tornou-se também um símbolo dos modos de habitar no Brasil. Na coleção, ele é retomado como linguagem: um objeto que comunica identidade e, ao mesmo tempo, preserva sua vocação arquitetônica.A Lepri reproduz o novo logotipo da BAB, transformando as letras B e A em desenho vazado, moldado em argila natural. “O resultado é uma peça que funciona como sinal gráfico e como elemento de composição espacial — um gesto que conecta identidade visual, cultura material e arquitetura”, explica Ludmila Lepri, diretora de marketing da marca.Cobogó BAB criado pela Lepri com o logo da Bienal. | Foto: Lepri Revestimentos NaturaisO Cobogó BAB foi produzido na cor Rosso, definida a partir de pesquisas sobre o morar brasileiro e escolhida para dialogar com repertórios cromáticos ligados ao território, à materialidade e à cultura de habitar. As peças principais têm formato 17 x 17 x 10 cm.Confira os demais projetos no site.Bienal de Arquitetura Brasileira 2026Período: 25 de março a 30 de abril de 2026Horário: 12h às 21hOnde: Parque Ibirapuera, São Paulo – Pavilhão das Culturas BrasileirasThe post Bienal de Arquitetura traz jeitos de morar em diferentes biomas appeared first on CicloVivo.