Como a Artemis 2 transformou uma cratera lunar em homenagem a Carroll Wiseman

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Os poucos seres humanos que puderam observar a Lua bem de perto descrevem esse momento como uma experiência transformadora. Durante o auge da missão Artemis 2, enquanto a nave Orion sobrevoava o terreno lunar, marcado por bilhões de anos de impactos cósmicos, a tripulação interrompeu a rotina científica por um instante profundamente emocionante. Ao identificar pequenas crateras recentes e ainda sem nome, os astronautas sugeriram que uma delas fosse chamada de “Carroll”, em homenagem à falecida esposa do comandante Reid Wiseman. A proposta foi transmitida ao vivo, em meio a lágrimas e abraços, em um daqueles raros momentos em que a exploração espacial revela que aqueles bravos astronautas treinados para enfrentar o desconhecido e o vazio do espaço, são, essencialmente, seres humanos.A superfície da Lua funciona como uma espécie de registro histórico do Sistema Solar. Sem atmosfera significativa, chuva ou erosão intensa, cada impacto permanece preservado por milhões ou bilhões de anos. O resultado é uma paisagem repleta de crateras, bacias, picos e planícies basálticas que contam a história da formação dos corpos rochosos do Sistema Solar. Nomear essas feições não é apenas uma formalidade cartográfica; é uma forma de organizar o conhecimento científico e, ao mesmo tempo, reconhecer as contribuições humanas para a compreensão do Universo.[ Impacto de rocha espacial na superfície lunar, criando uma cratera que ficará preservada por milhões ou até bilhões de anos – Imagem gerada por IA (Chat GPT) ]Os primeiros mapas detalhados da Lua surgiram no século XVII, logo após a invenção do telescópio. Observadores como Galileo Galilei perceberam que aquela superfície não era lisa e perfeita, como imaginavam os filósofos antigos, mas cheia de irregularidades. Poucas décadas depois, astrônomos como Giovanni Riccioli começaram a propor nomes para as feições lunares, muitos deles homenageando cientistas, filósofos e matemáticos. Foi em sua nomenclatura que a Lua passou a eternizar nomes como Aristarco, Ptolomeu, Tycho Brahe, Nicolau Copérnico, Galileu Galilei e Johannes Kepler.Essa tradição evoluiu ao longo dos séculos e hoje é coordenada pela União Astronômica Internacional, entidade composta por astrônomos de todo o mundo que, entre outras coisas, é responsável por padronizar a nomenclatura de corpos celestes e suas estruturas.O processo de nomeação segue critérios rigorosos. As crateras lunares, por exemplo, normalmente recebem nomes de cientistas, engenheiros, exploradores, ou de pessoas ligadas à astronomia ou pesquisa espacial, com contribuições notáveis ou fundamentais para suas áreas. Nomes de políticos, militares ou religiosos são evitados, com exceção de figuras políticas anteriores ao século 19. Os homenageados devem ter falecido pelo menos 3 anos antes da proposição de seu nome, mas houve uma exceção em 1970, quando homenagearam 6 astronautas americanos e 6 russos em uma ação comemorativa à conquista da Lua. (mais detalhes aqui e aqui)Durante o programa Apollo, os astronautas também participaram desse processo de forma simbólica. Em 1968, a tripulação da Apollo 8 nomeou informalmente algumas montanhas lunares visíveis durante a órbita. Esses nomes, porém, não se tornam oficiais automaticamente. As sugestões devem ser submetidas e avaliadas por uma comissão da União Astronômica Internacional, que verifica se atendem aos critérios estabelecidos e se não geram duplicidade ou ambiguidade.[ Tripulação da Artemis 2 se abraça após sugerirem o nome de “Carroll” a uma cratera lunar – Imagem: Reprodução Youtube / NASA ]O gesto realizado durante a Artemis 2 segue essa tradição. Durante o sexto dia de voo, a tripulação observou duas pequenas crateras ainda sem designação formal nas proximidades de Mare Orientale, uma gigantesca estrutura formada por um impacto ocorrido há cerca de 3,8 bilhões de anos. Uma das crateras foi provisoriamente chamada de “Integrity”, referência ao nome da espaçonave Orion utilizada na missão. A outra recebeu o nome “Carroll”, em homenagem a Carroll Taylor Wiseman, esposa do comandante Reid Wiseman, falecida em 2020. Após o retorno da missão, a proposta será formalmente submetida à União Astronômica Internacional, que avaliará a oficialização do nome. Mas o que levou a tripulação a propor essa homenagem à Carroll? Essa é a parte mais emocionante…Carroll e Reid Wiseman eram casados desde 2003. Juntos eles construíram suas vidas e tiveram duas filhas. Carroll trabalhava como enfermeira neonatal e Reid estava no programa de astronautas da NASA quando ela foi diagnosticada com câncer. Reid decidiu abandonar seus planos e mudar de cidade para ficar mais perto da família e da esposa, mas Carroll não permitiu que ele desistisse de sua carreira. Ele então reduziu seu ritmo de voos e assumiu funções administrativas para tentar conciliar o trabalho com uma atenção maior à família.[ Reid Wiseman e sua falecida esposa, Carroll – Créditos: NASA / Família Wiseman ]Em 2020, Carroll Wiseman faleceu após cinco anos de batalha, deixando esposo, filhas e um exemplo de amor, dedicação e determinação. Reid só foi retomar o ritmo de voos dois anos depois e quando foi selecionado para a Artemis 2, precisou conversar com suas filhas sobre os riscos dessa viagem. Ele já havia preparado testamento e tudo o que seria necessário para ampará-las caso não retornasse. Mas agora, com o sucesso da missão, Reid deve voltar para casa trazendo na bagagem essa linda homenagem para a mulher que marcou sua vida e agora, poderá também marcar a superfície da Lua. O pedido para nomear a cratera Carroll ainda passará por análise formal, mas historicamente solicitações semelhantes feitas por astronautas têm boas chances de aprovação quando respeitam os critérios estabelecidos. Caso seja oficializado, o nome passará a integrar mapas científicos, bases de dados e futuras publicações acadêmicas, tornando-se parte permanente da cartografia lunar. Além disso, ela poderá ser observada por telescópios aqui da Terra. Em certas condições de iluminação e libração, Carroll estará visível na borda oeste da Lua. Uma cratera pequena, com menos de 3 km de diâmetro, mas bem brilhante e próxima à cratera Einstein.[ Localização da Cratera Carroll, próxima à Einstein – Créditos: NASA / LROC / Jhmadden ]A superfície da Lua é frequentemente descrita como uma paisagem silenciosa e inóspita. Mas cada nome inscrito em seus mapas nos conta a história de pessoas que, de alguma forma, nos ajudaram a expandir o nosso conhecimento sobre o Universo. Nos lembra que a exploração do espaço é, essencialmente, feita por humanos, por pessoas, como você e eu, que amam, sofrem, lutam, superam suas dificuldades e são capazes de uma homenagem singela como essa, da tripulação da Artemis 2 à Carroll Taylor Wiseman.O post Como a Artemis 2 transformou uma cratera lunar em homenagem a Carroll Wiseman apareceu primeiro em Olhar Digital.