Menos crédito bancário ao agro abre espaço para estruturas de Fiagros e FIDCs

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O aumento da inadimplência no setor do agronegócio levou bancos, em especial Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, grandes financiadores desse segmento, a reduzir a oferta de crédito para o setor neste ano. Nesse contexto, parte das empresas tem recorrido com mais intensidade ao mercado de capitais para se financiar, em geral a taxas mais altas. Na visão de gestores e analistas, esse movimento pode abrir espaço para fundos especializados, como Fiagros e Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) do agronegócio.Leia também: FAO: preços mundiais de alimentos subiram em março, com guerra do Irã elevando custosO ápice dos problemas no mercado de crédito ocorreu no fim de 2024, quando grandes empresas como AgroGalaxy e a cooperativa Languiru pediram recuperação judicial, lembra José Daronco, RI da Suno Asset. “De lá para cá, a situação melhorou no mercado de Fiagros”, afirma.Segundo Daronco, um sinal positivo foi o fato de muitos fundos contarem com estruturas de garantias mais robustas, o que permitiu recuperar parte relevante dos valores investidos. Como reflexo, as cotas de vários fundos se valorizaram no mercado secundário e alguns veículos voltaram a captar mais recursos neste ano. “Há um cenário um pouco diferente do que vemos nos noticiários, pois o mercado de Fiagros está muito bom”, diz.Muita demanda e pouca oferta de recursosEle reconhece que há exceções, envolvendo gestores com menor conhecimento do segmento e maior apetite a risco, “mas muitos bons fundos têm em carteira títulos interessantes, com rentabilidade boa”, afirma.Com os bancos endurecendo as condições de crédito e reduzindo a exposição ao setor por receio de inadimplência, mais empresas vêm buscando alternativas. “O agronegócio não para, precisa de recursos, e muitas empresas grandes estão trazendo os agricultores menores para dentro do balanço, como a Boa Safra Sementes, que informou estar financiando mais os clientes, ou a Três Tentos, que alongou os prazos de pagamento das vendas”, diz Daronco.Outras companhias vêm recorrendo ao mercado de capitais, movimento que, segundo ele, tem beneficiado Fiagros e FIDCs do agronegócio. “Há muita demanda e pouca oferta de recursos”, afirma.Na avaliação do gestor, outro efeito da retração bancária é a alta dos spreads pagos pelas empresas em operações via Fiagros e FIDCs, o que, em tese, tende a elevar os dividendos distribuídos por esses fundos. “O cenário é bem positivo para o investimento, mas vai exigir maior cautela”, pondera.Diante do aumento de riscos — incluindo o impacto de custos mais altos de diesel e fertilizantes em função da guerra no Irã, segundo gestores ouvidos —, a percepção é de que os fundos têm reforçado a exigência de garantias. “O mercado aumentou o percentual de terra alienada, pede cessão fiduciária de recebíveis e, com isso, consegue estruturar um nível de garantia que fique interessante para o fundo, com garantias reais”, explica Daronco.Leia também: Caixa vê carteira de crédito de R$ 1,5 tri ainda no 1º semestreAssimetria na concessãoDaronco afirma que há muitos anos não via uma restrição tão grande de crédito bancário ao agronegócio. Segundo ele, em um ambiente de juros altos, os bancos seguem captando e direcionam mais recursos a grandes empresas de menor risco, reduzindo a oferta para médias e pequenas, com risco considerado intermediário.Com isso, o spread das grandes tende a cair, enquanto o das médias e menores sobe. “Há uma assimetria no mercado atual, ninguém quer emprestar para player menor e aí entram os Fiagros, e eles conseguem aproveitar”, avalia. Ele observa ainda que, em muitos casos, o problema do produtor é de liquidez, e não de solvência, já que boa parte do patrimônio está em terras. Quando o banco não refinancia ou não renova linhas, o produtor fica sem capital de giro — contexto que, segundo o gestor, vem permitindo a Fiagros e FIDCs do agronegócio retomarem as captações neste início de ano.Na Orram Investimentos, que administra cerca de R$ 1 bilhão em FIDCs voltados ao agronegócio, há estudos para novas emissões, principalmente junto a empresas que já são clientes, com faturamento entre R$ 1 bilhão e R$ 10 bilhões, afirma o CEO, Leandro Andrade. “O crédito bancário está, de fato, mais restrito para as empresas do setor de agronegócio”, diz, relacionando o movimento sobretudo aos casos de recuperação judicial e ao aumento da inadimplência. “O cenário como um todo deixa o gestor mais receoso em aumentar exposição, especialmente com o nível de preço das commodities e a alta do frete”, acrescenta.Como os bancos ainda respondem por algo entre 75% e 85% do financiamento ao agronegócio, segundo estimativas de mercado, a busca por FIDCs aumentou nos últimos meses. “Para empresas do agronegócio que possuem uma carteira de recebíveis saudável, os FIDCs podem ser uma solução de financiamento eficiente para toda a cadeia de valor”, afirma Andrade. Ele observa aumento de spreads, mas diz que companhias com boa qualidade de crédito e posição privilegiada na cadeia resistem a pagar taxas muito mais altas. “Esse é o principal ponto para o gestor: nem todo aumento de spread significa um bom negócio”, alerta.Reorganização do mercado O aumento da inadimplência no agronegócio não deve ser visto apenas como risco, mas também como um movimento que reorganiza o mercado e eleva o nível de exigência das estruturas, avalia Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos. Nos FIDCs e Fiagros, isso tende a impulsionar uma seleção mais criteriosa de ativos, reforçar a importância de governança e valorizar estruturas bem desenhadas, diz. Nesse ambiente, o crédito estruturado ganha relevância, na visão do gestor, por permitir soluções sob medida, com garantias mais robustas, diversificação e monitoramento constante. “Em vez de retrair o mercado, esse cenário tende a diferenciar os bons gestores e fortalecer veículos com base técnica sólida, ampliando o espaço para operações mais seguras e eficientes”, afirma.Araújo avalia ainda que a guerra adiciona volatilidade ao custo de produção, principalmente via combustíveis e insumos, mas também reforça a importância de estruturas financeiras mais sofisticadas dentro do agronegócio.Segundo ele, os veículos mais sensíveis à inadimplência são, principalmente, Fiagros de papel com maior concentração em CRAs ligados diretamente ao produtor rural, sobretudo quando há exposição a emissores mais alavancados ou com menor histórico de crédito. A compressão de margens no campo afeta diretamente a capacidade de pagamento e o fluxo desses títulos, aponta Araújo.Concentração aumenta riscos Nos FIDCs, Araújo vê maior risco em estruturas lastreadas em recebíveis agrícolas originados por distribuidores, cooperativas e revendas de insumos, especialmente quando a diversificação por sacado, região ou cultura é limitada, o que amplia a vulnerabilidade a choques específicos.Também entram nesse grupo, segundo ele, fundos com exposição relevante à cadeia logística e de insumos do agro, que podem ser impactados por aumento de custos operacionais, atrasos de safra ou desequilíbrios de caixa do produtor — movimento intensificado pela alta de diesel e fertilizantes. “Nesse cenário, o mercado passa a diferenciar com mais clareza as estruturas, e fundos com menor nível de garantias, menor subordinação das cotas ou monitoramento menos rigoroso tendem a exigir mais atenção, enquanto veículos mais diversificados, com gestão ativa e engenharia de crédito robusta, conseguem atravessar o ciclo com maior estabilidade”, avalia.Para o investidor, Araújo defende que é preciso ir além da leitura superficial de rentabilidade e analisar a estrutura dos fundos em maior profundidade: tipo de lastro, concentração por sacado, setor e região, além da qualidade das garantias, como alienação fiduciária, cessão de recebíveis ou seguros ligados às operações. Em Fiagros, ele considera fundamental entender quem está por trás dos CRAs, o nível de alavancagem dos produtores e o grau de diversificação entre culturas e regiões, evitando exposição excessiva a um único ciclo agrícola.Já nos FIDCs, destaca a importância de olhar o nível de subordinação das cotas, a existência de colchões de proteção suficientes para absorver perdas, os gatilhos de proteção da estrutura e a capacidade do gestor de monitorar e cobrar os créditos em tempo quase real. Outro ponto central é avaliar a experiência da casa na gestão de crédito estruturado.Para Aloísio Teles, diretor de Investimentos da 18ib, o aumento da inadimplência no agronegócio tem afetado Fiagros e FIDCs de forma desigual. “O que sofre mais não é exatamente o agro, e sim o crédito mal originado, mal estruturado ou excessivamente concentrado”, diz. Esse avanço da inadimplência costuma aparecer em forma de atrasos, renegociações, necessidade de provisionamento e, em alguns casos, perdas efetivas. No fim das contas, o mercado está sendo mais rigoroso e separando com mais clareza as boas estruturas das ruins, afirma.Risco para os mais alavancadosTeles explica que os atrasos de pagamento tendem a se concentrar em segmentos onde houve compressão de margens, custo financeiro elevado e maior dependência de capital de giro. Isso afeta produtores mais alavancados, mas também vários elos intermediários da cadeia, como distribuidores, revendas e alguns processadores. Quando o ciclo aperta, diz ele, o problema raramente fica restrito à produção primária e muitas vezes se intensifica justamente na parte comercial e financeira.Segundo o gestor, casas com postura mais conservadora têm atuado basicamente em três frentes: renegociam quando identificam capacidade de recuperação, reforçam ou executam garantias quando necessário e endurecem de forma clara os critérios para novas operações.Além disso, observa-se maior preocupação com diversificação, monitoramento e transparência. “Em momentos como este, a diferença entre um gestor bom e um gestor ruim aparece muito rápido, pois crédito não costuma perdoar descuido”, diz. Do lado dos investidores, ele enxerga manutenção das alocações, porém com grau maior de seletividade. “Hoje, o capital continua sendo direcionado ao segmento, mas busca estruturas mais sólidas, melhor governança e proteções mais claras.”Estruturas de crédito pulverizado têm apresentado desempenho relativamente melhor em relação a outras estratégias, na visão de Thiago Henrique Guimarães, head de Agronegócio da Brave Asset, por reduzirem o risco de crédito binário — quando a exposição fica concentrada em poucos nomes. “Quando bem estruturados e acompanhados por gestão ativa, esses ativos tendem a se manter resilientes, mesmo em cenários de maior inadimplência”, afirma.Já José Eduardo Barbosa, CEO da Multiplica, ressalta que os fundos mais afetados são aqueles com exposição a crédito pulverizado sem garantias robustas ou com concentração em perfis de risco mais sensíveis. Em termos de setores, ele vê maior incidência de atrasos em regiões e culturas mais impactadas por volatilidade de preços, clima e níveis mais elevados de alavancagem.Para Barbosa, esse ambiente reforça a importância de avaliar com cuidado quem é a gestora por trás do fundo. A qualidade da gestora, sua capacidade de originação, acompanhamento próximo e tomada de decisão fazem toda a diferença, especialmente em momentos de maior incerteza, afirma. Da mesma forma, avalia que a estrutura de garantias ganha peso adicional.Segundo ele, os gestores têm atuado de forma ativa, com renegociações, reestruturações e, quando necessário, execução de garantias. Do lado dos investidores, o movimento observado é de maior seletividade, com preferência por casas com histórico consistente, governança mais sólida e disciplina de crédito. Na visão de Barbosa, esse processo tende a fortalecer o mercado ao elevar o nível de exigência, melhorar a qualidade das novas estruturas e reforçar a importância de boas práticas. “Para investidores, é um ambiente mais propício para alocação consciente de risco”, conclui.The post Menos crédito bancário ao agro abre espaço para estruturas de Fiagros e FIDCs appeared first on InfoMoney.