Entrevista: Alessandro Vieira defende reforma no STF; ‘Bode foi colocado na sala, em cima da mesa, e as pessoas têm que lidar’

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O confronto entre o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ganha novos capítulos a cada dia e se transforma em um dos episódios mais ruidosos da atual tensão entre Congresso e Judiciário. Ex-delegado e pré-candidato à reeleição em 2026, Vieira passou a ocupar o centro do debate ao defender publicamente a responsabilização de integrantes da Corte e acusar ministros de agirem para barrar investigações conduzidas no Senado.O estopim do embate foi o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, no qual o senador incluiu sugestões de indiciamento por crimes de responsabilidade dos ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, do STF, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O relatório foi rejeitado na CPI por pressão do governo e da própria Corte.Na entrevista ao podcast Market Makers, parceiro do Money Times, o senador voltou a atacar os três ministros incluídos nos relatórios e elogiou outros integrantes do STF por defenderem uma reforma na Corte, necessária, de acordo com o parlamentar.“O bode foi colocado na sala, em cima da mesa, e as pessoas agora têm de lidar com o bode. Gilmar, Toffoli, estão tentando lidar à base de ameaças, e outros ministros estão tentando lidar à base de soluções institucionais”, disse Vieira. Ele citou os ministros Edson Fachin, presidente do STF, e Flávio Dino, que defendem a criação de um código de ética para os magistrados.“Uma fração relevante do Supremo entende que tem de fazer uma reforma, cortar na carne e corrigir conduta. O que não sabe ainda é se essa parcela vai ser majoritária, ou não”, completou o senador, que classificou o STF como um “grupo que tem poder imenso e quer fazer desse poder uma barreira intransponível, uma garantia de impunidade”.Na conversa com Thiago Salomão e Leopoldo Rosalino, Vieira relembrou que parte do STF reagiu às conclusões da CPI com ameaças e tentativas de intimidação política e de constranger parlamentares durante a tramitação do documento.Vieira sustentou que o Senado tem competência constitucional para julgar crimes de responsabilidade de ministros da Corte, assim como julgou ex-presidentes como Dilma Rousseff e Fernando Collor nos processos de impeachment, e reforçou a discussão sobre limites e controles do Supremo. “Ou todos são iguais perante a lei ou o Brasil assume que existe uma elite imune à investigação”, resumiu.Senado no centro da disputaO senador procurou associar o episódio à eleição de 2026, quando dois terços das cadeiras do Senado estarão em disputa. Segundo ele, o pleito será decisivo porque cabe à Casa processar e julgar ministros do STF em casos de crime de responsabilidade, além de aprovar indicações para tribunais superiores.Na entrevista, Vieira reforçou o discurso de que o eleitor deveria priorizar candidatos “honestos e qualificados”, independentemente do espectro ideológico, argumentando que o Congresso perdeu protagonismo ao longo dos últimos anos e permitiu a expansão do poder do Judiciário sobre temas políticos e legislativos.Polarização entre PoderesO episódio ocorre em meio ao aumento da pressão de setores políticos sobre o STF, especialmente após decisões envolvendo redes sociais, investigações sobre ataques à democracia e processos relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.Ao se colocar frontalmente contra ministros da Corte, Vieira tenta ocupar espaço entre eleitores críticos ao Supremo, mas sem aderir integralmente ao bolsonarismo. O movimento pode fortalecer sua posição eleitoral em Sergipe, já que é candidato à reeleição para o Senado.Segurança pública e origem do capital políticoCom trajetória de 25 anos como delegado de polícia, Vieira também defendeu uma agenda de endurecimento técnico contra o crime organizado. Ele afirmou que o Brasil erra ao combater apenas a ponta armada das facções e negligenciar lavagem de dinheiro, corrupção e infiltração econômica.Ele citou que o relatório final da CPI do Crime Organizado, mesmo rejeitado, propôs sugestões e projetos para um arcabouço legal para ampliar o combate às organizações criminosas no país.