Um manifesto divulgado pela Palantir Technologies reacendeu o debate sobre o papel das empresas de tecnologia em temas como segurança, geopolítica e uso de inteligência artificial. A publicação resume ideias do livro “The Technological Republic”, do CEO Alex Karp, e foi compartilhada pela companhia nas redes sociais, gerando repercussão entre especialistas e críticos.Logo na abertura, Karp adota um tom provocativo: “O Vale do Silício se perdeu.” A partir dessa premissa, o executivo defende uma reorientação da indústria tecnológica, com maior envolvimento em questões estratégicas de defesa e segurança nacional.A Palantir, conhecida por desenvolver sistemas capazes de integrar e analisar grandes volumes de dados (incluindo informações de vigilância), sustenta que o mundo estaria entrando em uma nova fase de dissuasão militar baseada em inteligência artificial. “A era nuclear está chegando ao fim”, afirma o texto. Em outro trecho, reforça: “A questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá e com qual propósito”.A empresa argumenta que adversários globais já avançam nesse campo e que o debate público, centrado em preocupações éticas ou retóricas, não acompanharia esse ritmo. Nesse contexto, defende o uso de instrumentos de poder mais diretos, apoiados por software. “Os limites do soft power e da retórica grandiloquente foram expostos”, diz o manifesto.O documento também traz posicionamentos sobre equilíbrio geopolítico. Em uma das passagens, afirma que “a neutralização do pós-guerra da Alemanha e do Japão deve ser revertida”, sugerindo que o atual cenário internacional exigiria maior capacidade militar dessas nações. A análise inclui críticas ao que chama de “devoção altamente teatral ao pacifismo japonês”.Além da dimensão internacional, o texto aborda a relação entre sociedade e política. A empresa critica o que descreve como restrições no debate público sobre diferenças culturais e rejeita a ideia de um “pluralismo vazio e oco”. Ao mesmo tempo, procura se distanciar de discursos mais emocionalizados. “A psicologização da política moderna nos desvia do caminho”, afirma.Outro eixo central do manifesto é o papel das big techs. Para a Palantir, empresas do setor teriam uma responsabilidade maior com o país onde surgiram. “O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que possibilitou sua ascensão”, diz o texto, que também defende maior participação da indústria tecnológica no combate ao crime e na segurança pública.Palantir foi fundada em 2003; Alex Karp é CEO desde 2004 – Imagem: Hiroshi-Mori-Stock/ShutterstockManifesto da Palantir gerou críticasA repercussão não demorou:O economista Yanis Varoufakis reagiu de forma contundente, afirmando: “Se o mal pudesse tuitar, este seria o conteúdo”;Já o cientista político Cas Mudde classificou o documento como um indicativo de um projeto autoritário sustentado por tecnologia de vigilância, descrevendo-o como “puro tecnofascismo”. Para ele, a publicação coloca em xeque a empresa como parceira internacional;O pesquisador Eliot Higgins também comentou o conteúdo com ironia, destacando o tom incomum de uma empresa ao tratar de temas políticos dessa forma.A Palantir foi cofundada pelo empresário alemão Peter Thiel, conhecido por sua influência na reeleição e no governo de Donald Trump. A empresa fornece soluções para governos e forças de segurança, incluindo sistemas utilizados por agências como CIA e ICE, além de projetos militares e plataformas de análise de dados. Entre seus produtos mais conhecidos está o Gotham, capaz de cruzar informações de múltiplas fontes para traçar perfis e apoiar investigações.O uso dessas tecnologias, no entanto, levanta questionamentos recorrentes sobre privacidade e vigilância em larga escala. Em diferentes países, iniciativas relacionadas ao uso de ferramentas similares têm sido vistas por críticos como potenciais passos rumo a estruturas mais amplas de monitoramento estatal.Segundo o site DW, no Brasil, a empresa mantém CNPJ ativo desde 2014, mas não há registros claros de contratos diretos com o governo federal. Ainda assim, iniciativas envolvendo suas soluções já foram mencionadas em projetos públicos.O post O que é a Palantir, que defende armas de IA e vigilância apareceu primeiro em Olhar Digital.