Para Tito de Morais, fundador da plataforma MiúdosSegurosNa.Net e cofundador da Agarrados à Net., a exposição de crianças online continua a ser um dos pontos mais críticos. Questionado sobre o papel dos pais, admite que tudo depende do que se entende por exposição, mas é claro quanto à partilha excessiva: «acho que devem expor menos os filhos na internet em geral e nas redes sociais».Ainda assim, rejeita soluções baseadas na proibição. Na sua perspetiva, o contacto com a tecnologia deve ser progressivo e acompanhado: «nós aprendemos a lidar com as coisas, lidando com elas, não é proibindo a sua utilização».O especialista participou num debate com Inês Marinho, fundadora da Associação Não Partilhes, e João Francisco Lima, fundador da MindMatch, moderado por Catarina Silva, que aconteceu no evento Leadership NEXT GEN, no dia 16 de abril.Da esquerda para a direita: Inês Marinho, João Francisco Lima, Tito de Morais e Catarina Silva.Proibir telemóveis não resolve o problemaO especialista critica diretamente a tendência de afastar os jovens das ferramentas digitais, seja através de proibições nas escolas ou de propostas legislativas. «Vejo com muita pena as escolas proibirem os telemóveis», afirmou.Para Tito de Morais, o caminho passa por um investimento sério na literacia digital e na cidadania online, envolvendo não só os jovens, mas também os pais, que muitas vezes «não nasceram com estas realidades» e precisam de apoio para educar.Uma posição que cruza diretamente com a visão de João Francisco Lima, que alerta para a necessidade de intencionalidade no uso digital. Para o fundador da MindMatch, a relação com o telemóvel não pode ser impulsiva nem automática, deve ser consciente.Como a proibição gera curiosidade, quanto mais restrito é o acesso, maior tende a ser a vontade de explorar, muitas vezes sem supervisão. Neste ponto, Inês Marinho acrescenta uma dimensão prática: proibir comportamentos não impede que aconteçam.Cyberbullying: um fenómeno permanente e invisívelUm dos temas mais marcantes foi o impacto do cyberbullying, que apresenta características mais agressivas do que o bullying tradicional. «Acontece 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano», explicou Tito de Morais, sublinhando que, ao contrário do bullying tradicional, «segue até casa» e não dá descanso às vítimas.A natureza digital amplifica o impacto. A ausência de contacto direto, o anonimato e a escala, que pode envolver centenas ou milhares de pessoas, tornam esta forma de violência mais intensa e difícil de travar.João Francisco Lima acrescentou que esta realidade é ainda mais complexa porque muitas vezes não é visível. As redes sociais, disse, criam uma ilusão de bem-estar constante. «Têm tendência a mostrar o lado oposto desta realidade.»Partilha de intimidade exige consciência e responsabilidadeA partilha de conteúdos íntimos é um tema que é caro à fundadora da Associação Não Partilhes. A jovem defende uma abordagem equilibrada: reconhecer o risco sem demonizar o comportamento.«Ser humano traça relações em partilhar a intimidade», explicou. Mas no digital, o problema é outro: «nunca sabemos onde é que ela pode chegar».A especialista desmonta também um mito persistente: o perigo não está apenas em desconhecidos. «É completamente o contrário do que se pensa, são pessoas próximas de nós», explicou, referindo parceiros, ex-parceiros ou conhecidos.«Confiar não é um crime»: combater a culpabilização das vítimasA especialista foi contundente ao rejeitar a ideia de responsabilizar quem partilha conteúdos íntimos. «Confiar em alguém não é um crime», afirmou, acrescentando que a responsabilidade está nos agressores.Mais do que isso, alerta para o papel coletivo na perpetuação do problema: «o agressor não é só quem partilha, é também quem vê e quem se cala». Esta lógica de silêncio contribui para ampliar o impacto na vida das vítimas.As consequências podem ser graves. Inês Marinho lembrou que há casos extremos em que pessoas acabaram mesmo por tirar a própria vida, sublinhando a necessidade de agir rapidamente, denunciar e recorrer a mecanismos de apoio.Redes sociais escondem sinais de sofrimentoA ligação entre redes sociais e saúde mental foi aprofundada por João Francisco Lima. O fundador da MindMatch alertou um dos principais indicadores, que pode ser precisamente o desaparecimento das redes sociais. Mudanças bruscas de comportamento ou isolamento digital de um colega podem e devem ser encaradas com atenção.Lima destacou ainda a gravidade do problema do suicídio entre jovens, sobretudo entre os 15 e os 25 anos. «Faz parte das três principais razões de morte», afirmou, considerando «assustador» que muitos jovens tomem essa decisão tão cedo.Para o jovem, é essencial criar espaços de diálogo genuíno. «Perguntar não para saber, mas por querer saber», sublinhou, defendendo uma escuta ativa e sem julgamento.Como recuperar o controlo sobre as redes sociais?Na reta final, os intervenientes deixaram recomendações práticas para uma relação mais equilibrada com o digital. Tito de Morais sugeriu começar por medir o tempo de utilização: «ir a definições e ver quanto tempo é que já gastei no telemóvel», estabelecendo metas progressivas.Também Inês Marinho reforçou a importância de encontrar alternativas fora do ecrã, lembrando que muitas atividades digitais podem ser replicadas no mundo real. Já João Francisco Lima destacou a importância da intenção. «É importante saber porque é que querem deixar de estar agarrados ao telemóvel».Tenha acesso à galeria de imagens do evento aqui.Todos os momentos da Leadership Next Gen estão disponíveis na Líder TV e no canal 560 da NOS.O conteúdo «O cyberbullying acontece 24 horas por dia, sete dias por semana», defende Tito de Morais aparece primeiro em Revista Líder.