O Bitcoin voltou a flertar com os US$ 80 mil, mas, pela terceira vez em poucos dias, não conseguiu transformar essa força em rompimento. A maior criptomoeda do mercado bateu diversas vezes na região entre US$ 79 mil e US$ 79,5 mil, chegou a renovar máximas de curto prazo, mas encontrou vendedores antes de superar de forma consistente o nível psicológico dos US$ 80 mil.A dificuldade não vem de um único fator. Para Rony Szuster, head de research do MB | Mercado Bitcoin, há três motivos principais segurando o avanço: a guerra no Oriente Médio, a própria resistência técnica e psicológica dos US$ 80 mil, e os juros ainda elevados nos Estados Unidos.“Realmente sempre os números redondos de 80 mil, 90 mil, 100 mil costumam ser resistências psicológicas do mercado. Os traders colocam ordens de venda e compra geralmente próximo desses patamares”, afirma.A analista técnica Ana de Mattos também vê a região como uma resistência importante. Segundo ela, o Bitcoin iniciou a semana com otimismo e chegou a tocar US$ 79.485, mas esse patamar vem sendo testado repetidamente. Se houver força compradora suficiente para romper a barreira, o próximo alvo estaria na região de liquidez dos US$ 85.500. Por outro lado, se não conseguir, os suportes aparecem em US$ 73.500 e US$ 69.150.Por que os US$ 80 mil viraram uma barreira?O primeiro ponto é técnico. Depois de uma recuperação forte desde o fundo de fevereiro, perto dos US$ 60 mil, o Bitcoin chegou a uma faixa onde muitos investidores aproveitam para realizar lucros. A Barron’s destacou que o BTC chegou perto de US$ 80 mil três vezes recentemente, com máximas na casa de US$ 79.475 e US$ 79.493, antes de recuar. Analistas apontaram justamente a realização de lucros após a forte alta como um dos motivos para a dificuldade de rompimento.Leia também: Bitcoin está no melhor momento desde janeiro, com mais ganhos no horizonteTambém há uma leitura de derivativos. Análises recentes apontam que a região dos US$ 80 mil concentra forte interesse no mercado de opções, o que pode aumentar a pressão vendedora conforme o preço se aproxima desse nível. Em termos simples, traders e formadores de mercado ajustam suas posições quando o Bitcoin chega perto de determinadas faixas, e isso pode criar uma espécie de “teto” temporário para o preço.Rony Szuster resume esse ponto dizendo que os US$ 80 mil são ao mesmo tempo um marco psicológico e técnico. “É sim um patamar técnico importante, um preço a ficar de olho. Se a gente conseguir fechamentos acima disso seria positivo, mas, até ser atingido, é um ponto de resistência”, afirmou.Ao mesmo tempo, o mercado não está exatamente fraco. O Bitcoin acumula recuperação relevante desde a mínima de fevereiro, os ETFs à vista nos Estados Unidos voltaram a registrar entradas, e empresas com tesouraria em BTC continuam comprando. Leia também: ETFs de Bitcoin completam 9 dias de entradas, a melhor sequência desde setembroHouve uma melhora no apetite por risco após o cessar-fogo entre EUA e Irã, ainda que sem um acordo definitivo, o que ajudou o Bitcoin a se aproximar de US$ 80 mil, enquanto fluxos para ETFs e compras corporativas deram suporte ao movimento.Esse suporte institucional aparece também nos dados mais recentes de fundos. Produtos de investimento em cripto captaram US$ 1,2 bilhão na semana passada, dos quais US$ 933 milhões foram para fundos de Bitcoin. Além disso, os ETFs de Bitcoin completaram uma sequência de nove dias de entradas, reforçando que há demanda estrutural mesmo com o preço travado abaixo dos US$ 80 mil.Guerra, petróleo e juros ainda pesamO segundo grande obstáculo é macroeconômico. Para Szuster, a guerra no Oriente Médio continua sendo o principal fator de incerteza. O temor está menos no conflito em si e mais nos efeitos econômicos que ele pode provocar, especialmente se houver restrições no Estreito de Ormuz, por onde passam petróleo, fertilizantes, alimentos e outros produtos relevantes para o comércio global.“Com menos petróleo passando, tudo de transporte vai ficar mais caro, os próprios alimentos vão ficar mais caros […] todo esse impacto de preço vai ser repassado ao consumidor”, diz o analista do MB.Esse risco é importante porque inflação mais alta costuma reduzir o espaço para cortes de juros nos EUA. E juros elevados, por sua vez, pesam sobre ativos de risco como ações de tecnologia e criptomoedas. Szuster lembra que o mercado ainda não viu o ciclo forte de cortes que vinha sendo esperado, e que os juros altos seguem favorecendo posições mais conservadoras em renda fixa.Essa leitura combina com o comportamento recente do mercado. O Bitcoin recuou nesta segunda após encostar em US$ 80 mil em meio à cautela com a reunião do FOMC que ocorre esta semana e as negociações entre EUA e Irã.Leia também: Bitcoin testa barreira decisiva e pode engatar rali rumo aos US$ 85 milA alta do petróleo pesou sobre o sentimento de risco e ajudou a derrubar o Bitcoin depois de uma aproximação da faixa de US$ 79,5 mil. Para o mercado, petróleo mais caro significa inflação mais persistente, Fed potencialmente mais duro e menos espaço para uma alta limpa em ativos especulativos.Há ainda fatores regulatórios e políticos no pano de fundo. Szuster cita a demora na aprovação de projetos como a Lei Clarity, voltado à estrutura regulatória do mercado cripto nos EUA, como um elemento adicional de cautela. Ele também menciona a queda de popularidade de Donald Trump, associado pelo mercado a uma agenda mais favorável ao setor, embora veja esse ponto como menos relevante do que guerra, juros e resistência técnica.Leia também: Antes de tiroteio, Trump disse ter “obrigação” de apoiar a indústria de criptomoedasRompimento adiadoApesar dos obstáculos, parte dos analistas ainda vê o movimento como uma pausa dentro de uma tendência positiva. O CoinDesk aponta que pelo menos um analista vê o atual recuo como temporário. Outras leituras apontam que a região entre US$ 78 mil e US$ 83 mil pode limitar o rali no curto prazo, mas que um rompimento sustentado poderia transformar antigas resistências em suporte e abrir caminho para uma nova pernada de alta.A visão estrutural também segue mais otimista em algumas casas. Analistas da Bernstein afirmaram que “os melhores dias das criptomoedas ainda estão por vir” e veem um ciclo de alta mais longo e com assimetria positiva, sustentado por adoção institucional, maior clareza regulatória e expansão de produtos financeiros ligados ao setor.No curto prazo, porém, a resposta continua nos US$ 80 mil. Se o Bitcoin conseguir fechar acima dessa faixa e sustentar o movimento, a resistência pode virar gatilho para uma busca pelos US$ 85 mil. Se falhar novamente, o mercado tende a continuar em lateralização, com investidores alternando entre otimismo com fluxos institucionais e cautela com guerra, petróleo, juros e regulação.Quer investir na maior criptomoeda do mundo? No MB, você começa em poucos cliques e de forma totalmente segura e transparente. Não adie uma carteira promissora e faça mais pelo seu dinheiro. 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