Além da guerra, El Niño se soma às ameaças contra as safras e inflação no Brasil

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Além do impacto do conflito no Oriente Médio nos preços dos combustíveis e fertilizantes, outra variável já está no radar dos economistas para projetar o custo de vida no país: o fenômeno climático El Niño. A combinação desses dois fatores tem levado instituições financeiras e consultorias a revisarem para cima suas projeções de inflação para 2026, desenhando um cenário de pressão sobre o agronegócio e, consequentemente, sobre a mesa dos brasileiros.O El Niño se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e altera o regime de chuvas e as temperaturas no Brasil. Segundo a Climatempo, os efeitos do El Niño devem começar a se manifestar já a partir de maio e se intensificar ao longo do ano. Segundo a Nottus, empresa de inteligência de dados e consultoria meteorológica para negócios, o auge das chuvas deve ocorrer em outubro.Leia também: Guerra no Oriente Médio eleva preço de fertilizantes e pressiona agro brasileiroA expectativa é de um evento com consequências similares às de 2023, provocando temporais severos no Sul e amplas e frequentes ondas de calor em grande parte do interior do país.“Possivelmente, o El Niño este ano terá um início acelerado, e a expectativa é de que seja, no mínimo, um evento climático com intensidade de moderada a forte”, afirma Vinicius Lucyrio, meteorologista da Climatempo. Ele alerta ainda que o começo do próximo período de chuvas no Brasil Central, Sudeste e Nordeste “deve ter um padrão muito irregular e insuficiente para repor a umidade do solo”, o que pode afetar diretamente a instalação de algumas culturas agrícolas.Saiba mais: Por que a guerra no Irã deixa a sua comida mais cara?Intensidade do El Niño X impactoPara entender a dimensão real desse risco, os especialistas da Nottus alertam que é preciso separar a intensidade técnica do fenômeno das consequências práticas em solo brasileiro. Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus, explica que a temperatura no Pacífico não dita, necessariamente, a gravidade dos desastres. Ele ressalta, por exemplo, que o El Niño de 2023/2024 foi tecnicamente mais fraco do que o registrado em 2015, mas produziu efeitos muito mais devastadores no país.Desirée Brandt, sócia-executiva e meteorologista da Nottus, reforça que é crucial fazer essa distinção entre a anomalia oceânica e a força dos impactos regionais. A principal explicação para desastres tão acentuados está nas alterações climáticas estruturais do planeta.Segundo Nascimento, as mudanças climáticas globais funcionam hoje como um grande “amplificador” de qualquer evento meteorológico. Nesse cenário, independentemente da categoria técnica do El Niño, o risco de eventos extremos torna-se a “cereja do bolo”, potencializando os danos.Leia também: Caso de calor extremo no Brasil em 2023-2024 ilustra riscos para segurança alimentarO impacto do clima no agronegócioNo campo, esse cenário desenha um mapa de riscos complexo. Na região Sul, o excesso de chuva projetado traz enormes desafios e eleva o risco de perdas para a cultura do arroz, criando uma dificuldade extrema para os produtores no controle da umidade das lavouras. O trigo é outro cultivo severamente ameaçado pelo excesso hídrico, que prejudica o desenvolvimento da planta.Leia também: Guerra no Oriente Médio eleva preço de fertilizantes e pressiona agro brasileiroAlém da água, a temperatura joga contra. Desyreé explica que a ausência do frio prolongado — característica marcante em anos de El Niño — acende o sinal vermelho para as chamadas culturas de inverno. O impacto é especialmente danoso para a fruticultura, que depende de uma quantidade específica de horas de frio para garantir a produtividade e a qualidade dos frutos, como o pêssego, que precisa desse choque de temperatura para ficar mais adocicado.No Norte e Nordeste, a irregularidade das chuvas traz forte apreensão para o desenvolvimento das safras de grãos na região do MATOPIBA (polo agrícola formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Esse impacto transborda as fronteiras do Brasil e atinge as culturas de outros países da América do Sul, comprometendo a produção agrícola regional e adicionando mais pressão à oferta global de alimentos.Diante desse quadro, os problemas logísticos tornam-se inevitáveis. Alexandre Nascimento adverte para danos estruturais e rodoviários no Sul causados pelas chuvas, enquanto Desirée Brandt alerta que no Sudeste e no Centro-Oeste há o risco de tempestades severas com ventanias, ameaçando as cadeias de distribuição.Segundo Natalie Victal, economista-chefe da SulAmerica Investimentos, e os economistas Rafael Yamano e Mariana Monteiro, esse quadro climático “poderia afetar negativamente as safras e pressionar os preços de alimentos in natura”.“Há aumento na probabilidade de formação de um fenômeno El Niño mais intenso no último trimestre. Esse fator adiciona risco altista à nossa projeção de inflação, em um contexto já marcado por elevada incerteza quanto aos desdobramentos da guerra e seus efeitos sobre a cadeia produtiva global”, escrevem em relatório. Isso fez com que a instituição elevasse a projeção de inflação em 2026 para 4,9% – bem acima da meta de 3%.Tensão no agro com conflito no Oriente MédioO cenário climático agrava uma situação já tensionada pela geopolítica. No campo dos custos de produção agrícola, a guerra no Oriente Médio e as tensões globais encarecem os insumos essenciais. Felippe Serigati, pesquisador da FGV, destaca que o conflito tem impactos diretos nos combustíveis e na distribuição. A reconstrução das infraestruturas destruídas de petróleo e gás leva tempo — “de 3 a 5 anos”, segundo ele —, o que significa que o choque de preços não recua do dia para a noite.Marcello Brito, diretor da FDC-AgroAmbiental, reforça o alerta sobre os fertilizantes: “A gente corre sim o risco de desabastecimento”, afirma, citando que países como a China já proibiram exportações de alguns fertilizantes para garantir o mercado interno, enquanto o fluxo de derivados de petróleo do Oriente Médio, a maior região produtora mundial, segue sob tensão.Leia também: Guerra no Oriente Médio pode elevar inflação no Brasil em 1 ponto percentual, diz IFIA XP Macro também destaca essa pressão conjunta sobre o produtor rural, observando que o diesel mais caro pesa diretamente nos custos com maquinário e frete, fatores que, alinhados ao clima, já sustentam uma revisão de alta para a inflação de alimentos.O Daycoval informa que o El Niño reforça o viés de alta para a projeção de inflação, atualmente em 4,2% ao final deste ano.A 4intelligence projeta alta de 4,7% para o IPCA, citando o El Niño no último quadrimestre do ano como um fator para o viés de alta.The post Além da guerra, El Niño se soma às ameaças contra as safras e inflação no Brasil appeared first on InfoMoney.