O cenário para os preços dos alimentos no Brasil segue pressionado, mas não por falta de produtos. Segundo Ingo Ploger, presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), a tendência de alta está diretamente ligada ao aumento dos custos de produção e não às exportações ou à escassez.De acordo com ele, parte dos produtos agropecuários exportados pelo Brasil, como a soja, vem registrando queda de preços no mercado internacional, embora alguns já comecem a reagir. Ainda assim, o setor enfrenta uma forte inflação de custos, o que acaba sendo repassado ao longo da cadeia. “A guerra e o preço dos combustíveis, entre outros, fizeram os custos de toda a cadeia aumentarem. Mas não haverá falta de alimentos”, destacou em entrevista à CNN, durante a Agrishow, em Ribeirão Preto (SP).Ingo também chamou atenção para fatores estruturais que afetam a cadeia produtiva, como o modelo just-in-time. Segundo ele, quando há falhas em algum ponto, o impacto se espalha rapidamente por todo o sistema. Apesar disso, a cadeia produtiva segue reagindo e investindo o necessário, embora enfrente dificuldades com capital de giro. Leia Mais Agroindústria brasileira fica estagnada em 2025 Preço dos alimentos em 2026: um ajuste inevitável ou nova pressão global? Financiamento extra dá fôlego a produtor na Agrishow, diz CEO da Baldan Falta de recursos e juros altosNesse contexto, a liquidez se tornou um dos principais desafios do setor. O acesso ao crédito mais restrito tem dificultado operações básicas e pressionado empresas, algumas das quais já não conseguem honrar suas dívidas e recorrem à recuperação judicial. “Esse é um mecanismo legítimo mas temos que admitir que há distorções em seu uso. Alguns recorrem sem precisar e isso reduz ainda mais o crédito ao agro e afeta a todos no longo prazo.”A política monetária também foi alvo de críticas. Ingo avalia que o Banco Central exagerou na condução dos juros. “Temos uma inflação de oferta, temos petróleo acima de R$ 100, que não se combate com juros”, afirmou.Além disso, questionou o nível atual da Selic diante do cenário fiscal. Embora reconheça que o governo tem perfil gastador, ele considera que isso não justifica juros tão elevados. “A gente vê que é possível. Aqui na Agrishow, bancos de montadoras e indústrias de máquinas oferecem juros de um dígito e provam que é preciso avaliar caso a caso.”A combinação de juros altos e custos elevados tem ampliado os desafios financeiros do setor. Para ele, é fundamental fortalecer as relações de crédito entre empresas, fornecedores e clientes, uma característica histórica do agronegócio brasileiro. “Essa sempre foi a balança do agro no Brasil e agora, mais do que nunca, é necessária”, afirmou, lembrando que durante a pandemia o setor conseguiu se manter resiliente sem deixar agentes para trás.Agrishow 2026Sobre a Agrishow o dirigente da Abag destacou que empresas de grandes equipamentos tendem a registrar queda no faturamento, enquanto fabricantes menores podem manter os níveis do ano anterior. Já companhias mais inovadoras vêm conseguindo crescer, embora esse desempenho não compense a retração geral do setor.Após um início mais fraco, a feira ganhou força com a melhora das condições climáticas e deve atingir cerca de 200 mil visitantes. “Todos os estandes do ano passado foram mantidos, com a adição de novos participantes”, lembrou.