Hoje, a longevidade deixou de ser um tema isoladamente demográfico ou clínico para se tornar em algo muito maior: tornou-se uma das grandes transformações estruturais dos nossos tempos – com implicações profundas na economia, nas organizações e na forma como concebemos todo o nosso ciclo de vida. Durante grande parte do século XX, a vida ativa seguia um percurso quase linear – educação, trabalho, construção da vida familiar, reforma. Hoje, esse modelo é substituído por um novo paradigma – mais flexível e adaptativo – que inclui aprendizagem contínua, múltiplas etapas na carreira, transições profissionais, mais e maiores desafios pessoais e uma integração prolongada naquele que é o conceito de vida ativa.O Centro de Longevidade da Universidade de Stanford, do qual sou orgulhosamente uma dos 20 embaixadores a nível mundial, ajuda-nos a perceber a dimensão desta mudança: se cerca de 50% das crianças que nascem hoje poderão viver até aos 100 anos, então o modelo tradicional de vida como o conhecemos, deixará de fazer sentido. Na verdade, está a nascer um novo mapa de vida; uma nova linha sob a qual desenharemos um novo percurso. A new map of life, onde ter 65 anos já não significa, necessariamente, o fim da história: significa, precisamente, a oportunidade de viver um dos melhores capítulos desta jornada – uma nova etapa de atividade, reinvenção e impacto. Mas enquanto a realidade demográfica muda rapidamente, as organizações tardam em acompanhar esta profunda transformação. Paradoxalmente, a um desejo de acolher a diversidade etária e reconhecer a sua vantagem competitiva, persistem obstáculos à mudança. Na mesma equação em que estudos mostram que equipas etariamente diversificadas e motivadas podem gerar mais 17% de produtividade, reduzir em 41% o absentismo, diminuir a rotatividade em 59% e aumentar a rentabilidade em 21%, fenómenos como o ageism – de preconceito associado à idade – persistem. E é isso que precisamos de combater. Quando diferentes gerações trabalham em conjunto, combinam-se experiência, visão estratégica e conhecimento acumulado com novas competências, novas linguagens e novas formas de pensar. Num mundo em constante mudança, essa diversidade pode tornar-se um dos maiores ativos das organizações. Ao mesmo tempo, esta transformação tem também implicações claras para o mercado e para as marcas. Hoje, 59% do consumo doméstico em Portugal é realizado por pessoas com mais de 50 anos. No entanto, a comunicação (incluindo interna, nas empresas) e a publicidade continuam muitas vezes desalinhadas com esta realidade, recorrendo a representações estereotipadas ou redutoras. Hoje, os 50+ são consumidores ativos, autónomos e informados – investem em saúde, tecnologia, bem-estar e qualidade de vida e representam uma geração que quer manter controlo sobre as suas escolhas e sobre o seu percurso de vida. Ignorar este facto não é apenas um erro de comunicação, é um erro estratégico. E o grande desafio da década é precisamente passar da reflexão à ação, respondendo à questão: será esta uma responsabilidade individual ou coletiva? Ambas! Porque se do lado individual, se exige uma nova forma de encarar o percurso de vida e o desenvolvimento pessoal e profissional – sobretudo num mundo onde as carreiras assumem ainda um papel primordial e extenso na vida de todos nós, obrigando a que a aprendizagem contínua deixe de ser uma opção e passe a ser uma condição essencial – na dimensão coletiva, esta responsabilidade tem de ser partilhada. Está na hora de empresas, instituições, marcas, entidades e políticas públicas abraçarem o seu papel absolutamente fundamental na criação de ambientes mais inclusivos, flexíveis e preparados para esta nova realidade; cientes de que esta transformação é, sem dúvida, um comboio que já iniciou a sua viagem e que terá paragens impactantes no futuro económico, social e geracional. Porque, no final do dia, a longevidade nunca será apenas um desafio demográfico. É uma oportunidade para repensar a forma como trabalhamos, como aprendemos e como colaboramos e coexistimos ao longo da vida. Se o século XX foi o século em que conquistámos mais anos de vida, o século XXI será o século em que teremos de aprender o que fazer com esses anos. Porque as pessoas vivem mais tempo e querem uma vida plena – não apenas uma mais vida longa! Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo ‘The New Map Of Life’: uma nova era para a longevidade aparece primeiro em Revista Líder.