«O ChatGPT não é um psicólogo»: a fronteira entre a terapia humana e a inteligência artificial

Wait 5 sec.

O tema da presença online e das redes sociais atravessou todo o evento, assumindo-se como pano de fundo constante das reflexões sobre saúde mental, tecnologia e identidade. A sessão ‘O ChatGPT não é um psicólogo”, na Leadership Next Gen, reuniu Francisco Soares, cofundador da Ivory Therapy, e João Nuno Faria, psicólogo coordenador do Núcleo de Intervenção no Comportamento Online do PIN, num debate que procurou clarificar os limites entre inteligência artificial e prática clínica.A terapia em formato IKEAJoão Nuno Faria não demorou a introduzir uma imagem que marcou a discussão. A terapia feita por modelos de linguagem como o ChatGPT, disse, aproxima-se de um modelo padronizado, replicável, quase industrial. «Uma terapia ChatGPT é uma terapia one size fits all», afirmou.A metáfora escolhida foi deliberada: o IKEA. Funcional, acessível, eficiente, mas igual para todos. Monta-se uma vez, funciona. Mas não se ajusta verdadeiramente a quem o usa.A psicoterapia, defendeu, opera noutro plano: o da personalização profunda, da leitura do contexto emocional, da relação terapêutica construída no tempo. Algo que não cabe em respostas estatísticas.Francisco Soares trouxe o debate para um território mais íntimo. A Ivory Therapy, explicou, nasce de um período de fragilidade pessoal ligado à saúde mental. Afastando-se da abstração, a sua convicção parte de uma uma experiência vivida. A partir daí, o projeto evoluiu para uma tentativa de facilitar o acesso ao primeiro contacto com ajuda psicológica, cruzando terapia com objetos físicos e mensagens.Mas rapidamente o discurso abriu para uma crítica mais ampla ao ambiente digital contemporâneo. «Comparison is the killer of joy», lembrou, sintetizando o impacto da exposição constante às vidas idealizadas nas redes sociais.Não se trata apenas de tecnologia, mas de perceção: a forma como a comparação permanente redefine o que cada um considera normal, aceitável ou insuficiente na sua própria vida.Redes sociais: causa, consequência ou reflexo?Foi neste ponto que o debate ganhou densidade clínica. João Nuno Faria recusou uma leitura simplista da relação entre redes sociais e saúde mental. Em vez de assumir causalidade direta, introduziu uma hipótese menos confortável: a de que o uso intensivo pode ser também sintoma.«As pessoas com mais problemas de saúde mental são as que passam mais tempo nas redes sociais, para se proteger do que estão a sentir», afirmou.A ideia desloca o eixo do problema. As redes sociais deixam de ser apenas fator de risco e passam também a possível mecanismo de regulação emocional, ainda que imperfeito, instável e potencialmente amplificador do sofrimento.Para tornar a ideia mais clara, surgiu uma analogia que cortou o ruído da discussão. O aumento simultâneo de consumo de gelados e de casos de cancro da pele. A leitura superficial sugere ligação. A realidade, não. O verdadeiro fator é o sol — não o gelado. Mas a coincidência temporal cria uma ilusão de causalidade.O mesmo princípio, defendeu-se, pode aplicar-se ao debate sobre redes sociais e saúde mental. Correlação não é explicação.2015 e a nova arquitetura da comparaçãoAinda assim, os dados apresentados levantam uma questão difícil de ignorar. A partir de 2015, ano da expansão global do Instagram como plataforma centrada na imagem e no lifestyle, observa-se um aumento significativo de indicadores de distress psicológico entre jovens adultos, sobretudo entre os 18 e os 34 anos.Mais do que coincidência tecnológica, o que muda nesse período é a escala da comparação. Deixamos de nos comparar com o círculo próximo — a turma, o bairro, o grupo de amigos — e passamos a comparar-nos com um fluxo global de vidas editadas, filtradas e otimizadas.Tem consequências profundas no campo emocional. A perceção de insuficiência torna-se contínua, silenciosa, normalizada.No centro de toda a discussão permanece uma tensão estrutural sobre o que acontece quando a procura de ajuda emocional começa a ser mediada por sistemas que respondem bem, mas não compreendem.A inteligência artificial promete acessibilidade, rapidez e ausência de julgamento. A psicoterapia humana insiste na relação, contexto e presença.Entre o «móvel IKEA» e o «trabalho de carpintaria», entre o algoritmo e o terapeuta, o que está em disputa é o tipo de escuta que a sociedade está disposta a considerar suficiente. E, sobretudo, quem — ou o quê — pode verdadeiramente ocupar esse lugar.O conteúdo «O ChatGPT não é um psicólogo»: a fronteira entre a terapia humana e a inteligência artificial aparece primeiro em Revista Líder.