Energia é central para soberania europeia: integração pode poupar até 43 mil milhões por ano

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Um novo estudo publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos defende que a resposta europeia passa por aprofundar a integração dos mercados energéticos, sobretudo na eletricidade e no gás natural, para reduzir custos, reforçar a segurança de abastecimento e acelerar a transição para fontes renováveis.As autoras, Samantha Gross, especialista em assuntos energéticos e ambientais, e Constanze Stelzenmüller, especialista em política e estratégia externa e de segurança alemã, europeia e transatlântica, garantem que uma governação e coordenação mais coesa são essenciais. Energia no centro da soberania europeiaDurante anos, a discussão sobre segurança energética na União Europeia esteve centrada na dependência externa. O objetivo era garantir fornecedores fiáveis para um continente ainda dependente de combustíveis importados.Hoje, esse quadro tornou-se mais instável. A Rússia instrumentalizou o gás após a invasão da Ucrânia, o Catar e os Estados Unidos são identificados como fornecedores com risco político crescente, e a turbulência no Médio Oriente agravou a incerteza no aprovisionamento.Neste cenário, a integração energética deixou de ser apenas uma política económica. Passou a ser também uma estratégia de segurança, soberania e competitividade.Mercado único da energia ainda está incompletoO estudo recorda que Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu e ex-primeiro-ministro italiano, colocou no relatório de 2024 sobre competitividade europeia, a energia no topo dos setores onde o mercado único precisa de aprofundamento. Também Ursula von der Leyen identificou o setor energético como uma das áreas em que o mercado único europeu permanece incompleto.Na prática, integrar energia significa ligar melhor infraestruturas, eliminar barreiras regulatórias e permitir que eletricidade e gás circulem de forma mais eficiente entre países.A Comissão Europeia estima que a integração atual do mercado elétrico já poupa 34 mil milhões de euros por ano aos consumidores. Uma integração mais profunda poderia elevar essa poupança para 40 a 43 mil milhões de euros anuais até 2030.Eletricidade: renovar redes para usar melhor as renováveisA eletricidade é apontada como o eixo central da descarbonização. Com o aumento esperado da procura e o crescimento das energias renováveis, a Europa terá de reforçar interligações para transportar energia dos locais onde é produzida de forma mais barata para os grandes centros de consumo.O problema é que vários países ainda não cumprem a meta europeia de capacidade de interligação. França, Grécia, Itália, Países Baixos, Polónia e Espanha continuam abaixo do objetivo definido para 2020, que previa capacidade para importar ou exportar 10% da procura elétrica.A Península Ibérica é um dos casos mais relevantes. Portugal supera a meta, mas depende de Espanha para se ligar ao resto da Europa. Espanha, por sua vez, só consegue importar ou exportar 3,6% do seu consumo elétrico, muito abaixo do objetivo europeu. O apagão ibérico de abril de 2025 não foi causado pela fraca ligação a França, mas o estudo defende que interligações mais fortes poderiam tornar estes episódios menos prováveis e mais fáceis de gerir.Gás natural: menos Rússia, mais compras conjuntasNo gás natural, a integração europeia já vinha a avançar há duas décadas, mas ganhou urgência depois da invasão da Ucrânia. A quota de gás importado da Rússia caiu de 45% em 2021 para 19% em 2024, e a UE quer eliminar totalmente o gás russo, por gasoduto e GNL, até ao final de 2027.O plano REPowerEU estabeleceu ainda uma redução de 15% da procura de gás face à média de 2017-2021. No início de 2025, essa redução já era de 17%.Uma das ferramentas destacadas é a compra conjunta de gás. A iniciativa AggregateEU, lançada em 2023, agregou cerca de 100 mil milhões de metros cúbicos de oferta e procura até março de 2025, valor equivalente a quase um terço do gás consumido na UE em 2024.Autoestradas da Energia: os projetos prioritáriosA Comissão Europeia identificou oito prioridades no programa Autoestradas da Energia, pensado para superar bloqueios estruturais. Entre elas estão o reforço das ligações elétricas nos países bálticos, a melhoria das interligações entre a Península Ibérica e França, a ligação de Chipre à Europa continental, a transformação do Mar do Norte num centro de interligação offshore e a criação de corredores de hidrogénio, incluindo um eixo entre Portugal e Alemanha.Os países bálticos são um exemplo simbólico: Estónia, Letónia e Lituânia sincronizaram-se com a rede elétrica europeia em fevereiro de 2025, cortando a dependência histórica da Rússia e da Bielorrússia.Já o Mar do Norte surge como um dos grandes motores da nova energia europeia, devido ao potencial da eólica offshore. Nos corredores de hidrogénio, a UE estima que serão necessários 240 mil milhões de euros em redes até 2040.O grande obstáculo é saber quem paga a integraçãoApesar dos benefícios, a integração energética exige investimentos gigantescos. Só as redes elétricas europeias precisam de 1,2 biliões de euros até 2040, segundo estimativas da Comissão Europeia.A proposta orçamental da UE para 2028-2034 aumenta o financiamento para ligações energéticas de 5,84 mil milhões para 29,9 mil milhões de euros, mas grande parte dos custos terá de ser suportada pelos utilizadores das redes.É aqui que surge o maior desafio político: a integração pode baixar custos no conjunto da Europa, mas nem todos os países, empresas ou consumidores ganham ao mesmo tempo. Sem mecanismos de compensação e justiça na distribuição dos custos, o projeto pode enfrentar resistência social e política.A energia como teste à unidade europeiaA integração energética europeia é apresentada como uma resposta à nova realidade geopolítica: menos dependência externa, mais renováveis, menores custos e maior resiliência. Mas o estudo alerta que este não pode ser tratado como mais um projeto tecnocrático.Para funcionar, terá de combinar investimento, governação europeia forte e proteção dos consumidores mais expostos aos custos da transição. A energia passou a ser um teste à capacidade da Europa de transformar o mercado único num instrumento de soberania.O conteúdo Energia é central para soberania europeia: integração pode poupar até 43 mil milhões por ano aparece primeiro em Revista Líder.