Por trás da alta das bolsas globais, há chips, IA e pouca participação do Brasil

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A recente máxima histórica do índice S&P 500 esconde uma realidade que tem tirado o sono dos gestores brasileiros: a alta global está concentrada num punhado de ações ligadas a semicondutores e inteligência artificial. Apenas 44 das 500 empresas do índice americano estão renovando recordes individuais. O resto, para todos os efeitos, ficou para trás.O fenômeno se repete com força ainda maior no exterior. Na Coreia do Sul, duas empresas — Samsung Electronics e SK Hynix — respondem sozinhas por cerca de metade do índice de referência local. No Brasil, o trabalho de sustentar a bolsa ficou concentrado em três nomes: Petrobras (PETR4), PRIO (PRIO3) e Vale (VALE3). Em todos esses casos, são poucas empresas movendo muito dinheiro.Para discutir o que esse desequilíbrio significa para quem investe, o programa Aftermarket, comandado por Lucas Collazo, reuniu Andrew Rider, da WHG; Christian Keleti, da Alpha Key; e Felipe Guerra, da Legacy Capital.A conversa, transmitida direto de Omaha, nos Estados Unidos, durante a cobertura do encontro anual de acionistas da Berkshire Hathaway, expôs as oportunidades e os riscos embutidos nessa concentração extrema.Veja mais: Polo chama Hapvida (HAPV3) de “avião que caiu” e monitora sinais para sair da apostaE também: Quando ninguém queria, eles compraram — e acertaram em cheioO efeito mais visível dessa onda aparece no ETF iShares de Mercados Emergentes (EEM), conhecido no Brasil pela sigla IEM. Taiwan e Coreia do Sul, somados, pesam 45% do fundo. Não são Brasil nem China que vêm levantando o EEM nas últimas semanas, mas a disparada dos semicondutores asiáticos — movimento que descolou completamente esses fundos do desempenho do mercado brasileiro no mês.Gestor aposta em garantias inusitadas e vê 2026 como ano raro de oportunidadesGerdau (GGBR4) tem lucro de R$ 1 bilhão no 1º trimestre, alta anual de 34%Legacy mantém aposta em chips, mas reconhece riscoGuerra avalia que essa configuração, na superfície, parece favorecer quem faz seleção de ações, mas exige cuidado. A Legacy carrega há tempos posições em memória, semicondutores, centros de dados e energia — temas que considera consensuais e ainda promissores. Reduziu a exposição durante o choque da guerra para diminuir a oscilação da carteira e voltou a montar posição depois. “Acho que ainda tem muito ganho para ser gerado, mas também tem muita oscilação”, afirmou.A maior preocupação de Andrew Rider, no entanto, não é nem a guerra nem o preço da gasolina, mas a inflação que a própria corrida da inteligência artificial está provocando. “No curto prazo, está sendo super inflacionário”, disse o gestor da WHG. O preço da memória triplicou, cabos para centros de dados dobraram e eletrônicos de consumo passaram a repassar custos. O temor é que esse choque se some ao do petróleo e ganhe contornos persistentes.BrasilNo Brasil, o problema é outro. Não são celulares e computadores que preocupam, mas combustível e fertilizantes. Cerca de 30% dos fertilizantes consumidos no mundo passam pelo Estreito de Ormuz, ponto sensível no Golfo Pérsico. A safra atual e a chamada safrinha estão garantidas porque o adubo foi importado antes do conflito. Mas, se o impasse se estender, o preço dos alimentos pode pressionar a inflação justamente em ano pré-eleitoral.A pesquisa Focus já capturou parte dessa deterioração: a projeção para o IPCA do próximo ano subiu — algo que não aconteceu em outros países. Guerra atribui o desconforto a uma soma de credibilidade arranhada com o problema continental do transporte de combustível no Brasil. Mesmo assim, ele defende que o Banco Central, hoje sob comando de Gabriel Galípolo, está fazendo o trabalho certo: deve manter o ritmo de cortes de 0,25 ponto percentual e seguir com cautela.Leia tambémBC sem saída? Gestores veem corte menor de juros após choque globalAlta do petróleo e nova pressão inflacionária reduzem espaço para queda mais agressiva da Selic, avaliam gestoresBanco Central com a corda no pescoço“Não vai resolver ele subir juros ou deixar o juro parado em 14,75%, não vai chegar mais fertilizante nem vai fazer o tráfego em Ormuz voltar”, argumentou o gestor da Legacy. A avaliação é que o choque é temporário e a melhor estratégia é ganhar tempo — mais 45 dias — para entender o tamanho real da pancada antes de mexer no plano de voo.Há ainda um ponto curioso no quadro brasileiro. Embora alguns economistas estejam elevando suas projeções, os juros longos da curva nacional a partir de 2030 estão iguais ou menores que os níveis pré-guerra. O câmbio também segue valorizando. Para Guerra, isso indica que o quadro está apenas “desorganizado”, não desancorado como no fim de 2024, quando o Tesouro tinha dificuldades para fazer leilão. O Banco Central, segundo o gestor, está em modo automático — e fará bem em assim permanecer enquanto a poeira não baixa.The post Por trás da alta das bolsas globais, há chips, IA e pouca participação do Brasil appeared first on InfoMoney.