Análise: Trump minimiza caso de militar que lucrou com queda de Maduro

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Pela primeira vez, estamos vendo alguma responsabilização legal por uma série de operações suspeitas em mercados de previsão, realizadas pouco antes de grandes decisões da administração Trump.O Departamento de Justiça indiciou um soldado das forças especiais dos EUA que, supostamente, usou informações sigilosas para lucrar US$ 400 mil na Polymarket, um mercado de previsões amplamente conhecido, com a operação de janeiro dos EUA para destituir o ditador venezuelano Nicolás Maduro.As acusações no indiciamento parecem confirmar preocupações comuns sobre o potencial de funcionários do governo se envolverem em algo que se aproxima de insider trading, negociação de ativos utilizando informações privilegiadas que ainda não são públicas.Mas o presidente Donald Trump, que frequentemente minimiza irregularidades cometidas por aliados e já perdoou vários fraudadores de alto perfil, não parece estar muito incomodado com toda a situação.Quando Trump foi questionado na quinta-feira (23) sobre o indiciamento do Sargento-Mestre Gannon Ken Van Dyke, ele perguntou se Van Dyke havia apostado a favor ou contra a queda de Maduro.Ao ser informado de que o soldado havia previsto que Maduro seria deposto, Trump comparou o caso ao do jogador de beisebol Pete Rose, que apostava na vitória do próprio time.Rose foi banido da Major League Baseball em 1989, após uma investigação descobrir que ele apostava em jogos enquanto era técnico do Cincinnati Reds. Os defensores de Rose argumentam que apostar na vitória do próprio time tornava suas infrações menos graves. Leia Mais Trump diz que "muitos cubanos" morreram protegendo Maduro em ação dos EUA Análise: Trump parece ver Venezuela como oportunidade de investimento Trump sugere ataques contra cartéis da Venezuela por terra “muito em breve” “Isso é como o Pete Rose apostando no seu próprio time”, disse Trump, acrescentando: “Agora, se ele tivesse apostado contra o seu team, aí não seria bom. Mas ele apostou no próprio time”.“Vou dar uma olhada nisso”, concluiu o presidente americano.Trump foi então questionado sobre uma série de apostas vencedoras suspeitamente bem cronometradas sobre a guerra do Irã. Em um caso, reportou Marshall Cohen, da CNN, no mês passado, o trader venceu 93% de suas apostasm uma taxa de sucesso extremamente improvável, e lucrou quase US$ 1 milhão.Nick Vaiman, CEO da Bubblemaps, a empresa de análise que descobriu as negociações, chamou o caso de “um forte indicativo de atividade de informação privilegiada”.Quando perguntado se estava preocupado, Trump falou de forma geral, dizendo que não era muito fã de mercados de previsão. Ele afirmou que não estava “feliz com essas coisas”.Mas também acrescentou: “É o que é.”Estava longe de ser um alerta contundente contra esse tipo de atividade. De fato, a comparação com Pete Rose levou alguns a se perguntarem se Trump poderia perdoar o soldado, considerando sua defesa pública de Rose.Pelo menos dois aliados influentes de Trump já declararam que ele deveria perdoar o soldado.Mas a comparação com Rose não é apropriada.Embora seja verdade que o soldado supostamente apostou que Maduro seria destituído, isso não foi tudo em que ele apostou. E as negociações foram lucrativas porque o soldado tinha conhecimento da operação sigilosa que realmente tentaria destituir Maduro, enquanto os demais apostadores não tinham.Isso permitiu que o soldado ganhasse cerca de 12 vezes os US$ 34 mil que ele havia apostado, de acordo com o indiciamento.A comparação faria mais sentido se a operação para destituir Maduro fosse um evento previamente planejado, do qual todos soubessem e pudessem apostar se teria sucesso ou fracassaria. Mas não era; era confidencial.O indiciamento alega que Van Dyke “apropriou-se indevidamente de informações classificadas e não públicas do governo dos EUA sobre uma operação militar americana para capturar Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores para obter mais de US$ 400 mil em lucros ilegais.”Além disso, Van Dyke não é acusado apenas de apostar que Maduro estaria fora do poder até o final de janeiro. Ele também teria apostado que as forças americanas estariam na Venezuela até o fim daquele mês e que Trump invocaria poderes de guerra contra a Venezuela.Portanto, claramente não se tratava apenas de apostar a favor do próprio time.A resposta relativamente contida de Trump também é interessante, considerando o envolvimento de seu filho na indústria e as alegações democratas de que esse problema poderia se estender a níveis mais altos da administração.Donald Trump Jr. entrou para o conselho consultivo da Polymarket no ano passado, e seu fundo de capital de risco investiu uma quantia não divulgada na empresa. Ele também atua como conselheiro de outra plataforma de mercados de previsão, a Kalshi. (Observação: a CNN tem uma parceria com a Kalshi, que fornece dados para a emissora. Funcionários editoriais da CNN não têm permissão para apostar em mercados de previsão ou de eventos.)Trump Jr. afirmou, por meio de um porta-voz, que não realiza negociações em mercados de previsão e não interagiu com o governo federal em nome de nenhuma das duas empresas.O presidente Trump sinalizou na quinta-feira que não dava muita importância à crescente prática de apostas, mas sua família tem envolvimento significativo nesse setor. A atual polêmica, portanto, pareceria ser um problema relevante para a indústria.Legisladores democratas, como o senador Chris Murphy, de Connecticut, levantaram a possibilidade de que membros da administração Trump pudessem enriquecer usando informações privilegiadas. Duas semanas atrás, Cohen, da CNN, relatou que a Casa Branca havia alertado funcionários para não se envolverem em insider trading em mercados de previsão e outras plataformas.Não há evidências concretas de irregularidades por parte de alguém além do soldado. Mas se alguém em posição mais elevada acabasse envolvido nesse problema, não seria difícil imaginar Trump usando a defesa de Pete Rose para minimizar a situação.Equipe infiltrada, réplica de casa: Detalhes da ação dos EUA contra Maduro