A NASA está desenvolvendo uma missão para testar como materiais queimam na superfície lunar, enfrentando um dos principais desafios de segurança para futuras expedições tripuladas: o risco de incêndio em ambiente de baixa gravidade. Pesquisadores do Centro de Pesquisa Glenn e do Centro Espacial Johnson da NASA, junto com a Case Western Reserve University, detalharam o projeto em um estudo que revela como as chamas podem se comportar de forma drasticamente diferente na Lua comparado à Terra.No ambiente terrestre, a gravidade faz com que gases quentes se elevem naturalmente, criando um fluxo que puxa oxigênio fresco para a base da chama. Em alguns casos, esse processo pode gerar o fenômeno “blowoff”, que efetivamente extingue o fogo em materiais marginalmente inflamáveis. Na Lua, esse mesmo fluxo existe, mas é muito mais lento, permitindo que o oxigênio continue sendo fornecido à chama sem criar movimento de vapor rápido o suficiente para causar extinção.Materiais que não queimam na Terra podem arder na LuaA consequência direta dessa diferença física é que materiais que podem não ser verdadeiramente inflamáveis na Terra poderiam queimar por períodos muito longos na Lua. Para os futuros exploradores lunares, isso representa um risco significativo, especialmente considerando o prazo para estabelecer uma presença humana permanente na superfície lunar.Por décadas, a NASA tem usado o teste NASA-STD-6001B para avaliar a inflamabilidade de materiais para voo. O procedimento consiste em aplicar uma chama de seis polegadas na base de um material montado verticalmente – se o material queimar mais de seis polegadas para cima ou gotejar detritos em chamas, ele reprova no teste. Porém, há uma limitação crítica: o teste é feito na Terra.Astronauta “Buzz” Aldrin na Lua durante a Apollo 11 – Imagem: NASANo ambiente terrestre, existe ar em movimento criando correntes convectivas e orientações claras de “para cima” e “para baixo”. Em ambientes como a Estação Espacial Internacional, essas orientações não existem. As chamas não apontam “para cima” em microgravidade – elas formam esferas de fogo que se espalham lentamente para fora e são quase inteiramente alimentadas pelos sistemas de ventilação da estação.De acordo com um artigo do Universe Today, implesmente desligar o sistema de ventilação não resolveria o problema. A falta de movimento do ar pode retardar um incêndio, mas faria com que alguns materiais apenas fumegassem, aguardando os ventiladores voltarem a funcionar para reacenderem.Experimentos anteriores no espaçoPara entender melhor a física das chamas no espaço, pesquisadores chegaram a acender 1.500 pequenas chamas na própria ISS. Mas a NASA prefere evitar incêndios grandes o suficiente para causar danos materiais por razões óbvias – isso exporia toda a estação espacial habitável a chamas abertas.A agência recorreu então ao teste Spacecraft Fire Safety (Saffire), conduzido dentro de cápsulas de carga Cygnus não tripuladas após serem desacopladas da ISS e antes de caírem na atmosfera terrestre. Durante esses testes, pesquisadores incendiaram grandes folhas de algodão/fibra de vidro, tecido e acrílico para observar como queimavam em microgravidade, descobrindo física estranha, com chamas às vezes se espalhando na direção oposta ao fluxo de ar e queimando mais quente em materiais mais finos.Os dados do Saffire foram suficientes para apontar as discrepâncias entre o padrão NASA e as realidades do fogo no espaço, levando ao próximo passo: o experimento Flammability of Materials on the Moon (FM2). A menor gravidade na Lua é na verdade um local ainda mais interessante para estudar dinâmicas de chama.O FM2 será lançado em uma missão Commercial Lunar Payload Service (CLPS) para a superfície lunar. Lá, uma câmara autossuficiente queimará quatro amostras de combustível sólido em gravidade lunar de longa duração, impossível de recriar em qualquer outro lugar até agora. A câmara será equipada com câmeras, radiômetros e sensores de oxigênio para monitorar a chama e sua atmosfera em tempo real.O experimento oferecerá a primeira ponte entre o comportamento teórico da chama em gravidade parcial e o comportamento observado em 1G e gravidade zero de estudos anteriores. Crucialmente, fornecerá minutos de dados comparado aos segundos fornecidos por testes de queda e voos parabólicos.Imagem de uma chama esférica em um experimento a bordo da ISS. – Crédito: Science@NASA / Goddard Space Flight CenterDados inéditos do ambiente lunarSe a NASA atualizará seu padrão ainda está para ser visto – lançar uma cápsula autossuficiente para testes de chama na Lua parece ser proibitivo em termos de custo. Mas não há substituto para dados reais do ambiente real, e o FM2 fornecerá, pela primeira vez, alguns dados sobre comportamento de chama de nosso próximo grande posto avançado no sistema solar.O post NASA planeja testar comportamento do fogo na Lua para segurança de futuras missões tripuladas apareceu primeiro em Olhar Digital.