Às 22h55 de 24 de Abril de 1974, a rádio portuguesa transmitiu E Depois do Adeus, interpretada por Paulo de Carvalho. Para a maioria dos ouvintes, era apenas uma canção recente, saída da participação portuguesa na Eurovisão. Uma balada romântica, carregada de nostalgia e separação. Mas, para um grupo específico de militares, era mais do que notas melódicos e versos compostos. Foi o código que deu início, precisamente, ao adeus do regime.O Movimento das Forças Armadas (MFA) tinha planeado o derrube do governo de Marcelo Caetano em segredo absoluto. Precisava de um sistema de comunicação discreto, impossível de levantar suspeitas. A rádio era o meio perfeito e uma canção popular era o disfarce ideal.Quando E Depois do Adeus tocou nos Emissores Associados de Lisboa, os oficiais envolvidos souberam que a operação estava em marcha e que não havia marcha atrás.A segunda senha: ‘Grândola, Vila Morena’Horas depois, já na madrugada de 25 de Abril, o país voltaria a ouvir outra canção. Desta vez, tudo mudou. À 00h20, a Rádio Renascença transmitiu Grândola, Vila Morena, de José Afonso, eterno Zeca Afonso para as da época e vindouras gerações.Ao contrário da primeira senha, esta não era neutra no imaginário português. Zeca Afonso já tinha sido proibido, vigiado e censurado. A sua música circulava muitas vezes fora dos circuitos oficiais e era temerária para os que se encontravam a gerir o país. Mas mesmo assim, esta canção tinha passado despercebida ao sistema de censura como música de intervenção direta.O verso «o povo é quem mais ordena» era um enunciado político q quando a canção começou a tocar, o MFA confirmou o avanço da operação militar. As unidades começaram a ocupar pontos estratégicos em Lisboa e noutras cidades. A revolução tinha começado oficialmente. A rádio como palco da quedaAo longo das primeiras horas do golpe, a rádio tornou-se o centro nervoso do país. Através das emissões do Rádio Clube Português, os portugueses começaram a ouvir comunicados do MFA, lidos em direto, explicando que o movimento militar tinha como objetivo pôr fim ao regime do Estado Novo.Não havia televisão em direto como hoje, nem redes sociais imediatas. A rádio era o único fio imediato entre o que estava a acontecer e o que as pessoas pensavam que não estava. A escolha das duas músicas não foi casual. O plano do MFA exigia sinais progressivos e discretos. A primeira canção servia como aviso inicial. A segunda confirmava o início da operação militar.Havia ainda uma dimensão simbólica que se tornaria evidente depois. E Depois do Adeus fala de separação, de despedida inevitável. Grândola, Vila Morena fala de comunidade, igualdade e voz coletiva. Uma fecha um ciclo. A outra abre outro. Entre as duas, cabia a transição de um país inteiro.José Afonso, canção proibida; Paulo de Carvalho, a canção inesperadaJosé Afonso foi muito mais que um cantor e afirmou-se como uma das figuras centrais da música de intervenção portuguesa. As suas canções eram frequentemente associadas a movimentos estudantis e oposicionistas e já algumas tinham sido proibidas pela censura do Estado Novo, outras circulavam em gravações clandestinas.Grândola, Vila Morena tinha sido composta em 1964 e inspirada numa experiência real em Grândola, onde José Afonso se impressionou com a organização comunitária local. A música foi gravada em 1971 e incluída no álbum Cantigas do Maio. O regime não a considerava imediatamente subversiva, o que acabou por ser decisivo para a sua escolha como senha.Já E Depois do Adeus, interpretada por Paulo de Carvalho, vinha de um universo completamente diferente. Era uma canção de festival, escrita para representar Portugal na Eurovisão de 1974. Falava de despedida amorosa, com uma estética típica das baladas europeias da época. A sua neutralidade política era precisamente o que a tornava útil para o MFA. Ninguém suspeitaria que uma canção da Eurovisão pudesse ser o primeiro sinal de uma operação militar.O país que ainda não sabiaO mais surpreendente do 25 de Abril é toda a sua dimensão pró pacífica, feita com cravos que duram até hoje na lapela. Não houve discursos inflamados antes do movimento e exíguas foram as proclamações públicas ou anúncios oficiais. O repto foi a rádio e duas canções. A palavra que era controlada pela censura, deu lugar à música como linguagem alternativa. Um disfarce e, por fim, um gatilho.Enquanto Grândola, Vila Morena tocava pela madrugada dentro, Lisboa continuava a parecer uma cidade normal. Algumas pessoas dormiam. Outras trabalhavam. Outras ainda não sabiam que, dentro de horas, veriam militares nas ruas, tanques em movimento e o colapso de um regime com quase meio século. A história raramente avisa quando está a começar. E, nesse caso, decidiu começar em forma de canção.No dia seguinte, Portugal acordaria para imagens que ficariam na memória coletiva: soldados com cravos nas espingardas, multidões nas ruas, e o início do 25 de Abril que os portugueses continuam a valorizar como nenhum outro dia.Duas músicas. Uma rádio. E um país inteiro que ainda não sabia que estava a mudar de vida.O conteúdo Play, pause, revolução: as duas canções do 25 de Abril aparece primeiro em Revista Líder.