Durante décadas habituámo-nos a um modelo simples: estudar, constituir família, trabalhar, reformar. Mas num mundo onde a nossa existência pode estender-se por um século, esse modelo começa a parecer curto. Demasiado curto, eu diria. Importa, pois, repensar tudo isto. Porque viver mais anos não deve ser visto como um fardo a gerir, mas sim como uma inevitável oportunidade a aproveitar. A investigação científica tem vindo a confirmar algo que a intuição humana já suspeitava. Veja-se como o célebre Harvard Study of Adult Development, o mais longo estudo sobre felicidade e longevidade alguma vez realizado, conclui que manter relações, propósito e envolvimento ativo na sociedade são fatores determinantes para uma vida mais longa e mais saudável. Atividade intelectual, social e profissional A atividade, seja ela intelectual, social ou profissional, alimenta a vitalidade humana. O trabalho, quando vivido com sentido, deixa de ser apenas uma função económica e transforma-se numa forma de pertença, utilidade e propósito. E eu acrescentaria que dinâmicas familiares saudáveis são motor para qualidade e bem-estar ao longo de ciclos de vida palpavelmente mais longos. O idadismo existe também no mundo do trabalho em Portugal, muitas vezes de forma subtil, quando se presume que a inovação é exclusiva dos mais jovens ou que a experiência deixou de ser relevante. E, no caso das mulheres, essa perceção tende a ser ainda mais exigente. Muitas enfrentam, ao longo da carreira, um duplo escrutínio. Primeiro por serem demasiado jovens, depois por serem consideradas demasiado maduras. Persiste igualmente a ideia de que profissionais mais velhos ocupam lugares que poderiam ser dos mais novos. Esta visão, tantas vezes repetida, não encontra fundamento nas economias modernas. O trabalho e a inovação não são um jogo de soma zero. Pelo contrário, sociedades que conseguem integrar diferentes gerações tendem a ser mais produtivas, mais criativas, mais resilientes e, assim, mais humanizadas e bem-sucedidas. Os mais jovens trazem à cena frescura científica, domínio tecnológico, novas linguagens. Os mais maduros, por mais experientes, trazem aquilo que só o tempo oferece: visão, memória, capacidade de antecipação e equilíbrio nas decisões. Países como o Japão perceberam isso bem cedo. Tive o privilégio de o constatar quando, há dois anos, participei na semana internacional da 22ª edição do MBA da AESE, na Universidade de Meiji, em Tóquio. Confrontado com uma das populações mais envelhecidas do mundo, o Japão foi pioneiro no desenvolvimento de programas de formação e requalificação para pessoas com mais de 65 anos, permitindo-lhes atualizar competências e continuar a contribuir para a sociedade enquanto mantêm autonomia e rendimento. Uma verdadeira simbiose entre visão, produtividade e dignidade. O meu testemunho Ao longo da minha vida profissional, quer na gestão empresarial ou no trabalho social, tenho tido o privilégio de conviver com pessoas de várias gerações. É neste contexto que reforço uma convicção fundamentada no meu caminho pelo tempo. Quando experiência e juventude se encontram, o resultado nunca é banal. É, isso sim, de uma riqueza palpável e de uma consequência de facto transformadora e geradora de impacto que promete deixar legado. Acredito que a maturidade não deve significar retirada. Deve significar reinvenção. Não significa parar, mas contribuir de forma diferente, com outra perspetiva, com outro ritmo, mas com níveis multiplicados de segurança e de serenidade que nivelam vontade de fazer e ser parte do que de verdade importa. E se me perguntarem se existe uma década ideal para a mulher, diria que é aquela em que a experiência acumulada encontra finalmente a liberdade interior. Para muitas mulheres, essa etapa chega depois dos cinquenta ou sessenta anos, quando a confiança substitui a hesitação e a visão se torna mais ampla. No meu caso evidenciou-se mesmo depois dos setenta. Viver mais anos é, afinal, uma das maiores conquistas da Humanidade. Seria, por isso, um desperdício não saber o que fazer com eles. Numa sociedade que aprende a viver até aos cem, o verdadeiro desafio não é envelhecer. É continuar a ter curiosidade, propósito e vontade de contribuir. Porque enquanto houver ideias para concretizar, pessoas para inspirar e caminhos para abrir, a idade deixa de ser limite. Passa a ser apenas experiência acumulada ao serviço da vida. E porque, ao final do dia, perdura quem melhora o que tem, se reinventa para o que vem e deixa no mundo uma marca tecida pela experiência de vida. Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo Conceição Zagalo: «A maturidade não deve significar retirada» aparece primeiro em Revista Líder.