A disputa global por semicondutores deixou de ser um tema restrito à indústria de tecnologia para ocupar o centro das decisões estratégicas de governos ao redor do mundo. Presentes em praticamente todos os dispositivos eletrônicos — de smartphones e carros a data centers e sistemas de inteligência artificial — os chips se tornaram um dos principais pilares da economia digital e da infraestrutura tecnológica contemporânea.Nos últimos anos, essa importância ganhou ainda mais evidência diante de crises de abastecimento, tensões geopolíticas e uma demanda crescente impulsionada por novas tecnologias. A concentração da produção em poucos países, especialmente na Ásia, expôs vulnerabilidades na cadeia global e levou diferentes nações a repensarem suas estratégias industriais. Ao mesmo tempo, os investimentos no setor se multiplicaram, com planos bilionários voltados à expansão da capacidade produtiva e à redução da dependência externa.Nesse cenário, qual é o papel do Brasil na indústria de semicondutores? O país ainda não participa da fabricação de chips avançados, mas mantém presença em etapas específicas da cadeia e busca ampliar sua atuação em um setor considerado estratégico para o desenvolvimento tecnológico e econômico.Para entender onde o Brasil está hoje e quais são as possibilidades de avanço, o Olhar Digital conversou com o presidente do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (CEITEC), Augusto Gadelha, e com a diretora de Negócios da empresa pública federal, Edelweis Ritt. Na entrevista, eles detalham a posição do país na cadeia global, explicam os desafios estruturais do setor e apresentam as estratégias em curso para tentar inserir o Brasil de forma mais competitiva nessa indústria.Olhar Digital: Como vocês enxergam hoje a posição do Brasil nessa cadeia global de semicondutores?Augusto Gadelha:“O setor de semicondutores é extremamente complexo e de altíssima tecnologia. Produzir semicondutores, principalmente os de fronteira, exige conhecimento tecnológico muito avançado, recursos humanos altamente qualificados e um maquinário de altíssima complexidade — e muito caro. Não é uma coisa barata.”Hoje, a fabricação de semicondutores está concentrada em poucos países. Quando falamos das tecnologias mais avançadas, essa produção está principalmente na Ásia, com destaque para Taiwan e Coreia do Sul. Nos Estados Unidos, que já chegaram a ter 80% ou 90% do mercado mundial, hoje essa participação é bem menor.O Brasil está começando a se inserir em algumas etapas. Temos iniciativas na área de encapsulamento e outros projetos, mas ainda dependemos do exterior para a fabricação dos chips em si.Edelweis Ritt:O Brasil tem feito tentativas há bastante tempo de entrar nessa cadeia, inclusive com a criação do Ceitec. E essa indústria deve passar por uma transformação importante, porque estamos falando de um setor que pode chegar a 1 trilhão de dólares nos próximos anos.Com o crescimento da demanda, especialmente com inteligência artificial, é difícil imaginar que essa produção continue concentrada em poucos lugares. Deve haver uma descentralização, e o Brasil pode se posicionar como uma alternativa para receber parte desses investimentos.Hoje já temos uma indústria de semicondutores na parte de encapsulamento, com alguns players atuando no país. O próximo passo é ampliar essa presença e atrair mais investimentos para outras etapas da cadeia.Olhar Digital: O Ceitec busca avançar em qual etapa da cadeia de semicondutores no país?Augusto Gadelha:A nossa busca é termos a competência para começar a fabricar chips. É importante entender que não existe ‘um tipo de chip’. São várias tecnologias, várias aplicações e diferentes níveis de complexidade.O que estamos fazendo no Ceitec é trabalhar na possibilidade de fabricar um tipo de semicondutor que seja viável comercialmente para o Brasil. Isso permite sustentar a operação e, ao mesmo tempo, abrir espaço para atrair investimentos e criar uma cadeia de negócios no país.Nós estamos focando, neste momento, em semicondutores de potência. São chips usados, por exemplo, em automóveis elétricos, geração de energia eólica e solar e motores elétricos. É uma área importante e que está em crescimento.Isso também contribui para a formação de recursos humanos e para o desenvolvimento de novas empresas. Já vimos isso acontecer: empresas surgiram a partir do ecossistema criado em torno do Ceitec.Edelweis Ritt:O nosso foco principal é a fabricação do wafer, que é a base onde os chips são produzidos. Hoje, temos a única fábrica de wafer com capacidade produtiva na América do Sul.Também vamos atuar, em certa medida, na parte de design e na etapa final do processo, mas o objetivo principal é dominar a fabricação.Mesmo no caso dos semicondutores de potência, existe um trabalho de design envolvido. E essa é uma área em que ainda temos pouca atuação no Brasil, especialmente para esse tipo específico de tecnologia.Além disso, também temos uma atuação em pesquisa e desenvolvimento. Como beneficiários do PADIS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores), somos obrigados a investir parte do faturamento em inovação, o que ajuda a impulsionar esse ecossistema.Desenvolver a indústria de chips é um objetivo de longo prazo. Imagem: Mahir Asadli/ShutterstockOlhar Digital: O que hoje trava o avanço do Brasil nessa tentativa de entrar de forma mais relevante na indústria de semicondutores?Augusto Gadelha:O principal fator é o custo. É um setor que exige investimentos muito elevados. Além disso, ainda temos uma carência de recursos humanos especializados — e isso só se resolve com investimento contínuo.Mas, acima de tudo, é uma questão de decisão estratégica. Países que avançaram nessa área, como Coreia do Sul, Taiwan e, mais recentemente, China e Índia, tiveram uma vontade clara de Estado de desenvolver essa indústria.E isso precisa ser uma política de longo prazo. Não pode ser uma política de governo de quatro anos. Estamos falando de projetos que levam 15, 20 anos ou mais para amadurecer.Nos Estados Unidos, por exemplo, houve o Chips Act, com mais de 50 bilhões de dólares direcionados só para a indústria de semicondutores, além de investimentos em formação de mão de obra.Edelweis Ritt:Existe também a questão do mercado. Para uma fábrica se sustentar, ela precisa ter escala e acesso a mercados, muitas vezes internacionais.O Brasil importa bilhões de dólares em semicondutores, mas são muitos tipos diferentes. Não dá para produzir tudo em uma única fábrica. Cada unidade produtiva precisa ser especializada.Além disso, é preciso construir credibilidade. Isso leva tempo. Não é só instalar uma fábrica — é desenvolver tecnologia, qualidade e capacidade de competir globalmente.Por outro lado, como a indústria está crescendo muito, isso também abre espaço para novos players entrarem. E isso pode ser uma oportunidade para o Brasil.Olhar Digital: Diante desse cenário, qual é o caminho para o Brasil ganhar espaço na indústria de semicondutores?Augusto Gadelha:Existe um exemplo clássico que ajuda a entender esse processo, que é a Embraer. No início, ninguém acreditava que o Brasil poderia ter uma indústria aeronáutica competitiva. Mas houve persistência, investimento e formação de recursos humanos ao longo de décadas.Na área de semicondutores, a lógica é semelhante. É um setor complexo, que exige qualificação elevada e investimentos contínuos. Não existe retorno no curto prazo.O Brasil precisa entender que esse é um projeto de longo prazo. Não é algo que vai gerar resultado em dois ou três anos. Mas, com consistência, é possível construir uma posição relevante.O nosso mercado não pode ser apenas interno. A indústria de semicondutores é global. Para competir, precisamos estar inseridos em mercados internacionais.Edelweis Ritt:Essa indústria está crescendo muito rapidamente, impulsionada por novas aplicações, especialmente com inteligência artificial. Isso tende a aumentar o número de players e abrir espaço para novos países.O Brasil já tem alguns pontos positivos. Temos energia limpa, proximidade com grandes mercados e capacidade de formar mão de obra qualificada.Se conseguirmos estruturar esse ecossistema — com indústria, pesquisa e formação — existe potencial para atrair empresas e investimentos.É um processo gradual, mas que pode ganhar escala à medida que o mercado global continua se expandindo.Augusto Gadelha:Hoje, nós temos várias casas de design no Brasil, que são empresas voltadas ao projeto de semicondutores. Essa é uma etapa importante da cadeia.Também temos presença na parte de encapsulamento, que é a fase final do processo, quando o chip já fabricado é preparado para ser integrado a outros componentes eletrônicos.”O grande ponto é que ainda não temos a fabricação do chip em si em escala comercial. Isso faz com que precisemos enviar esses projetos para fora do país para serem produzidos.A proposta do Ceitec é justamente avançar nessa etapa intermediária, que é a fabricação.China e Estados Unidos têm protagonismo na chamada “Guerra dos Chips”. Imagem: William Potter/ShutterstockEdelweis Ritt:A gente conseguiu desenvolver uma indústria de encapsulamento no Brasil, com alguns players já estabelecidos. Essa indústria já movimenta bilhões de reais.Além disso, temos uma base de conhecimento na área de design, formada ao longo dos anos com investimentos em capacitação.O desafio agora é conectar essas pontas e avançar na parte produtiva, especialmente na fabricação.E isso não significa fazer tudo. A indústria de semicondutores é altamente especializada. Cada país e cada empresa atua em nichos específicos.Augusto Gadelha:A cadeia de semicondutores pode ser dividida em três grandes etapas: o design, a fabricação e o encapsulamento. O Brasil já atua nas duas pontas — projeto e encapsulamento — e está buscando avançar na etapa central, que é a fabricação.Se conseguirmos consolidar essa etapa, abrimos caminho para criar uma cadeia mais completa dentro do país.Olhar Digital: Como vocês enxergam o papel do Brasil nessa indústria daqui para frente?Edelweis Ritt:Eu acredito que o Brasil tem potencial para ter essa indústria, principalmente porque já houve investimento na formação de mão de obra ao longo dos anos, especialmente na área de design.A gente já viu que, quando você cria um ecossistema, as empresas vêm atrás dessa mão de obra. Isso aconteceu aqui no Rio Grande do Sul: empresas internacionais vieram para absorver profissionais formados no país.Então, se conseguirmos estruturar esse ambiente — com indústria, pesquisa e formação — existe uma tendência de atração de novos investimentos.Augusto Gadelha:Nós tivemos aqui no Ceitec um dos maiores centros de design do país. Quando esses profissionais foram desligados em um determinado momento, duas empresas estrangeiras se instalaram no Rio Grande do Sul para absorver essa mão de obra.Isso mostra que o Brasil tem capacidade técnica. O que falta é continuidade e investimento.O país pode crescer nessa área, mas precisa de vontade política e persistência. Não pode ser uma iniciativa pontual.Em dois anos, já podemos começar a produzir. Mas para ganhar relevância global, é um processo gradual, que leva anos.O importante é entender que os semicondutores são a base de praticamente tudo na sociedade moderna. Dominar essa tecnologia é fundamental para o desenvolvimento do país.Olhar Digital: Por que o Brasil ainda não produz chips mais avançados, como os utilizados em inteligência artificial?Augusto Gadelha:O Brasil começou a se movimentar nessa área ainda nos anos 1970. Já existiam iniciativas em universidades e tentativas de desenvolver essa indústria.O que talvez tenha faltado foi perceber, naquele momento, o quanto os semicondutores se tornariam estratégicos no futuro. Outros países fizeram essa aposta como prioridade nacional.Taiwan, por exemplo, tinha um nível de desenvolvimento parecido com o do Brasil em determinado momento. Mas houve uma decisão clara de investir nesse setor de forma consistente.Hoje, estamos falando de uma indústria extremamente cara, que exige investimentos de bilhões de dólares. Não é algo que se constrói rapidamente.Edelweis Ritt:Também tem a questão da escala. No início, a demanda por semicondutores era muito menor e mais concentrada em poucos setores.Com o tempo, os chips passaram a estar em praticamente tudo — carros, eletrodomésticos, sistemas industriais. Essa expansão aumentou a necessidade de produção e também a complexidade da indústria.Hoje, para competir na fronteira tecnológica, é preciso ter escala, especialização e acesso a mercados globais.Mas, ao mesmo tempo, esse crescimento também abre espaço para novos participantes, especialmente em áreas específicas da cadeia.Augusto Gadelha:Tudo hoje envolve semicondutores. Da câmera ao celular, do carro aos sistemas industriais. Isso só tende a crescer.Por isso, é importante que o Brasil participe desse processo, mesmo que inicialmente em áreas específicas, e vá avançando gradualmente.Olhar Digital: Na prática, como o Ceitec pretende atuar nos próximos anos?Augusto Gadelha:Neste momento, o Ceitec está focado em adquirir a capacidade tecnológica para fabricar semicondutores no Brasil. Isso envolve aprender todo o processo — desde os insumos até a produção final do chip.Escolhemos trabalhar com a tecnologia de carbeto de silício, voltada para aplicações de eficiência energética. É uma área relevante e ainda em desenvolvimento no mundo, o que abre espaço para o Brasil entrar.A ideia é dominar esse processo, formar recursos humanos e, a partir disso, começar a produzir chips comercialmente.No primeiro momento, buscamos atender o mercado nacional. Depois, à medida que tivermos produtos competitivos, podemos avançar para o mercado internacional.Também estamos buscando parcerias com empresas estrangeiras para transferência de tecnologia e aceleração desse processo.Edelweis Ritt:O Ceitec é uma empresa e, como tal, precisa atuar de forma sustentável. Isso significa produzir, gerar receita e, ao mesmo tempo, investir em inovação.Então, nossa atuação combina produção industrial com pesquisa e desenvolvimento, além de parcerias estratégicas.É um modelo que busca equilibrar curto prazo — com geração de receita — e longo prazo, com desenvolvimento tecnológico.Olhar Digital: Programas como o Redata podem influenciar o desenvolvimento da indústria de semicondutores no Brasil?Augusto Gadelha:O Redata é uma iniciativa importante, especialmente pela expansão dos data centers. Esses centros demandam não apenas processadores, mas também uma grande quantidade de semicondutores de potência.O principal desafio dos data centers hoje é energético — fornecimento e eficiência. E é justamente nessa área que podemos contribuir.O Ceitec não vai produzir processadores para esses sistemas, mas pode atuar nos componentes ligados à eficiência energética, que são fundamentais para o funcionamento desses centros.Edelweis Ritt:A gente vê o Redata como uma oportunidade de estimular a demanda interna. Isso é importante porque ajuda a dar escala para a indústria nacional.Se não há demanda local, as empresas precisam depender exclusivamente de exportação, o que torna o processo mais difícil.Por isso, iniciativas que valorizem o que é produzido no Brasil podem ajudar a impulsionar toda a cadeia.E, no nosso caso, os semicondutores de potência podem ser uma peça importante dentro desse ecossistema de data centers.Olhar Digital: De que forma o cenário global impacta as escolhas feitas pelo Brasil e pelo Ceitec?Augusto Gadelha:O mercado de semicondutores é internacionalizado. Nenhum país produz apenas para si. Taiwan não produz só para Taiwan, a Coreia não produz só para a Coreia.Isso significa que, desde o início, precisamos pensar em competitividade global. Não adianta criar uma indústria voltada apenas para o mercado interno.A especialização é uma característica desse setor. Cada empresa, cada país, acaba focando em determinados tipos de semicondutores.Por isso, nossa estratégia é escolher áreas em que possamos ser competitivos e crescer a partir delas.Edelweis Ritt:A indústria foi se tornando cada vez mais especializada ao longo do tempo. Existem fábricas focadas em memória, outras em processadores, outras em semicondutores de potência.Isso também define como novos players entram no mercado. Ninguém começa fazendo tudo.O crescimento da demanda global abre espaço para essa especialização. E é isso que pode permitir que países como o Brasil encontrem seu espaço.Mas, para isso, é preciso estar conectado ao mercado internacional, tanto para vender quanto para aprender e evoluir tecnologicamente.Olhar Digital: Por que investir em semicondutores é considerado estratégico hoje?Augusto Gadelha:Hoje, praticamente tudo envolve semicondutores. A câmera, o celular, o computador, o carro — tudo depende disso.Não existe inteligência artificial sem semicondutores. Não existe computação sem semicondutores. Eles são a base de toda a tecnologia moderna.Por isso, dominar essa tecnologia é fundamental para o desenvolvimento de qualquer país.Se o Brasil quiser ter autonomia tecnológica e crescer economicamente, precisa estar inserido nesse setor.Edelweis Ritt:Essa é uma indústria que só tende a crescer. Estamos falando de um mercado que pode chegar a 1 trilhão de dólares nos próximos anos.E, com a expansão da inteligência artificial e de outras tecnologias, a demanda por semicondutores vai continuar aumentando.Isso abre oportunidades, mas também exige planejamento de longo prazo.O post O Brasil na Guerra dos Chips: vamos produzir semicondutores? apareceu primeiro em Olhar Digital.