«Cinema não é só fazer objetos de entretenimento. É construir património». Luís Urbano fala do novo filme sobre as FP-25

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Explosões, assaltos, perseguições e romance marcam o ritmo do filme ‘Projecto Global’, que hoje chega às salas de cinema do país. A longa metragem portuguesa, com argumento de Ivo M. Ferreira e Hélder Beja, materializa a ação das Forças Populares 25 de Abril (FP-25) no contexto político e social pós-revolução, revisitando um dos períodos mais conturbados da história do país.Para Luís Urbano, coprodutor do filme, olhar para este momento continua a ser essencial, sobretudo num cenário atual também marcado por polarização e tensão política. Em conversa com a Líder, o fundador da produtora O Som e a Fúria destaca a ambição do projeto que, com matriz portuguesa e execução hollywoodesca, relata pela primeira vez no grande ecrã e com rigor histórico este período. Reflete também sobre o panorama do setor cinematográfico em Portugal, os desafios estruturais e como deve o cinema reconquistar a audiência. Luís UrbanoO 25 de Abril torna-se mais relevante nos dias que correm, no contexto geopolítico e político que atravessamos?Sim, torna-se mais relevante, embora seja importante esclarecer que o filme não é exatamente uma revisitação do 25 de Abril, mas sim do período que se segue. É precisamente nesse contexto, no pós-período revolucionário, que surge a organização FP-25, uma organização terrorista de extrema-esquerda que pôs o país de pernas para o ar no início dos anos 80.Na altura, este fenómeno não era isolado em Portugal. Estava alinhado com o que se passava noutros países europeus, como França, com a Action Directe, Itália com as Brigatti Rossi, ou a Alemanha, onde também existiam movimentos semelhantes. Ou seja, havia um contexto internacional de radicalização política que acabou por influenciar também a realidade portuguesa, contribuindo para um período particularmente conturbado no início dos anos 80.Mas sim, é importante revisitar estes momentos da história. Não foi uma decisão planeada, a de lançar o filme neste momento específico, em 2026. Nós começamos em 2017 e não apontamos para esta altura, que também se caracteriza por uma enorme polarização.O filme acaba por ganhar uma nova relevância hoje, precisamente porque o período que retrata também foi marcado por uma forte polarização e nesse aspeto é uma coincidência. A polarização política continua a crescer, materializando-se tanto no discurso de ódio como em extremismos. Podemos traçar um paralelo com o contexto que deu origem às FP-25?Sim, podemos traçar vários paralelos, embora seja importante contextualizar bem a origem deste movimento. As FP-25 começam a estruturar-se ainda no final da década de 70, mas começaram com ações concretas a partir de 1980. Mas não nos podemos esquecer que a sua origem remonta ao impacto do 25 de Abril de 1974, que pôs fim a uma ditadura de cerca de 50 anos.Após a revolução, há duas coisas que acontecem em paralelo. Houve uma parte significativa da população, sobretudo jovens, que viu no 25 de abril uma oportunidade para construir algo radicalmente diferente. Sonharam em cortar com o passado, tanto a nível político como cultural.Mas, não nos podemos esquecer que, logo após a revolução, movimentos de extrema-direita terroristas também atuaram, com atentados, mais concentrados no norte do país, e causaram imensas mortes. Foi um período muito turbulento que acabou por culminar no 25 de novembro de 1975, uma espécie de ponto de ordem que forçou o país a seguir um caminho democrático alinhado com as democracias liberais europeias. Nesse processo, houve jovens que sentiram que esse caminho representava o fim de um sonho. Alguns conformaram-se e outros não.É aqui que podemos estabelecer um paralelismo com o presente. Há discurso de ódio e extremização, com a extrema-direita a ter um papel muito nocivo, e ao mesmo tempo existe um enorme descontentamento geral. Agora, o que nos legitima a pegar em armas? Eu acredito que nada legitima o uso de armas a não ser para combater um regime autoritário.Uma das coisas interessantes que temos notado, especialmente desde que estreamos internacionalmente no Festival de Roterdão, é que a audiência, incluindo muita gente jovem, sente uma afinidade com aqueles loucos que, por perseguição de um sonho, assumiram posturas radicais. Mesmo não tendo um contexto histórico para poder avaliar o filme, há uma certa empatia para com as personagens e esta pulsão da juventude.Como é que se aborda este tema sem cair na romantização da violência?Essa era uma das grandes preocupações do filme e eu diria que ele consegue manter esse equilíbrio, porque consegue manter uma distância relativamente às personagens. Por um lado, há momentos em que o filme se foca em questionar as motivações e o porquê das personagens tomarem certas atitudes, a sua perspetiva. Mas, ao mesmo tempo, também apresenta o ponto de vista das autoridades, da polícia que os persegue.Por exemplo, existe um jornalista que confronta diretamente a protagonista, questionando a legitimidade das suas ações, num contexto em que o país já se encontrava em democracia. Todo aquele processo foi extraordinariamente anacrónico porque, no início dos anos 80 e apesar da profunda crise económica, o país já vivia em democracia. E, apesar de gerarem empatia por serem jovens e loucos, os fins nunca justificam os meios. O filme nunca os transforma em heróis. Eles são anti-heróis. Mostram-se não só as barbaridades que cometeram, mas também as consequências para com os camaradas.Ou seja, o filme não romantiza a violência, mantém uma distância neutra. Mas não apaga as motivações das personagens, que em muito se assemelhavam a outras gerações, que acreditaram no sonho de uma organização da sociedade pós-25 de abril completamente diferente daquilo que se veio a tornar. Mas muitos aceitaram as regras do jogo democrático, conformaram-se.É a realidade da história, se estudarmos períodos semelhantes de revolução e violência noutros países, vemos que Portugal não tem comparação. Nesse aspeto somos muito mais calmos e tranquilos.Por que demorou o filme tantos anos a chegar ao público?O processo foi longo por várias razões. Primeiro, houve um extenso processo de pesquisa histórica, com a colaboração do historiador Francisco Bairrão Ruivo, que fez um trabalho aprofundado sobre o período e que, aliás, está agora a lançar um livro com a pesquisa.Além disso, os argumentistas realizaram várias entrevistas com pessoas que viveram nesse período, desde operacionais do grupo a elementos das forças de segurança. A recolha de informação foi essencial para visualizar o tipo de filme que queríamos fazer.Sempre quisemos fazer um thriller político com cenas de ação – tiroteios, explosões, assaltos a bancos – algo pouco comum no cinema português e que diferencia este filme. Isto implica cenas complexas, como tiroteios, explosões e assaltos a bancos, que exigem recursos técnicos e financeiros significativos.Naturalmente, isso dificultou o financiamento. Houve atrasos, incluindo uma quebra de financiamento a meio do processo, que tivemos de recuperar. Tivemos também a pandemia, que complicou ainda mais o calendário.O resultado é um filme caro para os padrões portugueses, com um orçamento de cerca de 5,1 milhões de euros, e que por isso também levou tempo a financiar. Tivemos de recorrer a coprodução internacional, com o Luxemburgo, e tivemos também um investimento forte da RTP, que inclui uma minissérie de seis episódios, que vai estrear mais tarde.Tivemos que aprender e ser capazes de mobilizar e criar um modelo específico de produção ao qual não estamos tão habituados. Quais são os maiores desafios de produzir cinema em Portugal?Produzir continua a ser um desafio, é uma atividade muito difícil. Não há propriamente um entrave, há desafios que têm a ver exatamente com a forma como se consegue equilibrar aquilo que é a ambição artística de um filme e a produção. A componente do financiamento é sempre a mais complexa, a que toma mais tempo.Hoje, já há uma série de coisas bem instituídas relativamente aos mecanismos de financiamento. Quando eu comecei era mais difícil este processo de justificar a nossa existência e a necessidade de cada país investir numa produção própria.Porque fazer cinema não é só fazer objetos de entretenimento. É construir património, identidade e cultura de cada país.Esta necessidade está mais aceite, do ponto de vista político e das sociedades, e sobretudo a nível europeu. Há mecanismos alternativos de financiamento e bastante atrativos para coprodução entre países, o que aumenta as possibilidades.Como vê a evolução da público português no consumo de cinema, em especial do que se faz por cá?Nós temos tradicionalmente um problema de uma ligação difícil entre o público e o cinema português. O cinema português tem uma quota de mercado bastante pequena face àquilo que deveria ter.Isso explica-se por várias razões. O público está muito habituado ao cinema americano. Nós não estamos habituados a ouvir a nossa língua nos filmes, estávamos habituados a ler legendas e a ouvir inglês ou americano. Não temos aquela tradição que os franceses, espanhóis ou alemães têm de dobrar os filmes.Depois há também um aumento de produção portuguesa que ainda vai ter de conquistar os seus resultados, mas ao mesmo tempo há coisas que o cinema já não beneficia. Hoje as pessoas fazem contas sobre como vão gastar o seu dinheiro, se vão ver um concerto ou um filme.Há também a generalização das plataformas de streaming e o consumo do cinema a ser feito de forma mais individual, através de um ecrã em casa.O cinema português tem de ter esta paciência de conquistar o seu público.O streaming veio mudar muito o cinema. O futuro do setor passa por aí?Não há nada como a sensação de ver um filme em sala, em grande ecrã, com a sala cheia ou mediamente cheia. A experiência é completamente diferente. Mesmo as plataformas de streaming não dispensam o cartão de visita dos filmes, que é a estreia em sala. Em mercados maiores isso continua a ser muito importante.Tem de se encontrar aqui um equilíbrio e compatibilização. No caso do cinema em sala, há uma série de desafios para os próximos tempos e um deles é precisamente a reinvenção do espaço de ver cinema.As salas multiplex perderam público, mas as salas com porta para a rua, inseridas na comunidade, estão a crescer. Isso é um sinal de que qualquer coisa está a mudar. A ideia de teres uma sala no teu bairro, com um bom espaço de acolhimento, pode tornar-se uma alternativa forte e dar um futuro mais interessante ao cinema em grande ecrã.O que lhe falta fazer?Tanta coisa, não consigo especificar. Há várias coisas que é possível fazer. A história de Portugal tem muitas estórias que podem ser aproveitadas, não só dos factos em si, mas também daquilo que é ser português.Tenho vários projetos, uns mais ligados à história, outros mais contemporâneos, outros mais ligados a histórias de pessoas do nosso tempo. Há muita coisa para fazer.Que características gostava de ver nos seus colegas de profissão para que o cinema português continue a crescer?Não consigo identificar de forma específica. Esta é uma atividade muito difícil e é preciso ter essa noção. O que eu espero dos meus colegas, sobretudo de quem está a começar, é que não desistam, que avancem, que acreditem e que invistam toda a sua energia. Há muita gente nova a entrar e a conseguir produzir.E depois é preciso estar atento e defender o setor. Eu tive que desenvolver também um lado político, no sentido de lutar pelo reconhecimento deste setor. Isto não é só fazer uns bonecos e uns ‘filmitos’, é um setor cultural com impacto económico. Cada euro de dinheiro público gera um efeito multiplicador mais intenso do que noutras áreas. É um setor valioso e deve ser reconhecido como tal.O conteúdo «Cinema não é só fazer objetos de entretenimento. É construir património». 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