O modelo tradicional de comercialização de energia no Brasil está entrando em uma fase de esgotamento estruturaAcompanhando de perto a evolução do mercado livre no país, observo que o aumento recorrente de casos de inadimplência, a dificuldade de comercializadoras em honrar contratos e a crescente insegurança dos consumidores são sintomas de um problema mais profundo.Estamos operando em um mercado em que a dúvida já não é mais se haverá uma quebra relevante, mas quando e quem será o próximo. Isso mostra que não estamos diante de eventos isolados, e sim de um modelo que deixou de responder bem à realidade atual.Nos últimos anos, a comercialização de energia se estruturou majoritariamente por meio de contratos bilaterais, com baixa transparência na formação de preço e uma distribuição de risco pouco equilibrada entre os agentes. Esse formato funcionou em um ambiente mais previsível, mas não acompanha mais a dinâmica atual do setor.A complexidade do mercado aumentou, a volatilidade se intensificou e a velocidade das decisões mudou. Mas o modelo de comercialização continua praticamente o mesmo. Essa desconexão está no centro da perda de liquidez e confiança que estamos vendo.Intermediação sob pressãoO papel tradicional da comercializadora, como intermediadora central das relações entre geradores e consumidores, tende a perder relevância ao longo do tempo. O modelo baseado em intermediação pura está com os dias contados. Não porque a atividade deixa de existir, mas porque o formato atual não resolve os principais problemas do mercado. Ele, muitas vezes, apenas redistribui riscos sem transparência adequada.Enquanto consumidores ficam expostos e sem clareza sobre suas posições contratuais, geradores acabam sendo pressionados pela falta de liquidez do sistema, criando um ciclo de desalinhamento entre os agentes.Transição para um novo modelo Para os próximos anos, a tendência é de transformação na forma como a energia é comercializada no Brasil, com mudanças estruturais na lógica do mercado.Entre os principais vetores dessa evolução, destaco a maior transparência na formação de preços e na exposição a riscos, modelos contratuais mais flexíveis e adaptáveis, redução da dependência de relações puramente bilaterais, surgimento de plataformas estruturadas, com múltiplos agentes e regras claras e consumidores assumindo papel mais ativo na gestão de energia.O futuro não elimina o mercado livre. Pelo contrário, ele expande o potencial. Mas a forma como a energia é comercializada hoje não é a que vai sustentar esse crescimento.Mudança inevitávelO setor está diante de uma mudança inevitável, e os agentes que não se adaptarem ao novo contexto tendem a enfrentar dificuldades crescentes. A discussão não deveria ser sobre quem está errado, mas sobre qual modelo faz sentido daqui para frente. Porque insistir na estrutura atual tende a aumentar a inadimplência, a judicialização e, principalmente, a perda de confiança no mercado.* Lucas Paiva é COO e cofundador da Lead Energy Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.