O governo segue com os planos para reverter a inadimplência recorde dos consumidores, que não para de crescer. Em ano de eleições, a intenção era estimular o consumo e criar uma percepção mais favorável quanto ao andamento da economia e das finanças pessoais. No entanto, ambos os lados apresentam fortes desafios.O governo, em princípio, sofre restrições para a expansão dos gastos, na medida em que a gestão das finanças públicas já é alvo de fortes questionamentos — não só pelo mercado, mas pelo empresariado em geral e por boa parte da população. Persiste a ideia de um governo gastador, que bate recordes de arrecadação e impõe maior taxação, mas que, ainda assim, tem dificuldade para cumprir as metas do arcabouço. Isso limita a expansão de programas que poderiam dar mais fôlego à atividade e ao consumo.Também por esse motivo, há certa expectativa quanto à fonte dos recursos que possam garantir a renegociação de dívidas por meio do novo Desenrola, além da possibilidade de uso do FGTS. Pode parecer uma medida populista, mas o fato é que o endividamento e a inadimplência continuam batendo recordes, em meio a novas pressões inflacionárias e a perspectivas de um ciclo mais modesto de corte dos juros. Esse cenário pode agravar a situação, com maior aperto no orçamento das famílias.A inflação, que vinha melhor comportada, reverteu o sinal, com piora acentuada das projeções, que voltaram a rodar acima do teto da meta de 4,5%. O IPCA-15 avançou 0,89% em abril, maior variação para o mês desde 2022. Os impactos da guerra no Oriente Médio já pressionam os preços de vários setores, além dos combustíveis, somando-se a condições pontuais, como o reajuste de tarifas de energia, a resiliência do setor de serviços e a alta dos alimentos.A composição desfavorável do índice tende a reforçar a cautela do Copom. Tanto que o mercado já prevê a Selic em 13% ao final do ano (antes se falava em queda até os 12%). Nesse contexto, o crédito continuará caro, dificultando a rolagem de dívidas. O novo Desenrola pode trazer algum alívio, embora experiências anteriores não tenham mostrado resultados sustentáveis a longo prazo. Geralmente, ocorre a renegociação e, pouco depois, a inadimplência volta a subir, a menos que haja uma mudança estrutural no cenário.Atualmente, é preciso considerar também o comprometimento das finanças com as apostas online. O programa pode até bloquear as apostas em “bets”, por um tempo, para quem renegociar dívidas atrasadas. De qualquer modo, a “sangria” da inadimplência pode estancar momentaneamente, mas o comprometimento da renda das famílias com dívidas também bate recordes: de acordo com o Banco Central, o índice chegou a quase 50% em fevereiro.Enquanto isso, a demanda por crédito nas linhas mais caras, como o cartão, continua crescendo. Enfim, o governo enfrenta um quebra-cabeça desafiador para que o consumidor/eleitor sinta uma melhora no ambiente econômico. Iniciativas como o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda não tiveram grande repercussão; pode-se dizer que quase “passaram batido”. O mesmo ocorre com outras medidas, conforme se pode deduzir das recentes pesquisas de avaliação do governo e de intenções de voto.