A premissa da sua intervenção foi simples: provar o contrário. Recorrendo a três figuras da Antiguidade — Tales de Mileto, Socrates e Diogenes de Sinope — o professor mostrou como ideias com mais de dois mil anos continuam a dialogar com dilemas profundamente contemporâneos: o propósito, o conhecimento e a capacidade de parar para pensar.A mensagem foi partilhada por David Elrich, professor e mestre em Filosofia, durante a Leadership Next Gen.Veja o momento completo aqui:David Erlich – Bora pensar: lições de liderança da filosofia antiga O propósito antes da riquezaO primeiro exemplo veio de Tales de Mileto, frequentemente apontado como o primeiro filósofo da tradição ocidental. Num tempo em que fenómenos naturais eram explicados através de deuses e mitos, Tales tentou inaugurar uma forma diferente de olhar para o mundo.«Se havia tempestades no mar, as pessoas diziam que Poseidon estava zangado. Se havia uma má colheita, diziam que Dionísio estava desiludido. Tales foi dos primeiros a tentar explicar estas coisas através da observação e da razão», explicou Elrich.Ainda assim, a sua dedicação ao pensamento não escapava à ironia dos contemporâneos. Muitos perguntavam-lhe porque não era rico, se era assim tão sábio.A resposta acabou por surgir através de um episódio célebre. Observando os ciclos naturais, Tales previu uma excelente colheita de azeitona e decidiu arrendar todos os lagares da região antes da época começar. Quando a produção aumentou e os agricultores precisaram deles, subarrendou-os a um preço mais alto.«Ele provou que podia ganhar dinheiro se quisesse», disse Elrich. «Mas também mostrou que não era isso que o motivava.»Da história emerge uma ideia central: «A importância de uma vida não está na quantidade do nosso saldo bancário. O mais importante é procurar um sentido, encontrar um propósito.» A importância da perguntaA segunda lição surge com Sócrates, um pensador que não deixou nada escrito e cujo legado chegou até hoje sobretudo através de Platão.Sócrates dedicava-se essencialmente a conversar e a questionar. Abordava generais, poetas ou políticos e desafiava-os a definir conceitos aparentemente simples como coragem ou justiça.«Sócrates tinha um estilo muito interrogativo. Conversava com as pessoas e mostrava que muitas das certezas que tinham afinal não eram assim tão sólidas», explicou Elrich.Foi nesse processo que surgiu uma das frases mais associadas ao filósofo: «Só sei que nada sei.» Num mundo onde o acesso à informação é imediato, o ensinamento ganha nova atualidade.«Hoje é muito fácil obter dados e informações. Perguntamos ao ChatGPT e recebemos respostas. Mas talvez seja mais difícil ter verdadeiro conhecimento e compreensão», afirmou. Por isso, acrescenta, «já não basta saber. É preciso saber perguntar.»O valor de pararO terceiro exemplo foi Diógenes de Sinope, um filósofo conhecido pelo seu estilo de vida provocador e pela forma como desafiava convenções sociais.Uma das histórias mais conhecidas envolve o encontro com Alexandre o Grande, que quis conhecê-lo pessoalmente. O imperador encontrou Diógenes deitado ao sol e ofereceu-lhe qualquer coisa que desejasse.A resposta tornou-se lendária: «Tenho apenas um desejo: que me devolvas o meu sol.» O motivo era simples — Alexandre estava de pé à sua frente, a fazer-lhe sombra.Para Elrich, o episódio simboliza algo profundamente contemporâneo. «Alexandre representa o mundo e as suas exigências, as notificações, as mensagens, tudo aquilo que hoje invade constantemente a nossa atenção.»Diógenes, pelo contrário, lembra a importância de parar. «Precisamos da capacidade de descansar a mente através do ócio — mas não de um ócio alienado, hipnotizado pelo scroll infinito», disse. «Um ócio em que pensamos, em que conversamos, em que damos espaço à reflexão.» Três desafios para o presenteNo final, Elrich resumiu as três histórias em três desafios simples, mas exigentes. O primeiro, inspirado em Tales de Mileto, é «refletir sobre o propósito e sobre a vida que vale a pena viver», olhando para além do curto prazo.O segundo, inspirado em Socrates, passa por «aprender a fazer boas perguntas e criar ambientes onde as perguntas sejam bem-vindas.»E o terceiro, inspirado em Diógenes de Sinope, é talvez o mais difícil num mundo hiperconectado: «ter a capacidade de parar para pensar.»Antes de terminar, deixou um último desafio à plateia. «Não precisam de começar hoje, nem amanhã», disse. «Mas talvez possam começar depois de amanhã.» Tenha acesso à galeria de imagens do evento aqui.Todos os momentos da Leadership Next Gen estão disponíveis na Líder TV e no canal 560 da NOS.O conteúdo «Precisamos de um ócio livre do scroll infinito», afirma David Elrich aparece primeiro em Revista Líder.