Durante muito tempo, a tecnologia foi apresentada como símbolo de liberdade, progresso e conexão. Para a Geração Z, que nasceu em um mundo já mediado por smartphones, redes sociais e plataformas digitais, essa promessa parecia natural. Trata-se da primeira geração que não precisou se adaptar ao digital, porque já nasceu dentro dele. No entanto, um fenômeno curioso começa a chamar atenção em 2026: justamente a geração mais conectada da história passou a demonstrar sinais crescentes de esgotamento diante do excesso de telas, notificações e estímulos digitais. Não é uma rejeição da tecnologia, mas um questionamento sobre o custo psicológico e social de viver permanentemente conectado.Pesquisas recentes reforçam que essa percepção não é apenas intuitiva. Um levantamento da The Harris Poll mostrou que 81% dos jovens da Geração Z gostariam de conseguir se desconectar com mais facilidade dos dispositivos digitais, enquanto 40% afirmaram que prefeririam viver em um mundo onde as redes sociais sequer existissem. Esses números revelam uma tensão importante: a mesma geração que cresceu sob a lógica da hiperconectividade começa a enxergar a conexão permanente não apenas como benefício, mas também como fonte de desgaste. O dado é relevante porque sugere que a fadiga digital deixou de ser uma preocupação de especialistas e passou a ser sentida por quem vive isso cotidianamente.Parte desse cansaço tem relação direta com o modelo econômico e tecnológico que moldou as plataformas digitais. Redes sociais não são apenas ambientes de interação; elas operam dentro da chamada economia da atenção, em que cada segundo de permanência do usuário possui valor econômico. Isso significa que notificações, rolagem infinita, vídeos curtos e recomendações algorítmicas não são neutros, mas estruturas desenhadas para prolongar engajamento. O problema é que essa dinâmica, ao capturar continuamente a atenção, produz também sobrecarga cognitiva. Muitos jovens passaram a viver em um fluxo constante de interrupções, o que impacta concentração, descanso mental e até a percepção de presença no mundo offline.Além do excesso de estímulos, há um fator mais profundo: a pressão social que emerge dos ambientes digitais. Para muitos jovens, redes sociais deixaram de ser apenas ferramentas de comunicação e passaram a funcionar como espaços permanentes de comparação e performance. Aparência, produtividade, rotina, sucesso e felicidade tornam-se elementos expostos, observados e frequentemente comparados. Isso produz um ambiente em que a vida não é apenas vivida, mas continuamente exibida e, em certa medida, avaliada. Diversos estudos têm relacionado essa dinâmica ao aumento de ansiedade, esgotamento emocional e sensação de inadequação, sobretudo entre usuários mais jovens, que vivem essas interações em fases críticas de formação de identidade.Talvez por isso esteja crescendo o interesse por aquilo que muitos chamam de “desligamento digital”. O que antes era tratado como uma tendência passageira de bem-estar começa a assumir traços de movimento cultural. Jovens têm buscado limitar notificações, reduzir o tempo em redes sociais, utilizar aplicativos para controlar uso de tela e, em alguns casos, retornar a tecnologias mais simples ou criar espaços deliberadamente livres de celular. Pesquisas recentes na Europa e nos Estados Unidos mostram crescimento do interesse por práticas de digital detox e por experiências sociais desconectadas. Esse movimento não representa aversão à tecnologia, mas busca por equilíbrio em uma relação percebida como excessivamente invasiva.Esse fenômeno se torna ainda mais relevante em um momento em que a Inteligência Artificial amplia a capacidade das plataformas de entender e influenciar comportamentos. Hoje, algoritmos não apenas recomendam conteúdos; eles aprendem padrões emocionais, antecipam interesses e personalizam estímulos para maximizar retenção. Isso faz com que o debate sobre cansaço digital ultrapasse a dimensão comportamental e entre também em um campo ético. A questão deixa de ser apenas quanto tempo se passa online e passa a envolver o quanto da atenção humana está sendo mediada e disputada por sistemas desenhados para mantê-la ocupada. Para uma geração que cresceu nesse ambiente, o desejo de desconectar pode ser lido também como desejo de recuperar autonomia.O ponto talvez mais interessante é que a Geração Z não parece rejeitar a inovação, mas questionar um modelo específico de relação com a tecnologia. Há uma diferença importante entre ser contrário ao digital e querer limites para o digital. O que emerge desse debate não é nostalgia de um mundo sem internet, mas uma percepção de que conectividade permanente não é sinônimo automático de bem-estar. Em muitos casos, o desejo não é menos tecnologia, mas uma tecnologia menos intrusiva, menos acelerada e mais compatível com ritmos humanos. Essa é uma crítica sofisticada, porque não mira a inovação em si, mas a forma como ela vem sendo organizada socialmente.Historicamente, grandes mudanças culturais costumam surgir quando uma geração identifica excessos e reage a eles. Talvez estejamos vendo exatamente isso. Se a geração mais digital do mundo começa a desejar pausas, isso pode dizer menos sobre rejeição às telas e mais sobre uma consciência emergente dos limites da hiperconectividade. O “desligamento digital” pode não ser um abandono do futuro, mas uma tentativa de humanizar o futuro. E essa talvez seja uma das discussões mais relevantes desta década: não se a tecnologia conecta demais, mas como preservar autonomia, profundidade e presença em um mundo desenhado para disputar continuamente nossa atenção.Diante desse cenário, torna-se evidente que a discussão sobre tecnologia deixou de ser apenas sobre inovação e passou a envolver saúde mental, autonomia e qualidade de vida. O chamado “desligamento digital” parece menos uma rejeição ao progresso e mais uma tentativa dereequilibrar a relação entre o humano e o tecnológico em uma era hiperconectada.É justamente nesse contexto que o CNPPD 2026 – Congresso Nacional dos Profissionais de Privacidade de Dados se posiciona como espaço relevante para discutir os impactos sociais dos algoritmos, da economia da atenção e dos desafios de equilibrar inovação, privacidade e bem-estar em uma sociedade cada vez mais mediada por Inteligência Artificial.Quer se aprofundar no assunto, tem alguma dúvida, comentário ou quer compartilhar sua experiência nesse tema? Me escreva no Instagram: @davisalvesphd.