A consultoria StoneX revisou para cima a estimativa de superávit global de cacau na safra 2025/26, projetando um excedente de 247 mil toneladas em meio à recuperação da produção após a quebra registrada em 2023/24. Apesar do cenário mais confortável no curto prazo, a empresa alerta para riscos climáticos crescentes que podem limitar esse avanço já no ciclo seguinte.Segundo o relatório, o mercado deve continuar superavitário em 2026/27, mas com um excedente menor, estimado em 149 mil toneladas. A redução é atribuída, principalmente, à possibilidade de intensificação do fenômeno climático El Niño, que pode afetar a oferta global, especialmente na África Ocidental, a principal região produtora.“As condições climáticas têm favorecido a recuperação da produção em 2025/26, mantendo o mercado em trajetória de recomposição de estoques. No entanto, para 2026/27, o avanço rápido das projeções de El Niño adiciona um fator relevante de incerteza”, afirmou o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Lucca Bezzon. Leia Mais Por que os ovos de Páscoa continuam caros? Cacau entra em 2026 em busca de equilíbrio Com demanda enfraquecida, preços futuros do cacau caem forte em Nova York A produção global segue, em geral, alinhada às expectativas iniciais da consultoria, com clima favorável e bom ritmo de entregas nos principais países produtores. Ajustes pontuais foram feitos em mercados como Equador e Camarões, que apresentaram volumes ligeiramente abaixo do previsto. Do lado da demanda, o setor ainda demonstra fraqueza, embora com sinais recentes de estabilização.No Brasil, os dados indicam uma recuperação consistente. A produção cresceu 61% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, sinalizando retomada após a forte quebra de 2023/24. Ainda assim, o risco climático volta ao radar, sobretudo na Bahia, principal região produtora.Na Costa do Marfim, maior produtor mundial, a safra 2025/26 deve atingir 1,834 milhão de toneladas, dentro do esperado. Para 2026/27, a projeção foi levemente reduzida para 1,830 milhão de toneladas, já incorporando possíveis impactos climáticos. Em Gana, a produção também apresenta bom desempenho, com expectativa de superar 600 mil toneladas, embora sujeita a riscos semelhantes no próximo ciclo.O Equador segue com níveis historicamente elevados de produção, apesar de uma desaceleração recente nas entregas, o que levou a um ajuste marginal nas estimativas.O principal fator de atenção para o mercado é a evolução do El Niño a partir do segundo semestre de 2026. Historicamente, o fenômeno reduz a produção global de cacau em cerca de 1,7%, em contraste com o crescimento médio de 2,6% em anos normais. Os impactos variam por região, incluindo maior risco de seca na África Ocidental, estresse hídrico no Brasil e possíveis efeitos mistos na América Latina.No lado da demanda, a moagem global de cacau, indicador do consumo, caiu 2,4% no primeiro trimestre de 2026, uma desaceleração em relação à queda de 7,7% registrada no trimestre anterior. Para a StoneX, o movimento indica uma estabilização gradual, ainda insuficiente para caracterizar uma recuperação plena.A consultoria projeta estabilidade no consumo em 2025/26, com leve alta de 0,2%, e crescimento mais consistente de 2,4% em 2026/27. A recente queda dos preços, que retornaram a níveis mais próximos da normalidade, pode ajudar a estimular a demanda nos próximos meses.Com isso, o mercado caminha para uma reconstrução gradual dos estoques globais. A relação estoque/uso deve subir para 34,0% em 2025/26 e 36,3% em 2026/27, consolidando um processo de normalização após a forte redução observada na safra 2023/24.“O mercado caminha para uma normalização após o choque recente, mas ainda depende da evolução da produção, da retomada da demanda e, principalmente, do comportamento climático nos próximos meses”, concluiu Bezzon.