Na madrugada de 1º de abril, enquanto a espaçonave Orion deixava a Flórida em direção à Lua, uma notificação eletrônica caiu na caixa de entrada do engenheiro Rodrigo Trevisan Okamoto, em São Paulo. A mensagem, enviada pela NASA, confirmava o que ele e a equipe da startup Condor Instruments esperavam há quase três anos: o actígrafo que desenvolveram estava a bordo do voo tripulado mais importante desde a Apollo.“Foi uma surpresa completa. Só depois que a missão acabou descobrimos que os astronautas já vinham usando o equipamento em testes secretos nos dois anos anteriores”, conta Okamoto, cofundador da empresa que nasceu com apoio do programa PIPE-FAPESP, à Agência Fapesp.“Relógio” tem funções bem mais completasO dispositivo parece um relógio esportivo comum, mas sua função é bem mais sofisticada. Ele carrega acelerômetros e sensores capazes de medir luz em diferentes comprimentos de onda e também a temperatura da pele. A combinação dessas informações permite reconstruir o ciclo de sono e vigília do usuário com precisão milimétrica.No espaço, essa capacidade é vital. A cada 90 minutos, a Estação Espacial Internacional testemunha um nascer e um pôr do sol. Dentro da cápsula Orion, a confusão entre dia e noite é total, e o relógio biológico dos astronautas perde suas referências. O resultado é privação de sono, déficit cognitivo e riscos operacionais.“A cronobiologia nasceu financiada pela NASA, justamente pela necessidade de entender como o astronauta dorme lá em cima”, lembra Mario Pedrazzoli Neto, professor da USP que coordenou os estudos que deram origem à tecnologia.Por que o brasileiro é diferenteExistem actígrafos no mercado internacional, mas o brasileiro tem três diferenciais que chamaram a atenção da agência americana. Primeiro, ele monitora simultaneamente movimento, luz e temperatura da pele — as três variáveis centrais para entender o sono. Segundo, mede a chamada luz melanópica, o espectro azul-ciano emitido por telas de celular que inibe a produção de melatonina. Terceiro, tem um botão de eventos que os astronautas acionam em momentos históricos — como no recorde de distância de 406.777 km da Terra, atingido em 6 de abril.“Os telefones emitem luz justamente nesse comprimento de onda. Por isso, usar o celular à noite bagunça o cérebro”, alerta Pedrazzoli.Como começou?A jornada começou nos anos 2000, quando Pedrazzoli precisava de um equipamento confiável para estudar o impacto do horário de verão na população. Na época, não havia produto nacional. Ele então se associou a Okamoto e a Luis Filipe Rossi, engenheiros da Poli-USP, e os três decidiram criar sua própria solução. O PIPE-FAPESP forneceu o fôlego inicial.“Sem esse apoio no começo, quando o risco é mais alto e o capital privado não aparece, não teríamos saído do protótipo”, afirma Okamoto.Hoje, a Condor Instruments exporta entre 200 e 300 actígrafos por mês para mais de 40 países. O dispositivo é usado em pesquisas sobre miopia na Ásia, recuperação de prematuros em UTIs e até mesmo em estudos sobre o cérebro de astronautas.Para a NASA, o objetivo do projeto Archer — do qual o actígrafo brasileiro faz parte — é claro: entender como manter humanos saudáveis e alertas em viagens de meses ou anos no espaço profundo. Os dados coletados na Artemis 2 serão comparados com testes de coordenação motora e questionários respondidos antes e depois do voo. A meta é que os aprendizados sirvam para as missões que levarão humanos a Marte.“O que aprendermos nos ajudará a entender como os astronautas podem sobreviver e prosperar cada vez mais longe da Terra”, resume a NASA em seu site.Relógio da Condor Instruments – Imagem: Divulgação/CondorInstrumentsO próximo desafioAgora, a Condor Instruments corre para se manter como fornecedora da agência nas próximas etapas do programa Artemis, que prevê um pouso tripulado no polo sul da Lua em 2028. “Vamos fazer de tudo para continuar”, diz Okamoto. Para Rodolfo Azevedo, coordenador da área de inovação da FAPESP, o caso é um exemplo de como a ciência de bancada pode se transformar em soberania tecnológica.“Entre os primeiros protótipos e o anúncio de que uma tecnologia brasileira está monitorando astronautas no espaço profundo, houve uma longa jornada de refino”, afirma Azevedo. “Inovação disruptiva exige paciência estratégica.”O post Tecnologia nacional na Lua: o relógio brasileiro que acompanhou os astronautas da Artemis 2 apareceu primeiro em Olhar Digital.