A ressaca dos ‘dias de ouro’ do agronegócio piorou: “Juro de 15% ou 13% não muda nada na conta de quem deve”, diz diretor do Santander

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A ressaca após os “dias de ouro” do agronegócio, iniciada no pós-pandemia, se intensificou nos últimos seis meses, na avaliação do diretor de agronegócio do Santander, Carlos Aguiar. Em conversa com o Money Times no segundo dia da Agrishow — após já ter falado com a redação em outubro do ano passado —, o executivo afirmou que o cenário acabou ficando ainda mais desafiador.“Continuamos em um ambiente bem apertado, principalmente em soja e milho. O cenário piorou com o conflito geopolítico no Oriente Médio, que impacta tanto a logística quanto o petróleo. Isso eleva muito o custo de frete, ainda mais considerando que o Brasil importa fertilizantes e depende bastante do transporte interno. A margem, que já estava pressionada, ficou ainda mais comprimida”, disse.Para o banco, as perspectivas seguem pouco animadoras. Não há sinais claros de queda nos custos, especialmente diante da incerteza sobre a duração do conflito.“Não sabemos se isso vai acabar em um, dois ou seis meses. Mas, mesmo que termine, o mercado ainda leva cerca de seis meses para se normalizar”, afirmou.Segundo Aguiar, uma possível ajuda viria da queda dos juros, mas o ritmo lento de redução da Selic limita esse alívio.“A taxa deve cair 0,25 ponto percentual, mas, nesse ritmo, chegaríamos ao fim do ano em torno de 13%. E um juro de 15% ou 13% não muda nada na conta de quem está endividado. O cenário continua difícil, com pouca perspectiva de melhora no curto e médio prazo.”Apesar disso, ele ressalta que não há problemas do lado produtivo. As safras seguem fortes e alguns segmentos, como café e proteína animal, vivem um momento mais favorável.Para 2026, a carteira de crédito agro do Santander deve permanecer estável em cerca de R$ 50 bilhões. Na Agrishow deste ano, o foco do banco foi o diagnóstico individual dos produtores.“Trouxemos mais de 100 pessoas para ouvir o produtor de perto e entender a necessidade de cada um. Há quem precise de prazo, quem precise de apoio. Estamos oferecendo uma consultoria personalizada.”Aguiar destaca ainda que as soluções não passam apenas por crédito. “Se o produtor quiser trocar uma máquina, por exemplo, o consórcio pode ser uma alternativa, com taxas mais atrativas.”A expectativa é fechar a feira com cerca de R$ 1,4 bilhão em negócios, em linha com o ano passado — embora o executivo reconheça um tom mais cauteloso diante do cenário atual.O que fazer, produtor?Para Aguiar, o momento exige maior disciplina na gestão. “O produtor domina a parte técnica — plantar, colher, escolher insumos —, mas precisa evoluir na gestão financeira e de risco, para evitar problemas recorrentes.”Ele alerta que a situação é ainda mais delicada para o arrendatário, que enfrenta maior dificuldade de acesso ao crédito e margens mais apertadas.“Muitas vezes não sobra dinheiro para pagar tudo: ou o arrendamento, ou o banco.”O caminho para quem está endividado depende do nível de alavancagem.“Há produtores capitalizados aproveitando oportunidades para expandir. Outros, mais pressionados, deveriam procurar os bancos e negociar. Já quem está muito alavancado precisa considerar vender parte do patrimônio para não perder tudo.”Na avaliação do executivo, a recuperação do setor ainda deve levar entre um ano e meio e dois anos, embora o cenário siga altamente volátil.As recuperações judiciais e o agronegócioAs recuperações judiciais (RJs), que ganharam força no agronegócio em 2024, começam agora a mostrar seus desdobramentos — e muitos resultados não têm sido favoráveis aos produtores.“À medida que esses casos ganham visibilidade, cresce a percepção de que a RJ não é, necessariamente, a melhor solução”, afirmou.Na visão de Aguiar, o instrumento não é adequado para quem possui garantia real, como terra.“Nesses casos, o risco de perder o patrimônio é alto. A RJ faz mais sentido no mercado corporativo, onde não há esse tipo de garantia.”Como aprendizado, ele destaca que muitas recuperações poderiam ter sido evitadas com negociação direta com credores.“Hoje, os bancos estão mais abertos ao diálogo. Já vemos casos de produtores que entraram em RJ e se arrependeram.”