O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil acumulou alta de 2,3% em 2025, somando R$ 12,7 trilhões. Sob efeito dos juros altos e dos desafios estruturais na economia, o resultado divulgado nesta terça-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra a desacelerção da atividade, se comparado a 2024, quando o PIB avançou 3,4%.No quarto trimestre, a economia patinou e registrou um avanço de 0,1% que, embora em linha com as expectativas, coloca o dado em patamar quase nulo. Na reta final do ano, o consumo das famílias ficou estagnado (0,0%), enquanto setores dependentes de crédito sofreram fortes reveses, como o comércio, que encolheu 0,3%, e a construção civil, que amargou um recuo expressivo de 2,3%.A economia de duas velocidadesA abertura dos dados indica uma dinâmica econômica dividida. De um lado, setores ligados à exportação e menos dependentes do crédito interno garantiram o resultado azul do ano. Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, explica que a força motriz esteve no campo e na indústria extrativa. Segundo a especialista, os destaques do crescimento foram a agropecuária, que foi a maior taxa com 11,7%, com safras recorde de soja e milho, além do extrativismo mineral, com foco na extração de petróleo e gás.Rodolfo Margato, economista da XP, também ressalta que a agropecuária e a indústria extrativa (que saltou 8,6% no ano) foram os verdadeiros protagonistas. “Sem a contribuição desses dois setores menos sensíveis à política econômica, o PIB teria crescido algo como 1,3%, bem inferior aos 2,3%”.Para a equipe econômica do Banco Bradesco, a economia ficou praticamente parada no segundo semestre do ano passado, com desaceleração importante da demanda doméstica. “Os efeitos da política monetária restritiva sobre a atividade econômica tem se acumulado e têm contribuído para a desaceleração da inflação”, avaliam, em documento. Demanda interna perde traçãoQuando analisados os dados de demanda e consumo, a fraqueza do fechamento de 2025 fica mais clara. Rebeca Palis destaca os números que mostram a desaceleração do crescimento do consumo das famílias, que passou de uma alta de 5,1% em 2024 para apenas 1,3% no consolidado de 2025. Para a coordenadora do IBGE, isso se deve principalmente à política monetária restritiva e também ao recorde de endividamento das famílias.PIB 2025 e o acumulado no ano por setor (Crédito: Reprodução/IBGE)A análise de Laura Moraes, economista da Neo Investimentos, reforça essa fadiga. Ela observa que a composição do PIB no quarto trimestre frustrou as expectativas, especialmente no front interno. A economista destacou que o mercado aguardava uma leve alta de 0,2% no consumo das famílias, mas o resultado foi zero. “Pelo segundo trimestre consecutivo, o consumo das famílias ficou praticamente de lado, o que mostra um pouco mais de fraqueza”, avalia.O ambiente de juros elevados também penalizou os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que registrou queda de 3,5% no quarto trimestre. O principal vilão desta rubrica foi a construção civil. Laura Moraes chama atenção para a complexidade deste setor específico, ponderando que, apesar do recuo nos números oficiais do PIB, há relatos de falta de mão de obra nos canteiros, o que indica ciclos longos de maturação das obras que ainda tentam se equilibrar frente ao encarecimento do crédito.O que esperar para 2026?Diante do esgotamento evidenciado no fim de 2025, o mercado projeta um cenário de crescimento moderado para 2026, altamente dependente de estímulos e de um afrouxamento monetário. A expectativa é que o início do ciclo de cortes da taxa Selic, possivelmente no ritmo de 50 pontos-base, reanime (um pouco) o comércio e a indústria, embora os juros devam encerrar o ano em patamar ainda elevado.Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, avalia que o engessamento da economia provou que há um cenário adequado para o início do ciclo de redução na Selic, apesar das pressões externas do petróleo. “Há espaço para o Banco Central iniciar os cortes na taxa básica de juros no ritmo de 0,50 ponto percentual, o que traria alívio aos setores estrangulados pelo crédito”, avalia.Segundo Rodolfo Margato, a XP projeta um avanço de 2,0% para o PIB de 2026. O economista aposta em uma bateria de medidas governamentais para sustentar a absorção interna, citando a aceleração de concessões de crédito, incentivos à construção civil — como a ampliação de limites do programa Minha Casa, Minha Vida —, além de estímulos para renovação de frotas e auxílios de renda. Margato calcula que essas ações vão injetar fôlego novo na economia: “A estimativa é de impacto de até 0,9 ponto porcentual dessas medidas sobre o crescimento do PIB total em 2026, ou seja, respondendo por quase metade do crescimento de 2% projetado para este ano”. Em contrapartida, outras alas do mercado, como o Banco Bradesco, demonstram maior cautela. A estimativa é de uma desaceleração mais pronunciada, prevendo um avanço de 1,5% para o agregado ao fim de 2026.The post PIB 2025 mostra consumo empacado e recuo da construção sob aperto dos juros appeared first on InfoMoney.